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Crítica | The Juniper Tree (A Árvore do Zimbro)

por Michel Gutwilen
694 views (a partir de agosto de 2020)

Claro que um bom modo de divulgar o filme islandês The Juniper Tree (em uma tradução livre, A Árvore do Zimbro), em 2020, é o fato dele ter sido o primeiro no qual a cantora-atriz Björk atua. Não só isso, mas a produção de 1986 (lançada só em 1990) ganhou, recentemente, uma lindíssima restauração em 4K (entre os financiadores estava a George Lucas Foundation), que só ressalta o caráter bucólico e as cores preto-e-branco da fotografia. Já outros que chegam até ele podem ser entusiastas dos contos dos Irmãos Grimm, uma vez que seu roteiro é uma vaga adaptação de um deles. Porém, se gastei quase um parágrafo inteiro falando sobre boas justificativas para assistir ao longa-metragem da diretora Nietzchka Keene, é porque, na verdade, essas ainda não são suas melhores qualidades. Estamos diante de uma narrativa muito singular sobre bruxaria, quase uma versão arthouse deste subgênero, sendo menos uma história de terror e mais sobre espiritualidade, luto, o poder dos ritos e a relação do homem (lato sensu) com a natureza.

Sobre o enredo, trata-se de duas irmãs, recéns-orfãs, Margit (Björk) e Katia (Bryndis). Elas fogem pelo campo após a mãe ter sido queimada por bruxaria. Ao encontrarem o viúvo Jóhann (Guðrún) e seu filho Jonas (Valdimar), a mais velha seduz o homem para ser seu marido e os quatro passam a viver juntos em uma cabana no meio do nada. O desenrolar disso leva a uma rejeição do menino com madrasta, além de Margit começar a ter o despertar de seus poderes, tendo visões das duas mães falecidas, ao mesmo tempo que rejeita sua condição mística.

Neste sentido, é como se a abordagem de Keene estivesse em sintonia com essa própria negação do misticismo. Em The Juniper Tree, a magia está menos nos acontecimentos da história em si e mais na mise-en-scène (a unidade estilística) escolhida pelo diretora. Paradoxalmente, é um filme tanto naturalista quanto anti-naturalista. Essa dubiedade está muito presente nas localizações exteriores da Islândia que preenchem o longa. Por um lado, existe uma fotogenia naturalista muito clara nos campos, montanhas e riachos escolhidos, que, neste sentido lembram até um filme de Jean Renoir, como Um Dia no Campo. A isso, soma-se a presença muito viva de ruídos da natureza (pássaros, cachoeiras, a onda do mar) compondo o som diegético. Como uma pintura, é tudo muito limpo, calmo, grandioso. 

Porém, há também um maneirismo na forma como tais lugares são filmados. Isso é algo que já começa desde a escolha de uma fotografia em preto-e-branco e passa por uma decupagem extremamente rigorosa e calculada, seja nos sutis movimentos de câmera (o zoom out enquanto Björk canta é de um poder inacreditável) ou na escolha por planos fixos e gerais, que geram tanto um artificialismo quanto um caráter até mágico a essas sequências. Quando os cânticos angelicais começam, é quase como se realmente houvesse uma força oculta presente seja no quadro ou no no fora do quadro. 

Dito isso, The Juniper Tree é muito mais sobre a sugestão do que sobre exposição. Existe uma preocupação muito grande, principalmente nas cenas de interior, em enfatizar os pequenos gestos de planos-detalhe que os transformam em verdadeiros rituais. Do jogo de sombras com a mão na parede até a fiação de lã, tudo ganha esse ar de que algo está de místico está acontecendo por trás desses pequenos gestos. Além do mais, essas sequências contrastam muito bem a imensidão dos planos longos e vazios feitos no exterior, uma vez que são muito mais claustrofóbicas e intimistas, tanto pela aproximação dos personagens com a câmera quanto pelo uso das sombras que quase sempre escondem o interior da cabana, relegando ao quadro apenas a visão do essencial — o que também não deixa de reforçar essa sensação de que algo está escondido. 

Nas primeiras aparições espirituais há uma tentativa por parte de Keene em esconder ao máximo possível o que está acontecendo, uma vez que vemos as mulheres em formatos de sombras, atrás de janelas embaçadas ou do fogo, até para representar este estado de negação da personagem de Björk. Conforme a narrativa avança, as sombras ganham formas, e estas são perfeitamente humanas, em consonância com a escolha da diretora em nunca abrir mão deste jogo entre o realismo e a sugestão. 

Portanto, a bruxaria em The Juniper Tree não está associada ao uso comum do tema dentro de uma perspectiva do terror. Tampouco a magia é associada a um dualismo entre o bem e do mal. Neste sentido, trata-se de uma narrativa sobre descobrir o oculto e o desconhecido. Não à toa, o encerramento do filme é marcado justamente pelo encontro de Margit com o céu, que desta vez assume um caráter totalmente onírico, e do homem sumindo no horizonte da montanha. Sobre aceitar e saber lidar com os eventos misteriosos proporcionados pela vida. 

The Juniper Tree  – Islândia, 1990
Direção: Nietzchka Keene
Roteiro: Nietzchka Keene
Elenco: Björk Guðmundsdóttir, Bryndis Petra Bragadóttir, Guðrún Gísladóttir, Valdimar Örn Flygenring, Geirlaug Sunna Þormar
Duração: 79 min.

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