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Crítica | The Office (US) – 4ª Temporada

por Davi Lima
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the office

Quando o episódio “Chair Model” da quarta temporada representa bem o esforço clássico de The Office em tratar algo totalmente ordinário em um grande evento em um escritório tedioso, como demarcação de suspensão episódica para a virada do terceiro ato nesta temporada, evidencia-se uma nova organização estrutural no agrupamento de episódios para a série. Usa-se a fórmula clássica em um episódio mais simples, como o roteirista B. J. Novak sabe bem escrever, para criar um sequenciamento de 2 em 2 episódios, como o começo da temporada mostrou em blocos maiores de história em capítulos de 40 minutos. Se o host Michael Scott se apaixona por uma modelo de revista para vender cadeiras é o chamado da linha clássica das últimas temporadas, e o sequenciamento em meio ao episódico é o novo teste de The Office. Com mais centralização de personagens, é como se essa quarta temporada fosse o estágio de transição, de algo estável para algo conflituoso para abranger mais possibilidades narrativas para mais atos de história.

Essa ideia de ter episódios maiores ajuda bastante a propor novas ideias de maneiras diretas, como o Michael mais reativo ao contexto Dunder Mifflin, o crescimento de Dwight com um drama humano de relacionamento, um crescimento que já vinha anteriormente, mas não de maneira tão enfática e dramática quanto nessa temporada, e o relacionamento de Pam e Jim que claramente dá um tapa de realismo metalinguístico em relação ao espectador: mesmo quando querem o romance na sitcom se incomodam do mesmo jeito, porque nenhum romance é totalmente aprovado pelos outros, especialmente no trabalho de escritório.

A partir disso, coloca-se o personagem Ryan como o cara rico de New York nessa novas ideias, que já era um entrave quando estagiário, e logo os protagonistas Pam e Jim, Dwight e Dwight são postos em xeque, com Ryan sendo a figura vilanesca central da temporada. Lembrando mais uma vez na base “linguística” da série (Host, romance e câmera – sitcom The Office), Ryan acha que pode tudo de maneira imediata a partir do gancho da terceira temporada, enquanto Jim e Pam tiveram três temporadas para se acharem no romance. Forma-se a graça e o drama nisso, em que a nova organização de duologias, de episódios mais alongados e divisões de atos mais estabelecidos para ao agrupamento de episódios proporciona um conflito entre o rápido/moderno/objetivo vs contemplativo/antigo/lento. A questão de geração tecnológica, muito temática no período entre 2007 e 2008, quando a série foi transmitida, não é o primeiro ato dramático por acaso, assim como a trama do tempo certo para se pedir alguém em casamento, ou até mesmo para pôr em superfície a intenção de mudanças na série. Cria-se um maniqueísmo sutil que vai sobrepondo o realismo antigo, sem precisar de resets mais diretos.

Quanto aos episódios maiores, são um ótima jogada para estruturar uma introdução de novo paradigma, fundamentado em atos da temporada sem expor pausas, apenas continuações contextuais, digna de séries dramáticas sequenciais com alívios cômicos. O começo da temporada, que se inicia no auto questionamento e no questionamento não tão levado a sério assim quanto ao perigo e a inofensividade de Michael Scott. A primeira cena do carro é uma mistura que reflete isso, um acidente e uma comédia. Porém, apesar de trabalhar com o de sempre, de Michael não saber ser confrontado com um erro, em que ele precisa ser amado e agradar excessivamente (o que causa o reverso), o primeiro episódio “Fun Run” dessa temporada tem uma dose de perda de realismo, o que indica uma nova mudança da série para amarrar novas tramas comportamentais – Michael com Jan (sem tanto sentido lógico para o realismo) e Pam e Jim (em que entra a câmera do falso documentário, sempre unidos como hosts temporários). O que acontece é o confronto do realismo com um chefe que não quer ser realista quanto a raiva e toda essa ideia de não receber perdão da funcionária. a corrida e tudo que acontece durante ela é um reflexo cômico e extremamente realista, junto com o revelar e o não revelar de Jim e Pam para os funcionários no começo. 

E apesar de isso ser “normal” para a série, especialmente conhecendo um pouco de Michael Scott, torna-se mais estranho quando The Office parte para um “dramão” envolvendo Scott e Dwight, algo que naturalmente perde-se realismo pela estranheza dos personagens e seus comportamentos, mas reage bem na linguagem da série graças a estrutura de episódios maiores e duologias, como foi citado. Porque muito se perde da base cerne no início de temporada para apostar no drama de masculinidade e responsabilidade de Michael com relação a Jan, junto com Dwight na mesma ideia, mas com Angela. Entretanto, Greg Daniels junto com sua equipe, especialmente o ator, que interpreta Toby, e diretor Paul Lieberstein, que dirige e escreve os dois episódios, ou um episódio grande em duas partes chamado “Money”, cria uma ambiguidade qualitativa para se acreditar nesse drama que o cinema documental consegue suportar, porque já tem o realismo impregnado para que tudo se molde dramaticamente. O momento “Eu declaro falência” de Michael Scott, ou a cena da escada com Dwight e Jim, e do trem com Scott e Jan, é bastante melancólico de uma maneira quase sobrenatural de se existir dentro de The Office, de ser efetivo. Alguns podem achar mal feito, porque se torna lento ou não tem punch line explícito, e sim comportamental e espacial. The Office vai além, e o primeiro ato da temporada termina nestes episódios estranhamente tristes em uma série de comédia.

Pensando em transmissão televisiva de 20 minutos, o método de parte 1 e 2 como dois “episódicos” sequenciais acomete a beleza de que The Office sempre foi isso implicitamente, então junta o útil e o agradável quando se aponta mais nessa temporada para focar nos conflitos dos personagens. Ou seja, não é apenas uma discussão boba sobre não aceitar a tecnologia no primeiro ato, é uma discussão sobre os padrões da série, que aceitam sim ser mudadas – Michael falando do site – mas não de maneiras imediatas. E sim, o valor emocional do host sobre as pessoas do escritório em relação às máquinas não é só uma briga política, é a compreensão do tempo, que dentro do universo da série, exige mais do que pensamento sobre produtividade e dinheiro, até porque a compreensão narrativa é o tédio, então Ryan é a quebra do tédio, apenas. Não é um reset nem refresh, como aconteceu na terceira temporada, é transferência de linguagem pela liberdade que o sequenciamento de episódios maiores contribuem para mostrar outro paradigma. Realismo se perdeu, em que a comédia e o drama central são com os personagens deslocados da realidade, e Jim e Pam só dão uma ponta de realismo para quebrar a expectativa deles.

Quando o diretor Joss Whedon e e a roteirista Mindy Kaling fazem um dos melhores episódios da série chamado “Branch Wars” no começo do segundo ato da temporada, no auge da vergonha alheia, enfatiza-se o amorzinho da câmera pelo Jim como base realista que sem dúvida Michael Scott e Dwight não pertencem. E isso tudo surge do Stanley e Karen, os personagens mais realistas da série, em que Jim fica como mediador. Em geral é um episódio incrível porque volta para o cerne da série já nesta temporada organizada, semelhante “Chair Model”, dando um fervor a mais, como um filler de um episódio menos sequencial, episódico mesmo, que se aproveita mais da semana, e está mais desestruturado nos quesitos Pam-Jim, câmera e host Michael, com Dwight puxa saco, só que é a mesma coisa, mas se evidencia as transformações dessas bases. E é no episódio seguinte, “Survivor Man”, dirigido por Paul Feig, seguindo a questão da duologia episódica, mesmo quando nominalmente não seja parte 1 e parte 2, é representativo para o conflito de Jim e Pam se iniciando, já que o conflito de Jim quanto a ser o segundo no escritório e essa loucura de Michael como apresentador. Surge, assim, o efeito do realismo que a câmera sempre buscava no Jim sendo posto em evidência para todos. Pam soa a personagem mais entendedora de tudo, em que Jim agora está como a câmera como apoio, já a Pam realmente conhece o que a câmera quer fazer. Esse trio, nesse sentido, começa a caminhar para um progresso conflituoso após o primeiro ato que coloca em cheque a chefia de Michael e alavanca Dwight como personagem em evidência.

Por isso necessita-se um grande estouro, um caso de família, um estopim sequencial de um segundo ato no episódio famoso “Dinner Party”, também dirigido por Paul Feig, para degringolar as situações dos personagens, como o princípio de uma derrocada dramática, especialmente Michael, o apresentador do programa, que leva o primeiro tiro. Como numa demarcação de série, é bastante relevante como esse é mais um capítulo de quando Scott busca ter atenção mais ele se complica. Em sequência dos episódios problematizam-se Jim e Pam como apresentadores que eles desbravaram no começo da temporada, quando eles querem resolver as coisas sem Michael, especialmente Jim. A série meio que mostra que sem o host do envergonhamento também é a falta de um chefe, que por sinal desvenda que seu chefe Ryan não é o chefão. A chefia Jim, Ryan e Michael entra em conflito, em que Jim não curte Ryan e Michael começa a crescer naturalmente de estima sem Jan, naquela famosa piada da masculinidade dele com Ryan.

No entanto, para delimitar o começo do terceiro ato, compreendendo essa dimensão de chefia, acontece um problema de liderança definitivo no escritório, algo bem mais realista, e por isso o efeito é como bem o personagem Kevin Malone diz: Batalha de Titãs (referente a Michael e Stanley). Eis o clímax, eis o terceiro ato em outro nível. Fora esse centro entre dois personagens que carrega a narrativa do episódio “Did I Stutter?”, a própria câmera assume como personagem para averiguar a discussão isolada no escritório vazio, enquanto Jim se perde como tentativa de se inteirar como destinadamente líder do escritório, mesmo sendo a Pam a cega sem óculos do episódios. Todo o encanto de Jim e Pam e o drama estranho do começo da temporada se revelam tão ambíguas como a frase que Michael fala para Stanley: talvez você não me conheça totalmente. Mesmo que o funcionário diga que conhece ao longo dos 10 anos de trabalho, ao menos essa frase de Michael realmente serve para o espectador compreender que a quarta temporada vem para estragar alguns sonhos imediatos e quebrar expectativas sem necessariamente ser engraçado.

Por isso os encerramentos dos arcos antes da season finale são tão precisos, em que Jim precisa se provar no emprego, Pam e a câmera tendo mais interação do que nunca, Dwight vira outra base da série definitivamente nessa temporada e Michael meio que assume que perde alguma coisa. Talvez seja um dos únicos episódios, especialmente após o caso Stanley, em que claramente o host perde, assume que o Jim é o cara que a câmera gosta, a sitcom romântica que de fato o espectador quer ver. O escritório como transformante pelos personagens, é isso que a temporada diz.

Após temporadas de resets, experimentações e refreshs, essa temporada focou em eliminações fatídicas, como a de Toby, para tornar o programa sequencial e episódico ao mesmo tempo. Se o drama de Jim e Pam começa a crescer em relação ao ambiente do escritório não ser mais um desafio romântico, Dwight e Angela buscam essa substituição como acentuações cômicas de algo imprevisível dos dois personagens que mais se comprometem com o trabalho do escritório. Além disso, o host perde, é humilhado quando o estagiário vira chefe e quando ele é preso, assim como estar com Jan é o sofrimento prazeroso durante a temporada. Com o primeiro ato dramático e um segundo ato mediando Dwight, Jim e Michael em patamares mais semelhantes, o terceiro ato é entregar algo digno de uma série num formato menor de 14 episódios (mesmo que possa ser dividido em 19 pela ditas duologias) e manter a linguagem: encerrar com desmontes e finais infelizes após alegrias.

Isso é The Office, ainda realista. Com um começo menos realista e um final bastante realista, até como piada de como certas coisas românticas realmente podem dar facilmente errado. Com a finalização da quarta temporada com o episódio “Goodbye Toby”, que não dá para separar em parte 1 e parte 2, é um encerramento com um grande filme sui generis de Paul Feig como diretor e Greg Daniels como produtor, que te deixa perdido nos quesitos de quebrar expectativas, colocando personagens em outro patamar e ao mesmo tempo insatisfeitos com a evolução, já que, na realidade, evoluir incita mais conflito. Eis o improviso, a transição e o almejo de diferenciação para se tornar cada vez melhor e mais completa com seu contexto inerte dos escritórios e personagens recheados de comportamentos. Isso é The Office.

The Office – 4ª Temporada (The Office, EUA, 2007 – 2008)
Criação: Greg Daniels, Ricky Gervais, Stephen Merchant.
Direção: Ken Whittingham, Randall Einhorn, Tucker Gates, Jeffrey Blitz, Harold Ramis, Julian Farino, Greg Daniels, Joss Whedon, Craig Zisk, Paul Lieberstein, Jason Reitman, Paul Feig.
Roteiro: Greg Daniels, Jennifer Celotta, B.J. Novak, Mindy Kaling, Paul Lieberstein, Michael Schur, Gene Stupnitsky, Justin Spitzer, Lee Eisenberg, Lester Lewis, Steve Carell.
Elenco: Rainn Wilson, Steve Carell, John Krasinski, Jenna Fischer, Mindy Kaling, Leslie David Baker, Brian Baumgartner, Angela Kinsey, Kate Flannery, Phillys Smith, Creed Bratton, Oscar Nuñez, B,J Novak, Craig Robinson, Paul Lieberstein, Melora Hardin, Rashida Jones, Ed Helms, Hugh Dane, Amy Ryan.
Duração: 23 minutos (em média) cada episódio – 14 episódios na temporada, com 5 com duração de mais de 40 minutos.

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