Crítica | The Last Kingdom – 2ª Temporada

  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas. 

Uhtred de Bamburgo, o saxão de coração danês que é o protagonista das Crônicas Saxônicas, de Bernard Cornwell, coleção que, como é a marca do autor, conta histórias reais a partir de um ponto de vista fictício, retorna para a 2ª temporada da série da BBC mantendo seu status de constante salvador da pátria cuja lealdade é permanentemente posta em xeque pelo rei Alfredo, de Wessex, futuro Alfredo, o Grande, um dos dois monarcas britânicos a receber essa alcunha. Começando não muito tempo depois do fim do primeiro ano da série, mais uma vez o sonho de Uhtred de retomar o castelo de seu pai na Nortúmbria é adiado em razão de seu juramento ao rei profundamente cristão.

A temporada tem uma divisão estranha, para começo de conversa. Ela é quebrada em dois arcos, com o primeiro sendo, na verdade, o efetivo final da 1ª temporada, com Uhtred salvando o rei Guthred das garras de Sven e, depois de diversos percalços (vamos chamar assim só pelo momento), finalmente obtendo sua vingança contra Kjartan e seu filho ao lado de Ragnar, salvando Thyra no processo. Em seguida, há um lapso temporal de três anos que acelera a vida de casado de Uhtred, agora com dois filhos e vivendo nas terras prometidas por Alfredo, mas ainda sem ganhar a confiança do rei mesmo depois que ele resgata quase sozinho sua filha que fora sequestrada pelos irmãos Erik e Sigefrid, linha narrativa principal que sustenta essa segunda parte.

Normalmente, temporadas divididas em arcos merecem todo o respeito, pois são elas que normalmente fazem o melhor uso de seus episódios, contando histórias mais curtas que conversam entre si. Esse expediente é particularmente interessante em temporadas longas, de mais de 12 ou 13 episódios, pois permite tempo para o desenvolvimento necessário. Não é, porém, o que acontece aqui, já que assim como a primeira, a segunda temporada de The Last Kingdom tem econômicos oito episódios, tornando essa escolha menos interessante.

O que mais chama a atenção é a velocidade como tudo acontece, especialmente na primeira metade da temporada. Uhtred começa como herói salvador de Guhtred, torna-se escravo do escravagista islandês Sverri e depois uma força vingativa da natureza em dois piscares de olhos sem que os roteiros saibam tirar proveito máximo dessa história. Isso é particularmente evidente no episódio 2X03, que se passa ao longo de vários meses, com o protagonista e seu fiel escudeiro Halig como escravos remando incessantemente na galé islandesa pelos mares do norte. Havia uma rica história a ser contada ali que poderia ter populado até mesmo um arco inteiro da temporada, mas, ao revés, o que temos é um roteiro que corre contra o tempo e, com isso, tira a força da tortura por que passa Uhtred, esvaziando significativamente a traição de Guhtred e, depois, a vingança do protagonista. É como se a escravidão fosse apenas “mais um dia” na vida dele, iniciada e encerrada em apenas uma hora e fazendo com que Jon East, diretor do episódio, tenha que utilizar elipses temporais que só funcionam – e mesmo assim de forma bem rasteira – em razão da passagem de tempo marcada pelas estações.

E o mesmo vale para o episódio seguinte, que é o fim desse primeiro arco e o epilogo da escravidão de Uthred, o que inclui sua vingança de Kjartan e Sven. Novamente, a correria é insana, as elipses ainda mais pobres e os dividendos pagos perdem seu significado no grande jogo territorial e pessoal que é central à trama. Personagens importantes vêm e vão com velocidades vertiginosas, muitas vezes sem mortes, ou seja, eles são apenas jogados de lado como Ragnar e Brida e também Guhtred e Hild, como se, uma vez cumpridas suas funções, eles sequer fossem dignos de menção.

Quem provavelmente já viu a temporada posterior ou já leu os livros provavelmente correrá para me corrigir sobre a questão acima, mas não estou falando do material fonte ou do futuro. Falo dessa temporada aqui, que sim, descarta personagens sem realmente encerrar seus ciclos dentro do próprio arco em que são “usados”. Voltamos, portanto, à questão do espaço minúsculo que a série teve para se movimentar, algo amplificado pela escolha de se contar, em velocidade altíssima, duas histórias que mereceriam uma temporada dedicada para cada.

No entanto, o segundo arco da temporada é bem mais hábil no equilíbrio do uso dos personagens e na arte de contar uma história compassada, ainda que tudo acabe girando em torno das estratégias de guerra de Uhtred, aparentemente a única pessoa em toda Wessex e Mércia que é capaz de pensar. O retorno de Erik e Sigefrid com um plano sobrenatural para enganar Uhtred de certa forma faz mímica da própria estratégia de Uhtred no arco anterior, mas a verdade é que ele, dentro da engrenagem mais ampla, funciona bem não exatamente para o protagonista, mas sim para Alfredo.

Deixe-me explicar. O grande trunfo da temporada – diria que da série como um todo até agora – é trabalhar David Dawson como o pio rei Alfredo que começaria o processo de unificação da Inglaterra sob uma só bandeira. É esse processo que vemos em franco andamento nessa temporada e é esse personagem que ganha, mesmo que “pelas bordas”, o melhor desenvolvimento. Sim, ele é irritante, daqueles que dá vontade de pular na tela para espancar, mas é isso que o torna fascinante. Sua dedicação cega a Deus, sua desconfiança de Uhtred simplesmente por ele ser pagão apesar de tudo o que o protagonista faz por ele, sua incapacidade de fazer o mesmo sacrifício que Odda fizera para salvar Wessex, preferindo entregar todas as riquezas aos daneses que sequestraram sua filha o torna quase que o vilão da série.

Dawson, com sua aparência plácida, quase moribunda, algo que a equipe de maquiagem ajuda sobremaneira, cria um Alfredo obstinado que não se vale de gritos e movimentos bruscos para ser quem ele é. Se Sigefrid é o arquétipo do vilão histriônico, com direito até a uma faca no lugar da mão cortada por Uhtred, Alfredo é seu exato oposto, muito calmamente impingindo sua vontade a quem quer que seja, amigo ou inimigo, sem distinção. Em toda sua obediência à Deus, vemos um homem capaz de descer o machado na cabeça de quem quer que seja para conseguir seus objetivos, não importando que ele tenha que, como Odda diz, cobrar do povo um terço de suas riquezas em um momento e sua vida no outro. Nessa mesma toada, mas em direção diametralmente oposta, não esqueçamos de Alexander Dreymon, que realmente não consegue ser mais do que um rostinho bonito com sotaque para lá de estranho que tenta, mas não consegue convencer como Uhtred, mas que tem a sorte de ter, ao seu redor, uma história muito boa a ponto de ser possível até fingir que ele não é o equivalente medieval de Stephen Amell.

Além disso, voltando à estrutura de roteiro, percebe-se que o segundo arco goza de uma convergência narrativa exemplar, culminando em um clímax pluripartite muito bem trabalhado com Uhtred resgatando Æthelflæd de um lado, Odda desafiando o rei de outro e o próprio rei saindo para encarar Odda em um terceiro vértice, com diversos pequenos focos de personagens entre um lado e outro. Tudo o que o primeiro arco tentou ser, o segundo consegue ser com sobras, encerrando a história de maneira convincente e, melhor ainda, sem um cliffhanger evidente para a 3ª temporada.

A 2ª temporada de The Last Kingdom consegue aprender com os erros da 1ª, mas acaba mesmo é substituindo-os por outros tão problemáticos quanto. Mesmo assim, as aventuras fictícias de Uhtred de Bamburgo em um pano de fundo histórico e absolutamente fascinante por ser normalmente muito pouco conhecido merecem ser conhecidas.

The Last Kingdom – 2ª Temporada (Reino Unido, 16 de março a 04 de maio de 2017)
Showrunners: Nigel Marchant, Gareth Neame
Direção: Peter Hoar, Jon East, Jamie Donoughue, Richard Senior
Roteiro: Stephen Butchard, Ben Vanstone, Sophie Petzal (baseado em romances de Bernard Cornwell)
Elenco: Alexander Dreymon, David Dawson, Tobias Santelmann, Emily Cox, Simon Kunz, Harry McEntire, Joseph Millson, Ian Hart, Eliza Butterworth, Thure Lindhardt, Eva Birthistle, Gerard Kearns, David Schofield, Peri Baumeister, Peter McDonald, Mark Rowley, Alexandre Willaume, Julia Bache-Wiig, Ole Christoffer Ertvaag, Björn Bengtsson, Cavan Clerkin, Arnas Fedaravičius, Christian Hillborg, Jeppe Beck Laursen, Toby Regbo, Millie Brady, James Northcote, Adrian Bouchet, Ewan Mitchell, Simon Stenspil
Duração: 466 min. (8 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.