Crítica | The Mandalorian – Chapter 6: The Prisoner

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Acho que todo mundo já conseguiu entender que Mando, o mandaloriano sem nome e sem rosto que protagoniza a série mais badalada do momento, é um badass silencioso e de bom coração com uma das armaduras mais bonitas do meio audiovisual. Mesmo assim, The Prisoner existe única e exclusivamente para reiterar essa fato já deixado sobejamente claro desde mais ou menos o terço final do primeiro episódio.

O roteiro de Christopher Yost e Rick Famuyiwa sequer perde tempo com algum tipo de contextualização ou um mínimo de cuidado narrativo e já joga Mando na base espacial de Ranzar Malk (Mark Boone Junior, de Sons of Anarchy) que o quer, assim como sua nave Razor Crest, para libertar alguém de um transporte prisional da Nova República. Para isso, o mandaloriano é inserido em uma equipe composta de Mayfeld (Bill Burr), um ex-atirador de elite do Império, Burg (Clancy Brown, o eterno Kurgan, de Highlander e que também deu voz a Savage Opress em The Clone Wars), um devaroniano particularmente grande e forte, Xi’an (Natalia Tena), uma Twi’lek que só usa facas e Q9-Zero (Richard Ayoade), um androide que pilota naves como ninguém.

Quando disse que não há cuidado no roteiro, é que ele realmente é o mais básico e rasteiro de todos até agora a tal ponto de até os diversos novos personagens serem extremamente sem graça e repetitivos (Burg e Xi’an só fazem grunhir por exemplo), o que é uma novidade na série. E a ação em si é pouco inspirada, cansativa e óbvia a cada fotograma. E não, não espero ser surpreendido sempre ou mesmo reviravoltas (todos sabem o quanto eu acho twists tirados da cartola desnecessários), mas eu espero que os clichês que vêm sendo usado sem nenhum pudor na série sejam bem empregados. Não é o caso aqui desde o momento em que Mando desaparece só para ressurgir triunfalmente atrás dos primeiros androides que eles enfrentam, passando pela traição de seu grupo e, de novo, pela traição ao final e a “reviravolta” do localizador no bolso do prisioneiro do título.

E, mais uma vez, o bebê Yoda é usado como instrumento de fofura extrema, mas que já está perdendo seu glamour. A essa altura do campeonato, faltando somente dois episódios para a 1ª temporada acabar, parece mais que não há roteiro nem para 30 minutos de episódio (e esse tem 43, o mais longo até agora!) e o tempo remanescente precisa ser preenchido com os olhões pretos ou os dedinhos do bichinho para mostrar o quão sensacional é a arte dos marionetistas que o controlam, o que de fato é, ainda que não cheguem nem aos pés do trabalho de Frank Oz com Yoda nem à absoluta maravilha que é o recente O Cristal Encantado: A Era da Resistência.

Em The Prisoner, nem mesmo aquele senso de aventura que mesmo os mais simples dos episódios anteriores esbanjavam está presente. Em outras circunstâncias, talvez mais no começo da temporada, o episódio poderia ser o típico veículo para deixar evidente as características do protagonista, mas, aqui, ele é só mais do mesmo com o agravante do final completamente disneyficado em que vemos que aqueles que traíram Mando foram deixados vivos, no máximo com chifres quebrados. Tudo bem o mandaloriano mostrar coração e conectar-se com o bebê Yoda ou com outros personagens com quem partilhou a tela, mas sua transformação de destemido caçador de recompensa em super-herói que não mata ninguém é um pouco demais e retira a aura de durão que ele vinha até aqui carregando muito bem.

A direção de Famuyiwa, que volta à série depois de The Child, cumpre sua função, mas, muito parecido com o roteiro que co-escreveu com Yost, pende fortemente para o lado burocrático, algo que simplesmente precisava ser diferente diante da estrutura de espaço confinado e repetitivo que é a nave-prisão. Planos abertos em corredores brancos funcionam bem uma, talvez duas vezes, mas não mais do que isso, especialmente em episódio tão curto, mas o diretor usa e abusa desses momentos sem realmente criar um mínimo de suspense ou estabelecer uma conexão entre os personagens que seja maior do que a óbvia animosidade que existe entre eles. Pelo menos a trilha sonora de Ludwig Göransson continua sendo a melhor trilha dessa fase pós-Disney de Star Wars, com o bônus de a música tema de Mando ganhar ótimas e inéditas variações nesse episódio.

The Prisoner, diferente de Mando, carece de coração, de algo mais que o destaque para além da fofura do bebê Yoda ou da eficiência absoluta do protagonista em face do perigo (que nunca é perigoso o suficiente). Ainda garante diversão daquelas bem basiconas, mas de uma forma que já está caminhando para um completo marasmo narrativo que simplesmente não poderia acontecer nesse final.

The Mandalorian – Chapter 6: The Prisoner (EUA, 13 de dezembro de 2019)
Showrunner: Jon Favreau
Direção: Rick Famuyiwa
Roteiro: Christopher Yost, Rick Famuyiwa
Elenco: Pedro Pascal, Carl Weathers, Bill Burr, Natalia Tena, Clancy Brown, Richard Ayoade, Ismael Cruz Cordova, Mark Boone Junior
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.