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Crítica | “The Miracle” – Queen

por Luiz Santiago
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Escrever sobre The Miracle, o 13º e antepenúltimo álbum do Queen, é um exercício tão interessante quanto ouvir o disco. Eclético, divertido e com produção do Queen e David Richards quase livre de erros estruturais, o disco veio depois da longa e exaustiva turnê de A Kind of Magic (Magic Tour) e de um hiato de dois anos da banda, tempo que seria estendido um pouco mais até o lançamento do disco em maio de 1989 (o disco anterior saíra em junho de 1986, quase três anos antes). Durante este tempo, cada membro do quarteto seguia com carreira solo ou participações especiais. Mercury esteve envolvido em projetos diversos, dois dos quais resultou no single The Great Pretender (1987) e no estrondoso álbum Barcelona (1988), este em parceria com a soprano espanhola Montserrat Caballé. Taylor formou uma banda chamada The Cross, cujo primeiro disco, Shove It, saiu em 1988. May e Deacon fizeram diversas participações em discos e projetos de amigos e conhecidos.

A reunião do quarteto para a gravação de um novo projeto aconteceu no final de 1987 e as sessões de gravação de The Miracle — que iria se chamar The Invisible Man, mas o título foi mudado 3 semanas antes do lançamento — começaram em janeiro de 1988. Um acordo antes de entrarem no estúdio foi feito: a partir daquele momento todas as músicas seriam creditadas ao “Queen”, embora posteriormente as distribuidoras tenham apontado os músicos responsáveis por cada canção, sempre que possível, o que não interferiu, claro, no acordo de royalties firmado pelo grupo. Sem brigar por dinheiro e restabelecido o clima de amizade após as intensas brigas que os acompanharam efetivamente das turnês de Jazz até a gravação de The Works (A Kind of Magic representou um momento de readequação da paz nesse jogo de egos), a banda tocou e produziu em parceria a maior parte das faixas. Até então, os outros três não sabiam que Mercury era HIV positivo, mas pareciam sentir que havia algo no ar.

Ao olhar essa diversidade de projetos individuais do quarteto, fica claro para o ouvinte que The Miracle é produto de uma sopa musical individual cuja mistura gerou o álbum, daí a sua diversidade e experimentações, tanto pela bagagem trazida do hiato quanto do tempo que o disco demorou para ser gravado, um ano inteiro, de janeiro de 1988 a janeiro de 1989. As interrupções na gravação tiveram vários motivos: turnê da banda The Cross de Roger Taylor; férias de John Deacon com a família; encontros finais de Freddie Mercury com Montserrat Caballé e participações de última hora de Brian May em sessões de gravação de outros artistas.

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Duas voltas de bateria eletrônica (que não soa muito bem, para falar a verdade) são as primeiras coisas que ouvimos no início de The Miracle, aberto pela faixa Party, música concebida em uma brincadeira entre Mercury, May e Deacon durante os ensaios antes da gravação. Aos poucos, a letra foi desenvolvida pelos três, com adições de Taylor no final do processo. A faixa não tem um fim, propriamente dito, pois está ligada a Khashoggi’s Ship, sem a qual parece incompleta. Não era a primeira vez que o Queen realizava esse tipo de exercício (ligar canções por um fade rápido ou integração de melodias ao final), mas aqui a interação está mais no plano lírico, embora funcione igualmente bem no plano musical. A letra da segunda faixa refere-se ao bilionário, comerciante e distribuidor de armas saudita Adnan Khashoggi, com seu estilo luxuoso e extravagante de vida e seu famoso iate Nabila, ao qual a letra da música se refere.

The Miracle, a faixa-título do disco, é uma espécie de reflexão e desabafo que volta a ser tematicamente trabalhado no encerramento do álbum, Was It All Worth It. A impressão inicial é que estamos ouvindo pesadas gotas de chuva caindo, resultado de um bom uso de sintetizador imitando cordas dedilhadas (pizzicatto) e que logo ganha os vocais de Mercury um pouco mais agudos que o normal — não que isso seja algo negativo, apenas um fato, que contrasta, por exemplo, com o timbre um pouco mais rouco que o normal que o cantor teria em Innuendo (1991) já como consequência da doença avançada — e é possível ver o trabalho peculiar da banda em fazer arpejos que destaquem cada palavra “miracle” pronunciada. Os versos começam com sílabas tônicas e notas normalmente mais altas e vão ficando mais graves, criando um efeito propício para encaixe harmônico do coro e adição de trechos de bateria e piano que tornam a voz de Mercury ainda mais forte.

O clipe de The Miracle teve uma concepção bastante especial. Foram contratados 4 garotos que fizeram a performance do Queen a maior parte da canção (que é um tanto longa). A banda original aparece integralmente apenas na parte final, tocando juntamente com as crianças, atitude que reforça a mensagem da letra e parece que destaca as mudanças de ritmo e estilo que a própria faixa possui (a alternância de gerações, gostos e sentimentos). Um dos clipes mais ternos e mais interessantes do quarteto da rainha. E para quem tem curiosidade, aqui o nome dos garotos: Paul Howard (como Brian May); James Currie (como John Deacon); Adam Gladdish (como Roger Taylor) e Ross McCall (como Freddie Mercury, em quatro “encarnações” diferentes).

Na sequência temos a excelente faixa quatro, I Want It All, que possui duas versões, a do clipe musical e a do disco, que é um pouco mais longa. A faixa é uma das poucas que já estavam escritas antes da banda entrar no estúdio (composição de Brian May), mas como todas as outras, foi creditada ao Queen. A letra foi inspirada em uma frase que a atriz e cantora Anita Dobson, futura esposa de Brian May, costumava dizer: “I want it all, and I want it now!“. À época, o guitarrista passava por inúmeros problemas com seu primeiro casamento, que acabou chegando ao fim durante as gravações de The Miracle. O fim do matrimônio aconteceu devido ao escândalo altamente coberto pela mídia que comentava sobre o relacionamento do músico com Anita Dobson. A letra acabou sendo um grito por liberdade e foi utilizada como uma espécie de hino nas manifestações anti-apartheid na África do Sul e nas manifestações pelos direitos da comunidade LGBT.

A variedade de blocos com estrofe, coro, ponte instrumental e os excelentes solos de guitarra de Brian May (segundo o próprio guitarrista, ir ao estúdio nesse período era “a única cura para a depressão que ele tinha”) tornam I Want It All uma fácil canção de arena, uma das grandes melhores coisas gravadas pelo Queen, com toda a essência da banda nos anos 80 e muitas (muitas mesmo!) nuances da fase pré-Jazz de sua carreira.

O primeiro lado termina com The Invisible Man, composição de Taylor inspirada pelo livro O Homem Invisível, de H.G. Wells. Aqui os sintetizadores atacam com força total, mas não minimizam nada da canção, que é um rock eletrônico de qualidade, com uma melodia simples mas interessantes arranjos e uma letra que vem sendo interpretada de muitas forma ao longo dos anos, desde a sua exposição literal, dentro da ficção científica, até as possibilidades inesgotáveis de interpretarmos quem é o “homem invisível” de quem a música fala. Dependendo do ouvinte, a faixa pode referir-se de minorias da sociedade até o próprio ser humano em relação às instituições e outras coisas que ele mesmo criou.

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A sensacional Breakthru abre o segundo lado do disco; uma faixa que é, na verdade, duas em uma. De início, temos um coro acapella cantando a letra de uma canção inacabada de Mercury, A New Life Is Born, que imediatamente é ligada à composição essencial de Taylor, com arranjo de órgão, bateria e contrabaixo eletrônicos, porém, bem utilizados, especialmente o baixo de Deacon, que é estrondoso e marca com vontade a linha harmônica da faixa (representando o barulho ritmado de um trem sobre os trilhos) ao mesmo tempo que dá sustentação à letra. O caráter mais melancólico da composição, alternado com diversos momentos de tons maiores e alegres, torna a faixa uma espécie de viagem — o clipe gravado em um trem vem bem a calhar — e está entre aquelas “canções de estrada” que Roger Taylor compunha tão bem.

Rain Must Fall é uma música com elementos caribenhos (não nega ser de John Deacon!), talvez a mais ‘deslocada’ do disco. Ela peca pela longa duração, já que a relação entre versos + pequena estrofe e solos pontuais de May não apresenta tantas mudanças como deveria e não traz novidades na harmonia nem na melodia. Não é uma faixa ruim, mas daquelas que pela repetição, o ouvinte agradece quando chega ao final. Se tivesse um minuto a menos talvez fosse menos enjoativa e funcionasse melhor.

Na sequência temos Scandal, a faixa anti-imprensa sensacionalista escrita composta por May e que nos lembra muito o Queen de final dos anos 70, com solo melódico de guitarra, viciantes ganchos entre as estrofes (não há refrão aqui) e potente performance de Mercury, que dá um verdadeiro show de resistência vocal, um fato que fica ainda mais admirável quando descobrimos que a canção foi gravada em um único take por ele e May. O fato de haver pitadas de new wave exigiu algumas liberdades no arranjo para tornar a canção mais “quente”, como uma fofoca, durante toda a sua duração, daí a dinâmica dos pequenos backing vocals e adições instrumentais a cada grito da palavra “scandal!” — vejam que pela segunda vez no disco o Queen conseguiu criar um destaque absoluto para uma única palavra (a outra foi em The Miracle) sem repetir-se ou estragar a melodia.

My Baby Does Me traz o espírito de The Game com nuances temáticas de Hot Space. Uma espécie de funk-disco que funciona sob aprimorado trabalho de Deacon no contrabaixo (a canção é majoritariamente dele, por sinal) e uma produção cuidadosa, que talvez propositalmente conseguiu “esconder” alguns dos instrumentos utilizados na gravação. Tente ouvi-la em um aparelho de som qualquer ou no computador e depois coloque fones de ouvido e a ouça novamente, com atenção. Você irá perceber que há muito mais dinâmica e presença instrumental do que imaginava à primeira audição.

E para encerrar o disco (apenas no vinil e K7, porque a versão em CD tinha mais duas faixas), Was It All Worth It, uma obra extremamente criativa, com mescla de rock e música clássica — rememorando A Night at the Opera — e três ciclos básicos, cada um deles com um motivo musical diferente em destaque. Mercury ensaia aqui o seu primeiro “adeus”, que viria em definitivo com Show Must Go On no disco seguinte. A faixa tem um grande impacto no público pelo seu significado e finaliza o álbum com chave de ouro, olhando para trás, para uma carreira e vida de altos e baixos e fazendo uma avaliação de tudo o que se viveu. Uma canção propícia em termos líricos para esse momento da banda, além de ser musicalmente bem executada e bem produzida.

Normalmente subestimado por alguns fãs, The Miracle acaba sendo chamado de “álbum menor”, mas sinceramente está longe disso. O disco faz jus ao seu título porque junta o Queen novamente, considerando que cada um dos membros estava envolvido com diferentes tendências musicais; concentra algumas das composições mais interessantes da fase tardia da banda e é responsável por recolocar o quarteto nas paradas britânicas. Como disse no início da crítica, um álbum eclético e muito, muito divertido de seu ouvir.

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Faixas Bônus

Na versão em CD, foram lançadas duas faixas bônus para este álbum, Hang On in There, uma ótima composição em conjunto que deveria sim ter entrado para o álbum oficial. O bom trabalho de múltiplas gravações, os solos e os arranjos para vocais de apoio fazem a faixa uma boa pedida para o disco. Poderia tranquilamente ter substituído Rain Must Fall.

O outro bônus é a excelente instrumental Chinese Torture, que está sim se referindo a este terrível método de tortura, levando metaforicamente o sentimento desse ato para a música, basta ouvir com atenção a forma como a guitarra e a bateria entram e se mantém na premissa musical dada pelas cordas. A concepção da faixa surgiu nos solos improvisados de May no final da turnê de A King of Magic, mas só ganhou corpo e gravação oficial aqui.

B-Side

Lançadas como B-Side tivemos três canções do período de The Miracle. Uma delas My Life Has Been Saved, foi retrabalhada e lançada no último álbum da banda, Made in Heaven (1995). As outras duas são Hijack My Heart, com Taylor nos vocais em mais uma tendência lírica e melancólica, presentes em muitas faixas desse álbum; e Stealin, com vocais de Mercury; faixa que mescla-se a um outra, In Charge Of My Heart, também de Taylor, que faz um excelente final na bateria, encerrando a faixa.

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Nota sobre fontes: eu traduzi trechos de informações em entrevistas com os membros da banda para diversas redes de TV e rádio ao longo dos anos; compilei informações técnicas específicas expostas no livro Queen – História Ilustrada da Maior Banda de Rock de Todos os Tempos, de Phil Sutcliffe (e também de encartes de CDs, documentários de DVDs e livros que acompanham os boxes Especiais da banda); trouxe diversas informações sobre decisões ou discussões de bastidores, processo de criação das músicas, uso específico de instrumentos, descrição de cenas da produção dos discos, estilos ou comparações entre canções de diversas Eras da banda através de um processo criativo de caráter biográfico do documentário Queen – Days of Our Lives e também de artigos em diversas páginas ligadas à banda, aos estúdios e principalmente aos produtores dos discos.

Aumenta!: I Want It All
Diminui!: 
Minhas canções favoritas do álbum: I Want It All,  The Miracle  e  Breakthru 

The Miracle
Artista: Queen
País: Reino Unido
Lançamento: 22 de maio de 1989
Gravadora: Parlophone (UK) e Capitol, Hollywood (EUA)
Estilo: Rock, Hard Rock

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