Crítica | The OA – 2ª Temporada

  • spoilers. Leia, aqui, a crítica sem spoilers da temporada anterior.

A primeira temporada (ou parte) de The OA chegou discretamente no Netflix no final de 2016 e encantou na mesma proporção que afastou muita gente em vista de sua temática, dos mistérios e de sua execução. Sem dúvida, foram oito episódios muito estranhos, bizarros mesmo, girando em torno de um sempre fascinante tema metafísico, o que há, se é que há algo, depois da morte, com as Experiências de Quase-Morte sendo a razão para o confinamento de Prairie Johnson (Brit Marling) e outras quatro pessoas por sete anos em um misterioso “aquário humano” no subsolo da moradia do obcecado cientista Hap (Jason Isaacs). Empilhando mistérios e trazendo outros quatro personagens sem propósito na vida para serem os pupilos de Prairie no presente, a temporada primou pela discrição de um lado e por momentos WTF? de outro, sendo a dança, claro, o mais incrível e louco deles.

Mais de dois anos depois, com todos tendo sido mantidos no suspense sobre afinal o que raios acontecera naquele cliffhanger, a série finalmente retorna para sua segunda parte e o status quo muda quase que completamente, ainda que perfeitamente dentro da lógica estabelecida. Na verdade, arriscaria dizer que o próprio tom da série é alterado radicalmente, com as showrunners Brit Marling e Zal Batmanglij demonstrando mais ambição e, provavelmente, tendo amealhado um orçamento mais polpudo. Nas mão erradas, mais ambição e mais dinheiro normalmente resultam, em Hollywood, em menos consistência e qualidade, mas, felizmente, a dupla consegue escapar dessa armadilha e entrega uma temporada até mais impressionante que a primeira, mas só se o espectador que foi fisgado pelo lado metafísico do que veio antes souber adaptar-se para a pegada mais diretamente sci-fi que acontece aqui e que marca a mudança de tom, juntamente com a de status quo, que mencionei.

É importante lembrar, porém, que a ficção científica é um dos gêneros mais afeitos para discutir o tipo de assunto que a série propõe, pelo que essa transição, se é que podemos chamar assim, de forma alguma trai ou fere a construção de tudo o que veio antes. E, melhor ainda, Marling e Batmanglij usam o gênero para dar sentido, para solucionar grande parte dos mistérios que vieram antes, evitando sua perpetuação, normalmente a marca de séries pretensiosas que não sabem entregar respostas antes de fazer novas perguntas.

Depois de levar o tiro no lado de fora da cafeteria envidraçada da escola enquanto (ou por causa deles) BBA (Phyllis Smith), Steve (Patrick Gibson), Buck (Ian Alexander), French (Brandon Perea) e Jesse (Brendan Meyer) completam os cinco movimentos da dança, vemos Prairie ser levada de ambulância para o hospital e tendo uma visão de Homer (Emory Cohen) mais uma vez. Quando a nova temporada começa, toda essa situação, porém, é inteligentemente deixada em banho-maria para que um “novo universo” – literalmente uma nova dimensão – possa ser apresentada, com Karim (Kingsley Ben-Adir), um detetive particular contratado por uma mãe vietnamita (Hélène Patarot) desesperada para encontrar sua filha Michelle. Hesitante, ele acaba pegando o caso, o que o leva a um aplicativo de um jogo, à jovem Fola (Zendaya) e ao magnata da tecnologia Pierre Ruskin (Vincent Kartheiser, de Mad Men, em uma ponta), além de uma casa “mal-assombrada” em Nob Hill, distrito nobre de São Francisco. É impressionante como essa história, aparentemente sem conexão alguma com tudo o que vimos antes, é capaz de prender o espectador por seus próprios méritos, com Kingsley Ben-Adir merecendo os louros por construir um personagem que, mal comparando, guarda o mesmo tipo de aura angelical da Prairie Johnson de Marling, mas sem a mesma inocência.

Mas o espectador não fica perdido por muito tempo nessa  nova história, já que Nina Azarova é logo “possuída” por Prairie, imediatamente revelando, para nós, que sua morte no universo da temporada anterior significou seu transporte até essa outra dimensão em que a pequena Nina não entrou no ônibus escolar naquele fatídico dia do acidente que a levaria à sua primeira EQM e à cegueira. Suprimindo as memórias e a personalidade da Nina adulta e multi-milionária, Prairie logo parte atrás de Homer e dos demais de seu cativeiro original, somente para ser colocada em outro cativeiro – uma clínica psiquiátrica – comandada por ninguém menos do que o próprio Hap, só que no corpo do famoso psiquiatra Dr. Hunter Percy. No entanto, estruturalmente, a nova prisão apenas conceitualmente lembra o aquário humano da temporada anterior, com os roteiros imprimindo muito mais dinamismo à narrativa como um todo, o que também inclui uma estranhíssima road trip de BBA e companhia, lá no universo da primeira temporada, em busca de alguma forma de contactar e salvar OA.

As três linhas narrativas inicialmente desconectadas quase que por completo alcançam um excelente ritmo logo de início, aos poucos convergindo para duas linhas e, ao final, uma só, em um twist metalinguístico de se tirar o chapéu e que, mesmo em uma crítica com spoilers, não abordarei aqui. O que realmente importa é que o lado quase que unicamente metafísico da primeira temporada é suprimido fortemente ao longo dos três primeiros episódios, que servem para estabelecer e colocar em movimento essa nova estrutura, que, diferente da anterior, não é confinada a ambientes específicos (o aquário e o sótão da casa em construção), mas sim espalhada em São Francisco e arredores, assim como pelos Estados Unidos afora na road trip. Ampliam-se os horizontes, mas sem que a série perca em fascínio ou seus objetivos de vista. E, claro, o lado metafísico retorna surpreendentemente na segunda metade do quarto episódio, quando é revelada a razão para as marcas nos antebraços de Nina: sua performance ao estabelecer uma comunicação telepática com um gigantesco polvo confinado em um aquário de um teatro underground, batizado de Azrael (o próprio arcanjo?), ou Velha Noite para os íntimos. É surreal até mesmo escrever e ler o que acabei de escrever, mas esse momento que destroça completamente as expectativas é puro The OA e faz a temática sci-fi dialogar bem mais fortemente com a temática “viajante” e intimista que fora estabelecida. E, por mais estranho que seja o momento, logo seguido de OA e Karim entrando na mansão/quebra-cabeças e OA sendo conectada a uma árvore mística que parece simbolizar o multiverso, devo confessar que tudo fez pleno sentido para mim. Não há aquela lógica comum, racional, mas dentro do espírito dessa criação de Marling e Batmanglij, o polvo gigante telepata é como o monólito de 2001 ou as memórias de Solaris, ou até mesmo o coelho sinistro de Donnie Darko. E não, não quero dizer que os significados são iguais, mas sim apenas que a inserção do artifício narrativo pareceu-me natural dentro da estrutura criada.

E o mesmo vale para a entrada súbita da misteriosa Elodie (Irène Jacob) como um elemento “facilitador” de conhecimento que leva tanto Hap quanto Prairie a momentos de iluminação e de convergência, valendo especial destaque para os robôs dançarinos que, ao final, ganham versões Godzilla na única elipse temporal que não se encaixa muito bem na história. Elodie é a “turista” mais experiente, aquela que sabe que não se deve usar sapatos desconfortáveis em um avião e que impulsiona a história, sem que sejam necessários momentos expositivos demais, ainda que eles acabem sendo inevitáveis aqui e ali.

Brit Marling merece um comentário dedicado. Se sua aparente apatia foi um dos fatores que afastou muita gente da série, sob a alegação de que Prairie não seria suficientemente cativante, aqui a atriz vive praticamente dois papeis bem diferentes. Pela maior parte do tempo, ela é Prairie no corpo de Nina Azarova e não só Prairie. A mulher quieta, tímida e de relacionamento social inexistente da primeira temporada dá espaço para quase que um meio-termo. Vemos Prairie, ao mesmo tempo que não quer saber de Nina, ficando hipnotizada pelo estilo de vida que poderia ter sido o dela não fosse o fatídico acidente quando era criança, o que a leva a situações limite que transformam até fisicamente a atriz. A bondade e angústia que Prairie irradiava antes dá lugar a um outro tipo de luz, uma luz sofisticada, arrebatadora, o meio do caminho entre a menina que perdeu a visão e passou sete anos em uma prisão e a mulher segura que é Nina. E é palpável o desenvolvimento de Prairie dentro do corpo de Nina, com sua personalidade tímida cada vez mais ocupando o novo espaço que tem à sua disposição, até que, mais para o final, por alguns minutos, temos o vislumbre da Nina Azarova dessa dimensão, que não perdeu o sotaque russo, é plenamente segura de si e é estonteante da cabeça aos pés. É uma transformação e tanto!

Claro que eu poderia escrever muito mais sobre The OA, mas essa é uma série muito mais para ser sentida do que racionalizada. No entanto, mesmo aqueles que preferirem destrinchá-la – respeitando sua lógica interna – perceberão que o trabalho de Brit Marling e Zal Batmanglij tocam temas caros da ficão científica de maneira original e desafiadora ao mesmo tempo sem paternalismos expositivos que pegam o espectador pela mão e explicam tudo, mas também sem deixar ninguém no escuro. A segunda parte de The OA não se furta em responder as perguntas deixadas pela primeira parte, mas sabe como cuidadosamente abrir ainda mais o leque das possibilidades. As showrunners, aqui, entregam mais e ainda melhor do que antes, prometendo dobrar a aposta para o que ainda está por vir. Se o preço da qualidade é esperar outros dois anos pela terceira parte, que assim seja!

The OA (EUA, 22 de março de 2018)
Criação e showrunners:  Brit Marling, Zal Batmanglij
Direção: Zal Batmanglij, Andrew Haigh, Anna Rose Holmer
Roteiro: Brit Marling, Zal Batmanglij, Damien Ober, Nicki Paluga, Dominic Orlando, Henry Bean, Claire Kiechel
Elenco: Brit Marling, Kingsley Ben-Adir, Emory Cohen, Scott Wilson, Phyllis Smith, Alice Krige, Patrick Gibson, Brendan Meyer, Brandon Perea, Ian Alexander, Jason Isaacs, Will Brill, Sharon Van Etten, Paz Vega, Hiam Abbass, Chloe Levine, Zendaya, Zoë Chao, Irène Jacob, Eijiro Ozaki, Vincent Kartheiser, Hélène Patarot
Duração: 8 episódios de 42 a 70 minutos cada

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.