Crítica | “The Lion King: The Gift” – Beyoncé

Acho admirável o marketing de alguns filmes em chamar algum artista para atuar como curador de um álbum temático da obra. Veja bem, não uma trilha sonora, mas sim uma espécie de disco conceitual com faixas inspiradas no longa em questão. Recentemente isso ocorreu em Pantera Negra, com um álbum de hip-hop de curadoria de Kendrick Lamar, agora voltando a se repetir no remake de O Rei Leão através do lançamento de um compilado de canções de Beyoncé em colaboração a uma série de artistas.

Há uma interessante preocupação com a atmosfera rítmica da obra, buscando contemplar a todo instante o som da África nas batidas. MOOD 4 EVA, por exemplo, com uma interação excelente entre Beyoncé, Jay-Z e Childish Gambino constitui um dos pontos altos, variando nas batidas e percussões do arranjo como uma vasta fauna musical selvagem. Outro acerto fica com MY POWER, uma dinâmica explosiva e contagiante entre diversas cantoras americanas e africanas desfilando versos por cima de uma base incendiante.  Porém, em certos momentos esse conceito derrapa, como DON’T JEALOUS ME com uma demasiada crueza nos beats mimetizada de clichês do hip-hop, ou o pop batido do Major Lazer em ALREADY, abusando de um refrão pouquíssimo inspirado.

As canções em que o holofote se concentra em Beyoncé entregam o alto nível esperado da artista. BIGGER abre o disco em tom ambicioso que corrobora o título da canção e soa quase como uma faixa bônus do material de Lemonade. OTHERSIDE é o clímax criativo da obra, possuindo um dos melhores arranjos por onde a cantora já desfilou sua voz, com uma linda base de cordas similares a uma harpa e uma sábia progressão angelical de vozes e percussão. Beyoncé incorpora até mesmo um certo fator pessoal à obra quando coloca sua filha Blue Ivy Carter cantar na bela BROWN SKIN GIRL. Por outro lado, é lamentável ver que SPIRIT, single liberado previamente, soa como um pastiche de tema cinematográfico, feito sob medida pra surpreender com seu instrumental bombástico, mas isento de qualquer chama de personalidade.

Por mais que seja bem vinda a ideia de Beyoncé em convidar muitos artistas africanos relativamente pouco conhecidos para o álbum, é inegável que o disco possui um time mainstream de peso a fim de chamar atenção do público.  E parte dessa área termina frustrante. Afinal, chamar Kendrick Lamar, aquele que possivelmente é o maior rapper dessa geração, para uma canção e entregar algo como NILE, uma canção que não soa nem ao menos como um interlude, mas como uma demo inacabada, é no mínimo decepcionante. O mesmo vale para a fraca WATER, com participação de Pharell Williams junto a Salatiel, um artista camaronês. A faixa possui uma forte influência de reggaeton, apelando para o rítmo latino com um olhar pouquíssimo autoral.

Em uma estrutura onde cada faixa é intercalada por um interlude de cena do longa, a fluidez do disco perde sérios pontos e talvez seja o maior problema. Não exatamente pela escolha em si – afinal, vários artistas já souberam realizar esse tipo de formato com sucesso – mas por ficar longe de soar orgânico. De qualquer forma, The Lion King: The Gift serve pra oferecer algumas ótimas canções da cantora, revelar interessantes artistas desconhecidos e expandir seu lado como curadora. Um importante passo dado, ainda que falho.

Aumenta!: OTHERSIDE
Diminui!: NILE

The Lion King: The Gift
Artista: Beyoncé e outros artistas
País: Estados Unidos
Lançamento: 19 de julho de 2019
Gravadora: Sony Music
Estilo: Hip-Hop, R&B, Pop

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.