Crítica | The Mandalorian – 1X01: Chapter 1

Desde que apareceu pela primeira vez na animação contida no infame Star Wars Holiday Special, Boba Fett capturou a imaginação dos fãs da franquia e, apesar de pouco ter aparecido em O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi, tornou-se um dos mais memoráveis personagens desse universo. Foi sem surpresa, portanto, que a primeira aposta de série live-action de Star Wars tenha sido justamente uma com um personagem fortemente inspirado na figura estoica do caçador de recompensas que é engolido por um sarlacc em Tatooine depois de ser jogado lá sem querer por um Han Solo cego.

Voltando às raízes de faroeste espacial que Guerra nas Estrelas tem em seu primeiro terço, o minúsculo – menos de 40 minutos! – episódio inaugural de The Mandalorian acerta em praticamente tudo que um piloto tão aguardado precisa fazer para cativar seu público, seja ele composto de veteranos da franquia, seja de novos entrantes. E a palavra chave, aqui, é economia. Mas economia narrativa, que fique bem claro, já que o primeiro capítulo da aventura esbanja computação gráfica bem acima da média que só é claudicante na criatura que o protagonista tem que cavalgar mais para a frente.

Voltando ao roteiro, porém, ele muito claramente bebe da fórmula certeira da Trilogia dos Dólares e do arquétipo do pistoleiro “sem nome” (e aqui também “sem rosto”) vivido por Clint Eastwood e faz muito com muito pouco. Diálogos são esparsos, a ação é constante e mortal (no estilo Disney de ser, ou seja, sem uma gota de sangue que seja, o que definitivamente não faz falta) e, ao mesmo tempo, o texto de Jon Favreau, também showrunner, salpica de maneira muito discreta e espartana um mínimo da vida pregressa para o protagonista na medida estritamente necessária para dialogar com a revelação final que certamente trará sorrisos aos rostos dos fãs, ao mesmo tempo que sedimenta no imaginário a reputação dos mandalorianos do título, com direito até a upgrade cerimonial de armadura como se fosse um videogame.

Pedro Pascal vive o personagem-título sem que seu rosto apareça por um segundo sequer e com o bônus duvidoso de ter sua voz “deformada” pelo sintetizador de seu capacete prateado, uma escolha corajosa tanto do ator quanto da produção em si, já que estabelecer a conexão do público com um homem sem expressões não é uma tarefa simples, mas que a direção de Dave Filoni (nome mais do que embrenhado na mitologia de Star Wars por seu trabalho em The Clone Wars, Rebels e Resistance) consegue criar fiando-se em uma espécie de reunião de melhores momentos que a mistura de sci-fi com faroeste pode oferecer. Afinal, além da economia narrativa, outro elemento-chave para o piloto de The Mandalorian funcionar é a familiaridade. Familiaridade não necessariamente com Star Wars (ainda que isso sempre seja uma vantagem, evidentemente), mas sim com clichês audiovisuais que vão desde o personagem durão que entra em um bar causando silêncio geral, passando por negociações tensas na base da pistola apontada e tiroteios na fronteira sem lei em que o mocinho sai sem nenhum arranhão. Tudo isso e mais fazem os poucos minutos desse primeiro episódio passarem tão rápido que chega a causar frustração.

E esse “mais” fica por conta não só de um elenco carismático que conta com figuras como Carl Weathers (ninguém menos do que o Apollo Creed da franquia Rocky) como Greef Carga, que distribui as missões aos caçadores de recompensas, e Nick Nolte como o ugnaught Kuiil, além dos cineastas Werner Herzog, como o misterioso contratante do mandaloriano, e Taika Waititi fazendo a voz do robô IG-11, como também com uma ambientação rica e expansiva que nos faz passear em velocidade quase desorientadora por ambientes gelados e desérticos, descobrindo coisas pitorescas como a existência de um serviço tipo Uber no primeiro planeta em que vemos o protagonista. E tudo embalado por uma trilha sonora composta pelo sueco Ludwig Göransson (de Pantera Negra) que pinça notas dos clássicos de John Williams, mas sem deixar de injetar uma assinatura muito própria que acrescenta elementos tribais e estabelece uma música-tema para o protagonista que, com o tempo, pode tornar-se memorável de seu próprio jeito.

Claro que para os fãs há mais ainda, pois The Mandalorian é um poço profundo de referências do universo Star Wars, poço esse que não pretendo mergulhar em favor da brevidade, mas que vale destacar meu favorito de longe: o churrasco de Migalhas Indecentes (ou tecnicamente, de um macaco-lagarto kowakiano) que me fez gargalhar de felicidade. Mas o melhor é que esse monte de menções a diversos filmes da franquia não pareceram forçadas e estão ali para serem identificadas por quem conhece, mas que não atrapalham a experiência de quem não liga para esse tipo de coisa. Como eu disse no começo da crítica, esse é um episódio inaugural que consegue trafegar bem a linha imaginária que divide o fã veterano do fã novato ou até de quem está sendo apresentado a esse universo com The Mandalorian. As peças encaixam-se muito bem de uma forma ou de outra.

No entanto, em prol dessa velocidade vertiginosa e do uso de arquétipos e clichês de gêneros variados, uma coisa se perdeu: a multidimensionalidade. E não, essa não é uma palavra de “crítico metido a besta”. Ok, até pode ser, mas ela é importante para permitir a longevidade de uma série que se espera ser de alta qualidade. Aqui, The Mandalorian não se arrisca em nada, não oferece nada além do que está na superfície, mesmo que por alguns segundos vejamos vislumbres do passado do protagonista e da mitologia dos mandalorianos. Será necessário bem mais do que isso para manter a série funcionando de maneira azeitada, já que ela arrisca perder o vigor se escolher seguir apenas na base de novas criaturas e novos tiroteios a cada semana, por mais que a armadura, nave e armamentos do personagem-título recapturem o frescor original de Star Wars como só Rogue One tinha conseguido fazer recentemente.

Se você não revirou os olhos com o parágrafo anterior e continuou lendo, saiba que esse episódio ser bem rasinho e saber apertar todas as teclas corretas era mais do que esperado por este crítico e, portanto, não há surpresa aqui. O jogo foi jogado com precisão para atrair o maior número possível de pessoas e esse é um dos pilotos de série mais eficientes em assim fazer que vejo em muito tempo. Favreau tinha consciência disso e não fez feio desde a escolha imagética desse “novo Boba Fett” até a manutenção de uma ambientação extremamente familiar. Mas, agora que esse novo cantinho desse vasto universo foi apresentado, a curiosidade por mais detalhes, por mais profundidade e por mais desenvolvimento de personagens certamente aumentará e é assim que, espero, o showrunner conseguirá fincar The Mandalorian como a série pioneira nessa nova forma de se explorar os recônditos mais profundos de Star Wars.

The Mandalorian – 1X01: Chapter 1 (EUA, 12 de novembro de 2019)
Showrunner: Jon Favreau
Direção: Dave Filoni
Roteiro: Jon Favreau
Elenco: Pedro Pascal, Nick Nolte, Carl Weathers, Emily Swallow, Werner Herzog, Omid Abtahi, Taika Waititi, 501st Legion
Duração: 39 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.