Crítica | The Orville – 2X12: Sanctuary

  • Contém spoilers. Leiam, aqui, as nossas críticas dos outros episódios.

Moclanos. Moclanos por toda a parte. Com a já constatada preferência da produção pela curiosa raça alienígena cujo carro-chefe em nossa ponte de comando é o sempre hilário Bortus (Peter Macon) funcionando a todo vapor, entramos em mais um episódio que se debruça sobre as particularidades dessa civilização que se auto-proclamou “monossexuada”. Em tese, não é das premissas que mais me chamaria a atenção, dado em parte justamente o quanto esse terreno já foi percorrido recentemente. No entanto, Sanctuary felizmente me surpreendeu ao conseguir não apenas fazer valer a revisitação ao tema, mas ao fazê-lo concretizar também uma ótima trama episódica que não deixa de trazer uma interessantíssima exploração de personagem.

Há algo para ser dito a respeito da estrutura e do estilo de The Orville em relação ao trato de temas ligados à retratação de questões sociais complexas na ficção pop atual. Me refiro à potência que tem o uso da sutileza na abordagem de tais questões: além de ser a escolha narrativa mais elegante, trata-se também de uma forma muito eficaz de se “dizer mais com menos”, no mínimo poupando o valioso tempo de tela com elementos mais efetivamente dramáticos do que a exposição de discursos alongados (e, no máximo, respeitando a inteligência do espectador em interpretar a trama em nível temático).

O fato é que, com o uso de muito pouca exposição por parte da produção, o arco envolvendo Bortus e sua relação complicada com o parceiro Klyden (Chad L. Coleman) e seu filho Topa consegue ser um elemento que sempre rende excelentes momentos de genuíno drama em um ambiente de ficção científica. Por entre vícios em pornografia holográfica, bigodes postiços e problemas com a nicotina, nós sentimos que conhecemos Bortus e o acompanhamos em um drama muito simples, que é o de se sentir transformado pela inclusão na União Planetária em oposição aos costumes barbáricos de seu povo de origem. Apoiado nessa boa construção, o roteiro deste episódio consegue finalmente trazer ao centro esse elemento de forma brilhante, inclusive reservando várias viradas empolgantes e inesperadas de roteiro no processo.

Que a chegada dos engenheiros moclanos na Orville fosse levar a uma nova crise diplomática já estava bem claro para quem já se acostumou com a pegada da série nessa segunda temporada. O interessante é a forma como a estrutura do episódio daí em diante consegue romper com nossas expectativas e verter um drama pessoal que, apesar do inegável teor político, parece inicialmente tender ao foco no nível pessoal, em um âmbito cada vez mais maior que termina em um incidente diplomático de proporções galáticas. O senso de mistério e desconhecido é muito bem trabalhado a cada virada do roteiro: desde o choque entre a perspectiva de Bortus e a possibilidade dele ter sido enganado pelo casal, passando pela descoberta da colônia de amazonas moclanas e chegando finalmente  a um desfecho em três frentes: batalha política, tiroteio de phasers e confronto espacial entre a Orville e o cruzador moclano.

Tratava-se, em ambos os níveis — pessoal e galático —, de um incidente inevitável. Tudo aquilo que é negado, uma hora ou outra encontra um caminho para novamente se manifestar. Assim como Bortus acaba tocado pela situação dos engenheiros que contrabandeiam a filha na Orville, a sociedade moclana coexiste com a União Planetária mesmo negando princípios que deveriam ser universais, a bem da necessidade de outros interesses. A colônia moclana chefiada por Heveena (Rena Owen) volta para assombrar essa relação potencialmente frágil assim como a decisão a contragosto feita por Bortus em About a Girl acaba voltando para pegá-lo de surpresa ao constatar o que o casal Moclan trazia escondido em seu campo de êxtase.

A produção consegue construir bem uma exploração sincera e bastante vívida o tema, salpicando momentos de otimismo mais rodenberryano (o breve discurso idealista do Capitão Mercer (Seth MacFarlane) durante a assembléia da União) sobre um todo mais realista que não foge da raia ao mostrar as limitações que toda e qualquer tentativa de negociação do tipo (mesmo as que envolvem o direito de simplesmente existir-se como tal) acabam por encontrar. Ah, claro que no meio a isso tudo temos piadas inesperadas (algumas que aterrissam bem, outras nem tanto) e uma sequência de ação em que Bortus e Kelly (Adrianne Palicki) se envolvem em um tiroteio de phasers ao som de Dolly Parton. Pois é, isso é The Orville. Eu é que não estou reclamando!

The Orville – 2X12: Sanctuary — EUA, 11 de abril de 2019
Direção: Jonathan Frakes
Roteiro: Joe Menosky
Elenco: Seth MacFarlane, Adrianne Palicki, Penny Johnson Jerald, Scott Grimes, Peter Macon, J. Lee, Mark Jackson, Chad L. Coleman, Jessica Szohr, Victor Garber, Chad L. Coleman, Rena Owen
Duração: 44 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.