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Crítica | The Orville – 2X11: Lasting Impressions

por Giba Hoffmann
102 views (a partir de agosto de 2020)

  • Contém spoilers. Leiam, aqui, as nossas críticas dos outros episódios.

Após se aventurar por duas tramas de ficção científica tradicional, a tripulação da USS Orville retorna em Lasting Impressions abordando uma premissa que, ao contrário de Identity Blood of the Patriots, não teria como funcionar tão bem em outro contexto que não a partir da tonalidade própria conquistada pela série. A descoberta de uma cápsula vinda direto do longínquo ano de 2015 acaba sendo a ocasião para que Gordon (Scott Grimes) se torne fascinado pela portadora de um smartphone quadricentenário.

A abordagem irreverente da premissa e as pitadas de humor escrachado que pontuam a trama não teriam lugar em uma série de exploração espacial que fosse qualquer coisinha mais sisuda. Mas a produção não se contenta em se ocupar do divertido conceito de antropólogos futuristas tentando desvendar nossos tempos atuais através da posse de um smartphone usado: de forma até audaz, essa premissa inicial mais voltada para a comédia esconde em si a preparação para um roteiro de ficção especulativa totalmente comprometido em explorar ideias genuinamentes interessantes.

É um sci-fi de alta qualidade que evita o caminho óbvio e o tom desnecessariamente ácido para abordar nossa relação atual com a tecnologia, evocando o tema como secundário em uma exploração de uma temática muito mais ampla e tradicional do gênero. Falamos aqui, é claro, das histórias que cuidam de percorrer dramaticamente os limites entre realidade e simulação em um contexto em que a tecnologia se encontra de tal forma avançada que essas linhas necessariamente se borram. O romance entre Gordon e Laura (Leighton Meester) explora assim, com muito nuance dramático, o tema contemporâneo da virtualidade das relações — não recriando-o de forma lúdica como aconteceu em Primal Urges mas sim promovendo um verdadeiro encontro entre nosso modo de vida atual e aquele de nossos tripulantes espaciais do futuro.

Que o roteiro acene no sentido de retomar a velha questão sobre “viver para sempre como um robô” sobre a uma especulação pra lá de engenhosa é quase um bônus. Nesse sentido, é como se tivessemos aqui uma espécie de USS Callister às avessas: ao invés de “Black Mirror faz cover de Star Trek“, temos o exato avesso dessa ideia, explorada de forma simples e charmosa. Se o problema de renascer como um software não costuma afligir muito quem tem a sabedoria de não planejar fazer um backup da própria consciência antes de bater as botas, o que dizer da apavorante ideia de ser “ressucitado” contra a vontade a partir dos dados coletados em sua Conta Google após tempo suficiente de uso?

Não que seja exatamente esse o ângulo do episódio na maior parte do tempo de tela, mas trata-se, sem dúvida, da questão que pontua muito eficazmente o desfecho final da trama. Seu desenvolvimento, fortemente apoiado na sempre carismática figura de Malloy, surpreende ao não tomar atalhos ou perder tempo demais explorando o choque das culturas separadas por séculos. O ângulo pelo qual os tripulantes da Orville vêem nossos costumes antigos como bobos ou sem sentido é minimizado de uma forma muito interessante: ao invés da comédia do choque de expectativas — bem explorada ao ser delimitada à subtrama hilária de Bortus (Peter Macon) — o foco aqui é mostrar como a recriação de Laura encantou Gordon para muito além de suas diferenças pontuais. E que mesmo por traz de toda a virtualidade, há um teor humano inegável por trás da máquina — é o degrau que Malloy (felizmente) não consegue ultrapassar em direção a um amor solipsista.

Mesmo repetindo algumas temáticas ainda recentes na atual temporada, a precisão das boas escolhas dramáticas e a tonalidade bem ajustada entre a comédia leve e a ficção especulativa autêntica fazem de Lasting Impressions mais uma excelente entrada na fase atual do seriado. Mais do que apenas se provar como uma produção genuinamente apaixonada pelos seriais televisivos de exploração espacial, The Orville continua a ter como grande trunfo a sua ótima construção de personagens, que serve de base para que o tempo investido no desenvolvimento da trama em si esteja sempre muito perto de explorar todos os seus ângulos mais interessantes.

The Orville – 2X11: Lasting Impressions — EUA, 21 de março de 2019
Direção: Kelly Cronin
Roteiro: Seth MacFarlane
Elenco: Seth MacFarlane, Adrianne Palicki, Penny Johnson Jerald, Scott Grimes, Peter Macon, J. Lee, Mark Jackson, Chad L. Coleman, Jessica Szohr, Leighton Meester, Tim Russ
Duração: 44 min.

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6 comentários

Morelli J. Roberto 5 de abril de 2019 - 16:40

Dentro da camada apontada pelo crítico sobre nossas vidas e relações virtuais, achei muito interessante a crítica de que o passado, mesmo aquele que não interessa, é essencial para quem somos. Apagar as fotos do ex não apaga o ex em nós, o melhor seria assumir. Como descobriu o Doutor em Voyager vivendo sua família holográfica, quando bem executado um episódio de holodeck bem feito gera muitas camadas de reflexões. Orville sempre me surpreende muito positivamente, dessa vez me fez até comprar um casado da China que inita o uniforme.

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Rogério Nora de Carvalho 29 de março de 2019 - 08:56

Alguém percebeu que o saudoso Tim Russ (o vulcano “Tuvok” da série Star Trek Voyager) participou deste episódio como o arqueologista? O episódio foi perfeito!
The Orville superou definitivamente minhas expectativas!

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Morelli J. Roberto 5 de abril de 2019 - 16:58

O Robert Picardo(Doutor) de Voyager que foi pai de Alara e a permanente Penny Johnson(Kasidy Yates) de DS9 que é a Dra. Claire Finn.. Invertendo a coisa Seth macfarlane têm uma ponta em um episódio de enterprise e o scott grimes têm um ponta em Nova Geração. têm no youtube um video do Macfarlane bem jovem em fanfilm de Startrek.

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Mauricio Ramos Thomaz 26 de março de 2019 - 12:40

otimo episodio inspirado no classico “Laura” da decada de 40 por isto a persoangem se chama Laura

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Lee Santos 26 de março de 2019 - 09:34

Excelente episódio. Essa atriz/cantora texana Leighton Meester é linda.
Esse episódio me lembrou outro de Star Trek, A Nova Geração, cujo nome não me lembro em que Geordi La Forge se apaixona perdidamente por uma engenheira criada também pelo programa do holodeck.
Mas, não tive como segurar a risada com a hilária sub trama dos cigarros.

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Morelli J. Roberto 5 de abril de 2019 - 17:13

Episode 3×06 Booby Trap, La Forge era um sem sorte no amor também.

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