Crítica | The Orville – 2X07: Deflectors

  • Contém spoilers. Leiam, aqui, as nossas críticas dos outros episódios.

A segunda temporada de The Orville tem surpreendido em termos de suas escolhas narrativas, em especial se pensarmos em termos de sua serialização. Embora tenha apresentado uma sequência sólida de episódios que vão do bom ao ótimo, a produção vem repetindo temáticas e desenvolvendo seus arcos de temporada de forma tão telegrafada que o mérito dessas tramas episódicas em permanecer entretendo acaba ainda mais destacado.

Nesse sentido, Deflectors é um episódio interessante de se analisar: trazendo o tipo de trama na qual a série já se saiu bem ao explorar de maneira confiante anteriormente, o capítulo traz novamente para o centro da discussão um imbróglio ético envolvendo o contato com a cultura moclana. No caso da vez, o artifício de se pintar uma cultura normativamente homossexual como força segregacionista da trama é ainda mais aprofundado do que na trama de About a Girl.

Enquanto naquele episódio (em relação ao qual este atua como espécie de sequência) a problemática envolvia procedimentos cirúrgicos impostos sobre um bebê recém-nascido, aqui o aspecto da cultura 100% masculina dos moclanos é desdobrado em uma trama explícita de ódio e perseguição. Compreensivelmente, assim como ocorreu em About a Girl, acaba sobrando pouco espaço para o humor aqui, exceto talvez para justificar alguns momentos mais irreverentes em meio a uma trama que se ocupa de temas como o suicídio.

A produção constrói bem um primeiro ato que suspende no ar uma possível tensão entre os tripulantes da Orville e os sempre complicados moclanos. Sem saber muito bem de que lado a crise eclodirá, vamos alternando entre núcleos distintos e suspeitando gradativamente da figura de Locar (Kevin Daniels), um renomado gênio da engenharia moclana que veio preparar a nave para uma missão exploratória.

A subtrama do término repentino entre a Comandante Kelly Grayson (Adrienne Pallicki) e Cassius (Chris Johnson) consegue se sustentar nas boas interações com o Capitão Ed Mercer (Seth MacFarlane), mas sofre da previsibilidade com a qual o arco é conduzido. Ao menos do lado de Mercer, tivemos um desenvolvimento interessante dessa frente romântica em Nothing Left on Earth Excepting Fishes. Grayson acaba não tendo a mesma sorte: o relacionamento recém-introduzido com Cassius recebe um dos encaminhamentos mais antigos do meio. O professor acaba se revelando um típico rival amoroso de sitcom, e sua aparente despedida aqui tem ares apressados e não empolga muito.

Mais interessante é a forma como a trama central retoma a relação conturbada entre Bortus (Peter Macon) e os tabus proibitivos de sua cultura natal, além de conceder um protagonismo orgânico para a novata Talla (Jessica Szohr). O romance proibido que surge entre Locar e Talla consegue ser bem trabalhado pelo diálogo — tanto a fala sempre pragmática e emocionalmente embotada dos moclanos quanto a expressividade mais “terráquea” dos xelayanos têm sido exploradas de forma bem consistente pela série, o que é importante dado o destaque a produção tem dado para ambos os povos em sua construção de mundo.

No entanto, em termos da narrativa sequenciada, a trama acaba sofrendo levemente com a saturação ao suceder diretamente A Happy Refrain, outro episódio centrado em nos convencer a respeito de um romance inter-espécies — fator que acaba realçado em uma temporada que tem investido tempo considerável nos relacionamentos românticos em geral.

Claro que não há nada proibitivo a respeito disso, e que há de se levar em conta que não é à toa que o tema é figura marcada em praticamente todo humorístico televisivo. É que, dado o escopo da premissa The Orville, a revisitação de temas com tal proximidade acaba causando alguma estranheza, em especial levando-se em conta uma temporada anterior bastante balanceada no quesito. São vários os déjà vus: o maior deles é que não se trata da primeira vez, em meia dúzia de episódios, em que temos Klyden (Chad L. Coleman) adentrando o “holodeck” chocado com a conduta sexual de um irmão moclano. Convenhamos, é uma situação bastante específica para se repetir tão cedo assim!

A virada do episódio em direção a um breve mistério whodunnit me pegou de surpresa, e daí em diante tivemos o ponto alto da trama. A produção consegue espertamente nos afastar da suspeita que planta a respeito de Locar no ato inicial, apenas para retomá-la ao telegrafá-la de forma interessante na resolução.  No fim das contas, me ficou a vontade de que esse aspecto da trama tivesse se montado mais cedo — trocaria facilmente todas as sequências do “vai não vai” entre Mercer e Grayson por uma construção mais elaborada da fórmula certeira que seria um mistério a la Agatha Christie a bordo da USS Orville.

Uma das grandes forças do seriado novamente mostra as caras aqui: a construção da trama do assassinato forjado de Locar consegue justificar muito bem o setting da exploração espacial. Para além das alegorias terrestres, o dilema do moclano é essencialmente alienígena, assim como o crime que ele forja para justificar seu desaparecimento sem causar a condenação de toda sua família, tida como refém por uma cultura que consegue “punir” até mesmo o suicídio.

Trata-se de um uso inspirado da ambientação para debater um experimento ético interessante, que consegue ser bem construído apoiando-se somente nos diálogos — de forma semelhante, por exemplo, à guerra simulada do episódio A Taste of Armageddon da musa inspiradora Star Trek. O confronto entre Talla e Klyden ao final do episódio é um excelente momento dramático para a série, pontuando de forma condizente uma das entradas mais sóbrias do seriado até aqui.

Se Deflectors serviu como prólogo da história em duas partes que o seguirá — a qual eu espero que seja sobre a dita exploração de uma zona desconhecida do espaço —, ele sem dúvida utiliza bem o seu tempo de tela para desenvolver uma história dramática de forma crível e interessante. Por outro lado, sua resolução um tanto apressada e a proximidade de seus elementos principais com temáticas já bastante percorridas recentemente pela série acabam deixando a coisa toda com ares de filler, por mais que o desenvolvimento de personagem realizado aqui não o merecesse.

The Orville – 2X07: Deflectors — EUA, 14 de fevereiro de 2019
Direção: Seth MacFarlane
Roteiro: David A. Goodman
Elenco: Seth MacFarlane, Adrianne Palicki, Penny Johnson Jerald, Scott Grimes, Peter Macon, J. Lee, Mark Jackson, Chad L. Coleman, Jessica Szohr, Chris Johnson, Kevin Daniels
Duração: 44 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.