Crítica | The Orville – 2X06: A Happy Refrain

  • Contém spoilers. Leiam, aqui, as nossas críticas dos outros episódios.

No que é tecnicamente mais um bottle episode, o The Orville dessa semana abraça uma de suas identidades que costuma se fazer presente mais como fundo do que como centro das atenções: a de comédia no ambiente de trabalho. Sem qualquer subtrama de periculosidade maior do que os  efeitos sentimentais das partes envolvidas e as consequências (por vezes hilárias, por vezes dramáticas) dos desencontros amorosos entre a Dra. Claire (Penny Johnson Jerald) e o sintético Isaac (Mark Jackson), A Happy Refrain consegue aproveitar bem o seu tempo de tela para garantir uma ótima hora de televisão.

De Ex Machina Westworld, o velho bastião da ficção científica que é a relação entre humanos e seus simulacros mecânicos mantém-se hoje em dia sendo explorada por ângulos inventivos e variados níveis de complexidade, sem jamais ter deixado de ocupar um lugar central dentre os favoritos do gênero. Assim, é uma obviedade inescapável afirmar que a trama de A Happy Refrain não guarda nada de novo para o conceito. Porém, por detrás do que poderia parecer um esforço redundante, temos uma boa e despretensiosa comédia romântica que mostra o quanto o trabalho de construção de personagens e cenário realizado pela investida de Seth MacFarlane no subgênero tem dado frutos.

Uma coisa que eu tenho notado e que merece destaque é o fato de que — salvo engano meu — cada episódio da atual temporada fez referência direta a pelo menos um episódio da temporada anterior. O que pode parecer um detalhe destinado aos espectadores mais obsessivos pela continuidade (e talvez seja, mesmo!) acaba tendo como efeito propiciar uma construção bem amarrada de nossa tripulação, estabelecendo arcos de personagem de forma orgânica e em um ritmo muito bom.

No caso aqui, a trama atua como uma forma de sequência direta a Into the Fold, onde acompanhamos pela primeira vez o pareamento inusitado entre Claire e Isaac. A subtrama envolvendo a relação dos dois continuou a dar as caras nos episódios subsequentes, aparecendo de forma mais marcada em Ja’loja. Eu penso que ambos os personagens estão entre as figuras mais carismáticas de toda a tripulação, e se serviram de boas atuações e diálogos para se estabelecerem bem mesmo com relativo pouco de tempo de tela.

Ao menos parte desse charme se deve ao seu caráter de tributo: tratam-se (como a grande maioria da tripulação da Orville) de figuras que retomam arquétipos quase alegóricos do gênero: Claire traz um pouco do pathos sempre crítico, independente e humanista do Dr. McCoy; enquanto Isaac é um entre tantos “C3-POs”, o alívio cômico robótico tornado personagem pela pura afirmação de seus clichês como parte do desenvolvimento da narrativa. A sinceridade com que a trama aborda esses delineamentos simples e eficientes de personagem deve ser parte do segredo de seu charme.

Sendo assim, não é de se surpreender que o episódio focado em seu romance funcione justamente ao adotar o estilo narrativo da ficção científica sessentista. Com seriedade e de forma autêntica (ou seja, deixando de lado o tom parodial), o capítulo se debruça em conversas do tipo “Eu não computo sentimentos, doutora, blip blip!”, cria a já conhecida tensão do “Poderia esta forma de vida pautada apenas pela lógica estar vivenciado agora uma emoção?” e diverte com o humor simples da quebra e questionamento das convenções sociais por parte de um forasteiro. E tudo isso funciona, porque nós nos importamos com os personagens em questão.

A produção consegue novamente dosar bem o tipo de humor que melhor se alinha com o drama atualmente explorado. Por exemplo, o humor gráfico e mais escrachado de Primal Urges dificilmente serviria bem a nossa trama atual, e felizmente acaba evitado em favor de uma comédia mais simples (e — por que não? — adorável) para a situação, o que garante inclusive que o final dramático aterrisse de forma mais convicente do que costuma ocorrer com as desventuras amorosas do Capitão Mercer. As interações entre os personagens são levadas a sério o suficiente para manter The Orville bem situada nesse espaço mágico entre a Série Original de Star Trek e a televisão atual, sem a necessidade de levar em conta sua própria auto-referência ou a quebra de expectativas. É nisso, por exemplo, que Star Trek: Discovery tem tido dificuldades para acertar com seu humor em uma segunda temporada que procurou abraçar de forma mais aberta suas origens icônicas.

A Happy Refrain é mais uma ótima peça de personagem para a série, balanceando bem a comédia com o drama e fazendo bom proveito da continuidade do seriado e do desenvolvimento do elenco efetuados até aqui. Mostrando novamente que não é necessário inovar para explorar de forma eficaz os lugares comuns do subgênero, a viagem da U.S.S. Orville continua a nos levar onde muitos homens já estiveram — por um bom motivo!

The Orville – 2X06: A Happy Refrain — EUA, 31 de janeiro de 2019
Direção: Seth MacFarlane
Roteiro: Seth MacFarlane
Elenco: Seth MacFarlane, Adrianne Palicki, Penny Johnson Jerald, Scott Grimes, Peter Macon, J. Lee, Mark Jackson, Chad L. Coleman, Jessica Szohr, Ted Danson, Chris Johnson, Mike Henry
Duração: 44 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.