Crítica | The Orville – 2X03: Home

  • Contém spoilers. Leiam, aqui, as nossas críticas dos outros episódios.

Após dois episódios com nossa tripulação confinada na maior parte do tempo aos limites da nave, Home traz um pouco mais de paisagens extraterrestres, com a mesma dose de drama focado em personagem visto nos momentos anteriores. O enfoque narrativo da vez recai sobre a Chefe de Segurança Alara Kitan (Halston Sage), que começa o episódio enfrentando problemas de saúde ligados à mudança gravitacional do padrão humano em relação ao de seu planeta natal, Xelaya (a mesma diferença que garante sua hiperforça).

O capítulo atua, de certa forma, como sequência direta de Firestorm, episódio onde soubemos mais sobre as motivações e história pessoal de Alara. Além do protagonismo da xelayana, os episódios trazem também outros pontos em comum entre si: o roteiro assinado por Cherry Chevapravatdumrong e a participação especial do veterano de Star Trek: Voyager, Robert Picardo, interpretando o pai de Alara, Ildis. O que os espectadores provavelmente não esperavam é que o segundo roteiro de Chevapravatdumrong (ainda bem que não preciso ler isso em voz alta) explorando o personagem pode muito bem ter sido o último.

A trama segue o arquétipo bem conhecido da relação entre a vida familiar e cultura natal de Spock e sua escolha de seguir carreira junto à Federação em Star Trek. Os xelayanos e seu planeta natal são representados de forma bastante interessante, e a atenção ao detalhe visual garante um bom acabamento para a trama. A produção toma a liberdade de suspender a narrativa a bordo da Orville e acompanhar Alara em seus primeiros dias de reabilitação em Xelaya, e o conflito familiar é representado de forma crível e bem dosado.

É interessante notar como a premissa humorística de The Orville acaba sendo bem utilizada pelos produtores para quebrar fórmulas e subverter as expectativas da audiência. Ao mesmo tempo em que parece querer “se levar a sério” como um serial de exploração espacial, a série lança mão da carta de “tributo autoconsciente” quando bem lhe convém – felizmente não é raro que seja para a própria vantagem.

No caso em questão, a trama é construída de forma a trabalhar a doença de Alara como metafórica do abandono de sua terra natal – território no qual sua individualidade não é muito bem reconhecida. A subtrama utiliza de maneira inventiva o cenário do sci-fi espacial para abordar essa temática tão universal. Porém, se ficássemos apenas por aí, corria-se o risco de (novamente) apenas percorrer-se território já mapeado.

Entra em cena a segunda metade do episódio, que transforma o que poderia parecer ser uma situação em que os pais de Alara tentam emplacar um romance forjado em uma repentina situação de crime de vingança, com John Billingsley, de Enterprise, assumindo o papel vilanesco. As sequências de ação são bem realizadas e representam bons momentos de tensão e heroísmo para Alara e para o Capitão Mercer (Seth MacFarlane).

O conflito de fato amarra bem as temáticas do conflito emocional/familiar de Alara, e é seguido de uma não tão inesperada solução para a dilemática “persefonesca” da oficial em relação aos seus dois mundos. Poderíamos nos queixar da previsibilidade do encaminhar das coisas, não fosse o fato de que o que se segue é a despedida de Kitan, que deixa o cargo para passar mais tempo com a família em Xelaya, após a retratação catártica do pai. Se este é o momento que salva o episódio da trivialidade, é às custas de encerrá-lo com uma virada menos crível em termos de roteiro.

Embora a decisão de Alara seja representada de forma relativamente crível e realista, a construção do episódio não aponta de sua parte nada que realmente pudesse justificar sua resolução em voltar à Xelaya. A pista de que se trata da filha caçula em relação a uma irmã mais velha que ainda não saiu de casa passa a fazer mais sentido nesse contexto, mas não é o suficiente para desmontar a auto-suficiência como fator central na motivação da personagem desde o início, o que torna sua decisão dificilmente compreensível na perspectiva interna do programa. Falhando o watsoniano, sobra apenas o doyliano: a atriz Halston Sage aparentemente se afastou da produção em favor de outros projetos, e o futuro da personagem permanece incerto.

Se Home foi escrito desde o início como a despedida da personagem ou se tratou-se de um incremento de última hora, o fato é que a partida lembra um pouco as despedidas mais repentinas dos companions na série clássica de Doctor Who. Encerrando um drama bem construído de forma pouco orgânica e um tanto repentina, a produção faz o melhor para entregar uma sequência dramática crível, com direito a uma piada interna significativa e bem realizada com Mercer. Embora bem realizado, o desfecho acaba sendo o ponto fraco do episódio, com ares apressados e atuando de forma contraintuitiva em relação ao núcleo temático do restante da trama. No geral, mais uma boa entrada focada em personagem para a tripulação da Orville, que aparentemetne segue agora com um componente a menos em sua equipe principal.

The Orville – 2X03: Home — EUA, 10 de janeiro de 2019
Direção: Jon Cassar
Roteiro: Cherry Chevapravatdumrong
Elenco: Seth MacFarlane, Adrianne Palicki, Penny Johnson Jerald, Scott Grimes, Peter Macon, Halston Sage, J. Lee, Mark Jackson, Molly Hagan, Candice King, Robert Picardo, John Billingsley, Kerry O’Malley
Duração: 44 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.