Crítica | The Last Days of American Crime

Ao final de 2009, Rick Remender e Greg Tocchini lançaram uma minissérie em quadrinhos de apenas três edições que lidava com o último crime cometido em uns EUA distópico e totalitarista prestes a implantar um sinal que impede as pessoas de cometer crimes. Uma boa ideia que foi, infelizmente, subdesenvolvida na HQ. Corta para 2018, no início da produção do filme homônimo, e o roteirista Karl Gajdusek aparentemente percebeu esse problema na obra original e tratou de arregaçar as mangas para dar estofo ao material, mas sem saber dosar o quanto explicar, gerando o resultado oposto.

Em outras palavras, uma história simples que apenas precisava ser levemente expandida para ficar realmente boa, torna-se um letárgico mamute preso em um poço de piche lentamente se mexendo para tentar sair de sua prisão. Essa metáfora pouco inspirada que acabei de fazer é um reflexo do roteiro do filme, que fique claro, até porque eu me senti um cadáver sendo lentamente mumificado pela ação de milhões de anos vendo essa desnecessariamente longa produção de quase 2h30′ que parece ser mais longa do que as três partes de O Hobbit juntas e em câmera lenta.

Tento com todas as minhas forças evitar classificar um filme apenas como “chato”, pois esse adjetivo é algo tão comum e banal nesse mundo apressado em que vivemos, com as pessoas mal tendo paciência para aguentar alguns minutos paradas sem olhar para o celular e sem que haja uma gratificação instantânea (como sardinhas para focas), mas não deu. Eu juro que tentei, mas foi impossível. The Last Days of American Crime é uma maçante, enjoada, modorrenta, tediosa e sonolenta chatice do começo ao fim, incapaz de chamar atenção por alguma caraterística especial ou artifício narrativo bem executado (como em Resgate, por exemplo) ou sequer uma atuação minimamente decente. Chegou a um ponto da interminável e torturante duração que eu já teria ficado plenamente satisfeito com uma perseguição automobilística impossível à la Velozes e Furiosos, uma cena de sexo risqué como em Cinquenta Tons de Cinza ou violência realmente explícita como em Rambo IV. Mas não. Tudo o que temos são perseguições tão emocionantes quanto a de O.J. Simpson (o verdadeiro), sexo tão quente quanto em A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2 e violência cartunesca no nível de filmes de super-herói. Somente para não dizer que não há nada, talvez a sequência inicial em que Graham Bricke (Edgar Ramírez) executa um colega com querosene (porque queima mais lentamente) colocando um charuto aceso na boca do sujeito completamente embebido no combustível tenha seu valor, mas fica perdida nos 145 minutos restantes…

Aliás, falando em Edgar Ramírez, nossa, que atuação tenebrosa ele tem aqui. Aliás, “atuação” é bondade minha. O ator é caras e bocas de raiva, dor e desejo que são absolutamente fungíveis. Basta comparar seu “magnífico trabalho” nas sequências em que transa com a hacker Shelby Dupree (Anna Brewster) com outras em que ele é queimado vivo ou em que leva tiros a queima-roupa. É aquela expressividade de maçaneta enferrujada que impede qualquer conexão com seu personagem. E quase o mesmo vale para Brewster, cuja Shelby é desavergonhadamente uma mulher-objeto (algo que vem da HQ, mas que o roteiro poderia ter mudado) e para Michael Pitt, que pelo menos tem a vantagem de viver o louco varrido Kevin Cash, namorado oficial da moça.

E nem vou culpar apenas o elenco, pois creio que essa uniformidade negativa é muito mais pela incapacidade de Olivier Megaton de dirigir atores do que qualquer outras coisa. Basta verificar o currículo do cineasta para notar que sua especialidade é ação rasteira que só ganha algum destaque quando determinado ator ou atriz com quem ele trabalha consegue passar por cima de sua extrema burocracia atrás das câmeras. E, claro, não é esse o caso aqui, já que o elenco simplesmente está no automático e o filme se arrasta entre sequências desnecessariamente longas (praticamente 100% do tempo, mas valendo especial destaque para o confronto final entre Graham e Kevin, que é mais lento do que cágado manco subindo escada), subtramas sem sentido como a do policial vivido por Sharlto Copley, outras inadvertidamente hilárias como a lavação de roupa suja de Kevin no escritório de seu pai e outras ainda que parecem terem sido criadas para outro filme qualquer (como a dos snipers atrás de Graham). Megaton simplesmente não sabe quando parar, o que cortar e em que ordem colocar suas sequências, entregando um filme que nunca chega em um clímax que seja.

The Last Days of American Crime consegue a façanha de não trazer valor algum para o espectador, mesmo para aqueles que procuram apenas ação descerebrada. É um filme vazio, imbecilizante e, pior, que exige um investimento de tempo considerável. Seria muito mais proveitoso gastar esse tempo dormindo ou enfiando bambu embaixo da própria unha…

The Last Days of American Crime (EUA, 05 de junho de 2020)
Direção: Olivier Megaton
Roteiro: Karl Gajdusek (baseado em graphic novel de Rick Remender e Greg Tocchini)
Elenco: Édgar Ramírez, Anna Brewster, Michael Pitt, Sharlto Copley, Sean Cameron Michael, Alonso Grandio, Daniel Fox, Robert Hobbs
Duração: 148 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.