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Crítica | The Orville – 2X04: Nothing Left on Earth Excepting Fishes

por Giba Hoffmann
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  • Contém spoilers. Leiam, aqui, as nossas críticas dos outros episódios.

Após nos debruçarmos (detidamente) sobre as necessidades fisiológicas de Bortus (Peter Macon) e nos despedirmos sem mais nem menos de um membro do elenco principal, o The Orville desta semana concede o protagonismo ao Capitão Ed Mercer (Seth MacFarlane), cujas aparições na temporada até então haviam se resumido à exposição de seu coração em frangalhos após a falha em reatar com Kelly (Adrianne Palicki).

No entanto, nada de remendar o coração do pobre capitão, por enquanto. Indo muito pelo contrário, o enredo de Nothing Left on Earth Excepting Fishes começa na intimidade cotidiana de um casal apreciando o musical O Rei e Eu, apenas para enredá-los em uma trama de ficção científica que acaba por arrastar as esperanças renovadas de Mercer de volta para a lama. A má sorte do capitão é tamanha que denuncia o próprio roteiro: o espectador mais observador poderia facilmente concluir haver algo de suspeito a respeito da Tentente Janel Tyler (Michaela McManus), baseado na aproximação repentina e aparentemente utópica entre os dois.

Porém, mesmo que agora tudo pareça claro ao se levar em conta que McManus já havia sido creditada anteriormente com o papel de Teleya, a revelação a respeito de sua real identidade é construida com simplicidade e nuance dramático o suficiente para soar surpreendente e convincente dentro da tonalidade intentada pela produção. Mais do que nos pegar desprevenidos com o fator inesperado, o capítulo não perde tempo em se encaminhar como uma sequência à altura do excelente Krill.

Invertendo a dinâmica apresentada na difícil missão de infiltração da temporada anterior, Mercer se vê repentinamente às voltas com os resultados diretos de sua missão – e se encontra forçado a provar do próprio remédio. A trama segue uma toada que consegue equilibrar simultaneamente três frentes narrativas: a aventura de ficção científica retrô, a comédia autoconsciente do gênero e o drama autêntico de personagens.

A começar pela batalha espacial — cuja trilha sonora e dinâmica evocam mais algo vindo da Guerra dos Clones de Star Wars do que de Trek propriamente dito — o capítulo em momento nenhum deixa de lado a galhofeira típica de um serial prestes de nos atingir com uma decepção amorosa envolvendo quilos de maquiagem e protética alienígena. Para todos os efeitos, a inspiração do capítulo é a premissa novelesca “o dia em que um capitão amou uma klingon” seguida à risca e sem embaraço durante as sequências de ação, porém levemente torcida em algo mais nas sequências com efeito mais propriamente dramático.

O capitão Mercer de MacFarlane não segue nem o tipo corajoso de Kirk, nem o arquétipo cerebral de Picard. Como protagonista de uma releitura comédica do sub-gênero, sua caracterização se aproxima principalmente do homem comum extraordinariamente ordinário. Esse mesmo fator, que tornou possível a exploração interessante e nuançada efetuada em Krill, volta a lançar as bases na sequência para que seja possível vender a ideia dos atos do capitão como heroicos, ao seu próprio modo, em sua fragilidade.

A forma como as sequências do ex-casal ilhado na superfície do planeta retomam momentos vividos pelos dois durante o disfarce humano de Teleya explora justamente essa frente da fragilização, garantindo boas chances de caracterização para um Mercer arrependido atuar de maneira nobre em relação a uma pessoa que acaba de traí-lo mas em relação a qual ele sabe ter aigo de forma semelhante no passado.

Nesse âmbito, a conversa de Mercer a respeito do fanatismo dos Krill consegue retomar temas morais universais do gênero sob um ângulo interessante, que é a visão ordinária dos fatos. Ao tratar da forma distorcida com que os Krill lidaram com a expansão de seus horizontes culturais, Mercer fala a partir da posição de sua filosofia pessoal, cambaleante e cheia de dúvidas, mais do que de uma diretriz externa absorta em auto-certezas.

Trabalhando cenários conhecidos e temáticas tradicionais do subgênero sob uma perspectiva interessante e sem excessos, Nothing Left on Earth Excepting Fishes mostra o poder de uma ideia simples, quando trabalhada sem hesitação a respeito de seus componentes mais extravagantes. Sem deixar a desejar enquanto sequência de um dos melhores capítulos da temporada anterior, o episódio ajuda na construção de um universo mais rico e multi-facetado para The Orville.

The Orville – 2X04: Nothing Left on Earth Excepting Fishes — EUA, 17 de janeiro de 2019
Direção: Jon Cassar
Roteiro: Brannon Braga, André Bormanis
Elenco: Seth MacFarlane, Adrianne Palicki, Penny Johnson Jerald, Scott Grimes, Peter Macon, J. Lee, Mark Jackson, Chad L. Coleman, Michaela McManus, Chris Johnson
Duração: 44 min.

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