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Crítica | Os Muitos Santos de Newark: Uma História Soprano

Santos do pau oco.

por Ritter Fan
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Não sabia que tinha judeus na Idade Média.
– Moltisanti, Dickie

Eis que, 14 anos depois de seu inesquecível fim, Família Soprano retorna às telonas (nos EUA) e telinhas (por aqui) na forma de um prelúdio que é, em essência, o mais próximo possível de uma história de origem para Tony Soprano, agora vivido por Michael Gandolfini, filho do saudoso James Gandolfini, que estreou nos cinemas juntamente com seu pai em Segredos Mortais, de 2011. Mas há muito mais do que apenas uma história de origem do protagonista da série no longa-metragem produzido e co-roteirizado pelo próprio David Chase, já que Tony é, na prática, um coadjuvante em uma história essencialmente focada em Richard “Dickie” Moltisanti (Alessandro Nivola), que se tornaria o pai de Christopher Moltisanti, personagem de Michael Imperioli na série que retorna como uma voz desencarnada para narrar o filme.

O longa nos traz versões mais jovens de diversos personagens icônicos, dentre eles valendo destacar o detestável Junior Soprano, aqui vivido por Corey Stoll, e a insuportável Livia Soprano, vivida por uma Vera Farmiga com desnecessárias próteses no rosto, além de introduzir um considerável ecossistema de novos personagens, notadamente “Hollywood Dick” Moltisanti e seu irmão gêmeo Salvatore “Sally” Moltisanti (ambos vividos por Ray Liotta em versões bem trabalhadas pelo departamento de maquiagem e cabelo), respectivamente pai e tio de Dickie, Giuseppina Moltisanti (Michela De Rossi), nova esposa italiana de Hollywood Dick que se torna amante de Dickie, e, talvez principalmente, Harold McBrayer (Leslie Odom Jr.), ambicioso associado de Dickie que, depois que os conflitos raciais de 1967 eclodem em Newark (uma das diversas outras localidades americanas em que isso aconteceu quase que simultaneamente), passa a querer criar sua própria organização criminosa. A ideia do roteiro é construir uma “escada” hierárquica de cima para baixo de eventos importantes que refletem na formação de Tony Soprano ao final da década de 60, com ele ainda vivido por William Ludwig e, depois de uma elipse, por Michael Gandolfini, no começo da década de 70, tendo seu pai ausente (mesmo quando presente) Johnny Soprano (Jon Bernthal) como a forma mais direta de aproximá-lo do tio Dickie.

O parágrafo anterior foi um esforço de concisão, na verdade, pois há muito, mas muito mais no filme, com o roteiro de Chase e Lawrence Konner talvez tentando inserir coisa demais em relativamente pouco tempo, o que acaba impedindo um desenvolvimento mais cadenciado para a pletora de personagens. Mas, ainda do lado positivo, particularmente gosto muito da ideia de deixar Tony Soprano comendo pelas beiradas, por assim dizer, basicamente tornando-se um recipiente dos eventos que o cercam e tendo sua personalidade moldada por eles. Não é que ele seja desimportante, longe disso, mas esse tratamento indireto de um personagem que se tornaria tão importante na série é a abordagem ideal para ele, em meu entendimento, pelo menos neste em tese primeiro filme. E o uso dos personagens novos em oposição – Dickie e Harold – permite a boa e velha liberdade narrativa, ainda que fique evidente para quem viu a série que Dickie nada mais é do que uma versão de seu futuro filho Christopher, com Nivola fazendo um bom trabalho para incorporar as explosões destrutivas de Imperioli.

No lado negativo, as versões mais jovens dos coadjuvantes da série acabam ficando nas sombras, muitas vezes dependendo de caricatura de atuações para criarem uma conexão maior, como é o caso da performance esforçada, mas para lá de exagerada de John Magaro como o icônico Silvio Dante, de Steven Van Zandt. O que há, na verdade, é uma coleção de easter eggs para fazer o fã de Família Soprano apontar para a tela e dizer “olha lá fulano” ou “esse aí é o cicrano” e assim por diante, o que não seria de todo ruim se tivesse havido um pouco mais organicidade e menos tumulto, com o diretor Alan Taylor (Thor: O Mundo Sombrio, O Exterminador do Futuro: Gênesis e nove episódios da série original) encontrando considerável dificuldade para equilibrar o tempo de tela entre eles e para evitar uma cadência episódica. Até mesmo Harold parece um “meio personagem” apenas, moldado pelos conflitos raciais, por um poema inflamado e não muito mais do que isso, nitidamente em uma preparação para eventual novo longa-metragem que continue esse ou, talvez, até mesmo uma série spin-off que dê conta de seu lado da história, transformando-o em um personagem completo.

Aliás, sob vários aspectos, Os Muitos Santos de Newark parece também um filme “inacabado” ou, talvez melhor dizendo, algo cirurgicamente feito para gerar variadas formas de se explorar esse período pré-Família Soprano em obras futuras, pois até mesmo o fio narrativo principal é frágil, talvez até simplista, basicamente a história da ascensão e queda de Dickie Moltisanti, que é violenta, mas não particularmente sensacional ou diferente do que vimos antes. Não culpo a produção de tentar fazer isso, pois faz parte do eterno jogo hollywoodiano do “mais, mais, mais”, mas diria que o material original é tão importante para a História da Televisão, que o prelúdio simplesmente precisava ser um produto 100% acabado, sem deixar arestas evidentes. Pela quantidade de personagens e tramas, o que David Chase entregou está muito mais afeito a dois episódios de uma razoavelmente promissora série ou minissérie costurados juntos na forma de filme do que um filme propriamente dito, mesmo que ele cumpra o dever de nos deixar salivando por mais desse fascinante universo, só que não exatamente pela qualidade do prelúdio, mas sim, provavelmente, em razão do inescapável poder da nostalgia.

Os Muitos Santos de Newark: Uma História Soprano (The Many Saints of Newark – EUA, 2021)
Direção: Alan Taylor
Roteiro: David Chase, Lawrence Konner
Elenco: Alessandro Nivola, Leslie Odom Jr., Vera Farmiga, Jon Bernthal, Corey Stoll, Ray Liotta, Michela De Rossi, Michael Gandolfini, William Ludwig, Billy Magnussen, John Magaro, Michael Imperioli, Samson Moeakiola, Joey Diaz, Germar Terrell Gardner, Alexandra Intrator, Mattea Conforti, Gabriella Piazza, Lesli Margherita, Talia Balsam, Kathryn Kates, Nick Vallelonga, Patina Miller, Ed Marinaro, Robert Vincent Montano, Matteo Russo, Chase Vacnin, Oberon K.A. Adjepong, Lauren DiMario
Duração: 120 min.

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