Crítica | The Last Kingdom – 3ª Temporada

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas. 

Com uma passagem de tempo substancial e com um novo corte de cabelo para Uhtred Ragnarson – ou Uhtred de Bamburgo -, a 3ª temporada de The Last Kingdom finalmente mostra o potencial televisivo das Crônicas Saxônicas de Bernard Cornwell. Com nada dos arcos mal acabados como na temporada anterior e da simplicidade narrativa do primeiro ano, a história real do início da formação da Inglaterra sob o reinado de Alfredo, o Grande pelos olhos de um guerreiro fictício meio-saxão, meio-danês ganha peso e drama nas medidas certas, algo que beneficia até mesmo o fraco Alexander Dreymon no protagonismo.

Nunca gostei muito da dependência da série em profecias, juramentos e maldições, pois esses artifícios foram usados à exaustão não como elementos paralelos, mas sim como verdadeiros impulsionadores da narrativa. Claro que esse elemento pagão da história serve de importante antítese ao cristianismo fervoroso de Alfredo (David Dawson), mas ele, até aqui, havia sido trabalhado de maneira pouco fluida, surgindo apenas quando estritamente necessário e sendo esquecido em seguida. A 3ª temporada continua a tendência, mas, pela primeira vez, há uma costura muito boa que faz uso de uma bruxa viking, Skade (Thea Sofie Loch Næss – que nome sensacional é esse?), como propulsora de intrigas, mortes, traições e de uma maneira diferente de “prender” Uhtred a um caminho que ele é obrigado a trilhar a contragosto.

Em termos narrativos, a temporada é separada com o que podemos classificar como o universo micro, finalmente fazendo com que Uhtred quebre seu juramento ao rei Alfredo, tornando-se um fora-da-lei sem propriedade e título e seguido por um fiel grupo de guerreiros, especialmente o ótimo trio formado pelo irlandês Finan (Mark Rowley), o “frade-bebê” Osferth (Ewan Mitchell) e o viking Sihtric (Arnas Fedaravičius). Isso o leva à novamente aproximar-se de seu irmão Ragnar Ragnarson (Tobias Santelmann) e a esposa dele Brida (Emily Cox), o que o leva – aí já chegando na estrutura macro da temporada – a envolver-se na formação do Grande Exército Danês (também conhecido como Grande Exército Pagão) que conta com a reunião também dos chefes Sigurd, ou Cabelo de Sangue (Ola Rapace), que originalmente era o “predestinado” por Skade a ser o assassino de Alfredo, Haesten (Jeppe Beck Laursen), como sempre covarde e oportunista e Cnut (Magnus Bruun), primo de Ragnar que deseja Brida.

Essa volta ao seio viking é muito bem-vinda, com alianças que se foram e são desmanteladas da noite para o dia e toda a interação entre os chefes, com Uhtred sempre profundamente dividido entre sua conexão familiar com Ragnar e Brida e, claro, com o povo danês e sua origem saxônica e também por seu respeito ao rei Alfredo, por mais ingrato e irritante que ele seja. Há muita riqueza nesse lado pagão que continua firme e forte com o uso de Skade como aquele diabinho que fica no ombro das pessoas sempre sussurrando intrigas e com a maldição que ela joga em Uhtred tendo efeitos físicos críveis no personagem (digo críveis, pois eles se encaixam com seus momentos de perda e fraqueza, o que mantém a dubiedade do lado “místico” sempre acesa, mas sempre em xeque) e, também, com os eventos que levam até ao covarde assassinato de Ragnar pelo traiçoeiro Æthelwold (Harry McEntire, melhor do que nunca).

Do lado macro, a temporada também não fica para trás e lida com a sucessão de Alfredo, cada vez mais doente e ciente de sua morte próxima sem deixar um herdeiro que inequivocamente será aceito por todos. Seu filho Edward (Timothy Innes), que já começa a série adulto, marcando fortemente a passagem temporal, ainda é um “rei em treinamento” e o conselho – ou Witan – uma espécie de parlamento de Wessex não o tem como sucessor certo, fazendo com que grande parte da temporada seja dedicada a construir o personagem basicamente do zero. Para conseguir esse feito em tão pouco tempo e sem recorrer a novas passagens temporais, algo que felizmente não acontece, o jovem ganha brevíssimos momentos de protagonismo, normalmente conectados com Uhtred de uma forma ou de outra, o que já estabelece não só a sucessão monárquica, como, também, a sucessão de monarcas a quem o protagonista faz juramentos ou de outra forma é leal. Talvez sejam eventos que aconteçam rapidamente demais, mas eles funcionam bem dentro da lógica estabelecida.

Nem tudo são flores, porém. Além de Edward ganhar um fast track, novamente há uma dependência muito grande em cima de Uhtred como se ele fosse o único salvador possível para a futura Inglaterra. Claro que ele é o protagonista e a atenção toda dada a ele faz todo o sentido, mas a falta de personagens semelhantes a ele em termos de força – a exceção fica, como sempre, sendo Alfredo, em mais um trabalho dramático belíssimo de Dawson – acaba deixando transparecer uma artificialidade à trama. Mesmo que os vikings em si ganhem destaque, a forma como eles são retratados ainda os faz serem uma turba inquieta que só quer saber de guerra e destruição. Da mesma forma, a alteração de patamar da princesa Æthelflæd (Millie Brady), que amadurece rapidamente depois dos eventos da 2ª temporada, cria uma personagem tão inteligente quanto o guerreiro Uhtred, com quem podemos muito facilmente notar alianças e até uma conexão amorosa, mas mesmo ela tem pouco destaque, ficando à margem da narrativa principal por muito tempo. Também tenho problemas com o estopim da “traição” de Uhtred a Alfredo, que começa com a exumação do corpo de sua esposa e acaba com o assassinato, por ele, de mais um monge depois de apenas um tapa. Pareceram-me situações forçadas demais somente para chegar ao ponto desejado e os roteiros teriam se beneficiado de construções mais críveis.

Sem dúvida alguma, porém, a 3ª temporada de The Last Kingdom mostra o amadurecimento da série e abre as portas para a realização de todo o seu potencial narrativo. Resta apenas torcer para o que o novo status quo do final seja bem aproveitado em futuras temporadas.

The Last Kingdom – 3ª Temporada (Reino Unido, 19 de novembro de 2018)
Direção: Erik Leijonborg, Andy De Emmony, Jon East, Jan Matthys, Ed Bazalgette
Roteiro: Stephen Butchard, Ben Vanstone, Sophie Petzal, Lydia Adetunji (baseado em romances de Bernard Cornwell)
Elenco: Alexander Dreymon, David Dawson, Ian Hart, Tobias Santelmann, Emily Cox, Mark Rowley, Ewan Mitchell, Arnas Fedaravičius, Ola Rapace, Jeppe Beck Laursen, Magnus Bruun, Harry McEntire, Millie Brady, Timothy Innes, Julia Bache-Wiig, Cavan Clerkin, Toby Regbo, James Northcote, Adrian Bouchet, Simon Stenspil, Thea Sofie Loch Næss, Adrian Schiller, Kevin Eldon, Eva Birthistle
Duração: 526 min. (10 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.