Home QuadrinhosArco Crítica | The Old Guard – Vol. 1: Abrindo Fogo (Opening Fire)

Crítica | The Old Guard – Vol. 1: Abrindo Fogo (Opening Fire)

por Ritter Fan
1028 views (a partir de agosto de 2020)

Em The Old Guard, Greg Rucka essencialmente imagina um “o que aconteceria se…” em cima da premissa de Highlander – O Guerreiro Imortal, clássico oitentista com Christopher Lambert e Sean Connery, mas sem o “só pode haver um” e sem cabeças sendo decepadas a torto e a direito em uma espécie de competição por milênios por um prêmio nunca realmente explicado. O autor pretende algo menos rebuscado, mas não menos intrigante e pergunta como seria ser imortal em pleno século XXI, considerando toda a tecnologia que existe para tornar a privacidade verdadeira cada vez mais impossível e o mundo cada vez menor.

Afinal, se os guerreiros de Highlander podiam desaparecer nas brumas do tempo com uma certa facilidade até meados dos anos 80, essa tarefa começa a ficar complicada com câmeras vigilantes a todo instante que banalizam a imagem que, por sua vez, passa a ser objeto de análise de bilhões de olhos. Na história, a velha guarda do título é um grupo de quatro mercenários imortais capitaneados por Andy, apelido de Andrômeda de Cítia, que vivem e lutam juntos ao longo dos séculos completando as mais variadas missões, mas que passam a ser alvos de uma caçada por um bilionário que deseja descobrir o segredo deles. Costurando mistérios e misticismos em cima do porquê os guerreiros serem assim, Rucka ainda introduz uma nova imortal, a soldada Nile Freeman, que vem à velha guarda em estranhos sonhos e que serve de artifício narrativo para tornar mais fluida as explicações que são necessárias, inclusive diversos flashbacks para os momentos de “origem” de cada um do grupo e outros momentos-chave na longa vida de Andy.

Entre tiroteios e pirotecnias que fariam inveja à Michael Bay, a história caminha cada vez mais furiosamente para um desfecho 100% previsível, mas que satisfaz completamente se o leitor não estiver esperando discussões filosóficas profundas. Elas até existem, não tenham dúvida, mas Rucka não tenta reinventar a roda e fica nas platitudes de sempre sobre o valor da vida eterna ou o próprio sentido em si da vida sem a perspectiva da morte, algo que gera conflitos nas visões antitéticas de Andy, já mais do que veterana, e Nile, novata na arte de não morrer. São discussões instigantes, daquelas que dão uma boa roda de conversa com amigos em um restaurante, mas que o autor coloca em segundo plano, trazendo para a frente muitas explosões e muitos tiros, além de histórias pregressas que dariam excelentes quadrinhos paralelos passados em momentos diferente da Antiguidade, o que talvez tornasse seu trabalho realmente digno de nota.

Mas é aquilo: trata-se apenas do primeiro volume (com um segundo em vias de acabar na data de publicação da presente crítica) e Rucka, se quiser, terá espaço para desenvolver muita coisa que ele deixa entrever aqui muito mais como um tira-gosto do que como uma história realmente completa e complexa. Seus personagens são interessantes, o arco é bem resolvido e os flashbacks emprestam um ar melancólico, o que resulta na vontade de ler mais sobre esse mundo, certamente um dos melhores elogios possíveis a qualquer escritor.

No lado da arte, que ficou ao encargo do argentino Leandro Fernández, a pegada mais rústica, com jogo de sombras, muita silhueta, rostos pouco definidos e uma inteligente distribuição espacial por página ajuda muito para que a história de Rucka funcione de verdade. É quase como ler uma narrativa em que os personagens são arquétipos e não exatamente personagens, o que faz sentido considerando que a imortalidade impede que sintamos aquele senso de perigo que muitas vezes é necessário para criarmos alguma conexão. Fernández joga mais com o drama do momento e faz com que os sacrifícios sejam mais importantes do que os detalhes dos personagens, até porque só realmente Andy ganha camadas que vão além de sua origem. A paleta de cores limitada de Daniela Miwa também ajuda na construção dessa atmosfera heroica, amplificando as sombras, mas se recusando a deixar que o lado sombrio da narrativa domine os visuais, com um resultado muito bonito e agradável.

O primeiro volume de The Old Guard entrega muita diversão construindo um intrigante novo universo em quadrinhos a partir de conceitos batidos e conhecidos do público, com personagens fascinantes que têm enorme potencial até para histórias solo. A narrativa, aqui, é simples, feita para introduzir o conceito e fixar Andy e companhia na mente do leitor e, nisso, Rucka é definitivamente bem sucedido. Resta torcer para que essa história ganhe corpo e realize todo seu potencial e não aconteça o que aconteceu com Highlander e suas execráveis continuações.

The Old Guard – Vol. 1: Abrindo Fogo (The Old Guard – Vol. 1: Opening Fire, EUA – 2017)
Contendo: The Old Guard #1 a 5
Roteiro: Greg Rucka
Arte: Leandro Fernández
Cores: Daniela Miwa
Letras: Jodi Wynne
Editoria: Alejandro Arbona
Editora original: Image Comics
Data original de publicação: fevereiro a junho de 2017
Páginas: 170

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10 comentários

hellen medeiros 25 de julho de 2020 - 23:34

Cara, to doida pra conseguir os quadrinhos mas não faço ideia de onde pegar pq não sou do universo dos quadrinhos

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planocritico 26 de julho de 2020 - 00:00

Não foi publicada no Brasil, infelizmente.

A única fonte legal imediata que eu conheço – mas em inglês e com pagamento – é via Comixology.com. Foi assim que eu li.

Abs,
Ritter.

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Denner Wyller 22 de julho de 2020 - 20:14

depois que vi filme, vou procurar ler

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planocritico 22 de julho de 2020 - 20:20

Leia sim. É bem legal.

Abs,
Ritter.

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Victor Martins 10 de julho de 2020 - 18:54

A continuação segue o mesmo pique, só que dá uma humanizada na Andy (envolvendo mais uma amizade da idade média, inclusive o filme faz uma referência), além de mais espaço pra Nile e Copley.
Os outros personagens seguem subdesenvolvidos.

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planocritico 10 de julho de 2020 - 18:59

Imaginei, já que o Rucka é o roteirista do filme também. Não li ainda, pois o segundo arco não acabou.

Abs,
Ritter.

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Nellio Vinicius 10 de julho de 2020 - 16:13

Dessa vez, vou aguardar a crítica do filme e assistir o filme pra perguntar onde adquirir a hq, a última vez com os últimos dias de um bla blá americano, foram uma experiência terrível, apesar de que a charlize theron está tipo anos luz dos demais atores daquele filme que não pode ser mencionado, mas que ganhou nota de lixo atômico. Mas pela crítica do quadrinho, old guard parece ser um bom entretenimento.

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planocritico 10 de julho de 2020 - 17:58

A crítica do filme sai no domingo, pois amanhã tem a de Greyhound!

Abs,
Ritter.

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Victor Martins 10 de julho de 2020 - 18:42

Existe alguma chance de rolar crítica de “First Cow”, novo filme da (excelente) Kelly Reichardt ? O filme só lançou nosc cinemas em duas cidades dos EUA em Março e o Corona atrapalhou, daí lançaram para VOD hoje.

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planocritico 10 de julho de 2020 - 18:59

Sim, sai na segunda. Fique de olho!

Abs,
Ritter.

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