Crítica | The Last Days of American Crime (graphic novel)

Em 2009, mesmo ano em que Rick Remender começou seu contrato de exclusividade com a Marvel Comics depois de demonstrar sua criatividade na Image Comics (Fear Agent) e na Dark Horse Comics (The End League), ele ainda conseguiu lançar uma minissérie em três edições pela Radical Comics que misturava uma narrativa neo-noir extremamente violenta com uma distopia que coloca os EUA como um país totalitário, isolado do mundo, e que pretende eliminar o dinheiro em papel ao mesmo tempo em que passa a transmitir uma frequência que impede o cometimento de crimes. Nesse cenário problemático de controle mental sob o disfarce de se proteger o cidadão, um homem reúne uma equipe para cometer um último crime antes que eles passem a ser impossíveis.

Sem perder tempo com qualquer tipo de contextualização, a história começa com Graham Brick, um cinquentão durão que vive em um trailer com sua mãe que sofre de Alzheimer, arregimentando um casal de bandidos para tornar seu golpe possível. O traiçoeiro Kevin Cash fica encarregado de conseguir um laser altamente especializado e sua voluptuosa namorada Shelby Dupree é uma hacker que sabotará o sistema do banco onde Graham trabalha na virada do dia em que o dinheiro vivo deixará de existir e que o sinal começará a ser transmitido. Em meio a essa preparação de uma semana, Graham precisa ainda enfrentar uma gangue de mexicanos comandada por Enrique, que foi seu parceiro uma vez, além de um informante da polícia, ou seja nada terrivelmente diferente do que nos acostumamos a ver por aí em HQs, séries e filmes dessa natureza.

As capas de Alex Maleev.

A escolha de Remender de já começar no meio da ação preparatória do crime depois de um preâmbulo que estabelece um cliffhanger não é das mais simples ou mais bem executadas, porém. Não é nem um pouco intuitivo notar o que está prestes a acontecer nos EUA e o anti-didatismo do texto incomoda um pouco justamente por não apresentar, logo de início, uma situação macro que seja diferente o suficiente para prender o leitor. A arte pintada de Greg Tocchini também não ajuda, pois, apesar de ser por vezes muito bonita, ela não é exatamente cuidadosa na identificação dos personagens. Somente Shelby é marcadamente diferente não só por ser mulher, mas também por contar com tatuagens de estrelas brancas pelo corpo, além de ter sua anatomia extremamente sexualizada, como se o desenhista e também o roteirista precisam sempre estabelecer que ela até pode ser a hacker, mas seu verdadeiro objetivo é ser a mulher-objeto que transa enlouquecidamente, é desejada por todos e, claro, fica constantemente em perigo apesar de saber se virar aqui e ali.

Com isso, a curta história demora a realmente funcionar, algo que só acontece de verdade lá pela metade da segunda edição e isso depois da ajuda de um “resumo” no início que esclarece muitos aspectos que Remender atabalhoadamente derrama no primeiro terço sem preocupar-se com um mínimo de explicações. E não é uma questão de querer tudo explicadinho, vale frisar, pois eu mesmo sou o primeiro a reclamar de didatismo em quadrinhos ou obras audiovisuais. Mas existe um abismo muito grande entre textos demasiadamente expositivos e nenhum texto explicativo. Remender fica constantemente no segundo, com Tocchini muito mais preocupado com o grafismo das mortes e da pancadaria do que em tornar visualmente palatável os arroubos do roteirista.

No entanto, uma vez que a história engrena e o leitor percebe que não há nada particularmente original no que está sendo contado, a narrativa passa a fluir razoavelmente bem, ainda que a trinca protagonista jamais realmente prenda a atenção ou ganhe desenvolvimento que vá além do mínimo necessário para que seja possível compreender o que eles pretendem fazer. Nesse mesmo momento, é possível relaxar a apreciar a arte enlouquecida e extremamente colorida de Tocchini, que se torna particularmente boa na metade final da terceira edição que, claro, se encaixa com o cliffhanger do preâmbulo.

The Last Days of American Crime não é uma minissérie nem de longe memorável. História batida e executada na base da violência e sexualização excessivas para agradar gostos duvidosos e personagens pouco carismáticos em uma distopia padrão. Diverte depois que a confusão é dissipada, mas não muito mais do que isso.

The Last Days of American Crime (EUA – 2009/2010)
Contendo: The Last Days of American Crime #1 a 3
Roteiro: Rick Remender
Arte: Greg Tocchini
Letras: Rus Wooton
Capas: Alex Maleev
Editoria: Luis Reyes
Editora original: Radical Comics (Radical Publishing)
Data original de publicação: dezembro de 2009, abril de 2010
Páginas: 183

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.