Crítica | The Orville – 2X13: Tomorrow, and Tomorrow, and Tomorrow

  • Contém spoilers. Leiam, aqui, as nossas críticas dos outros episódios.

Embora isso estivesse longe de se apresentar como um verdadeiro ponto fraco para a série, por varias vezes tive a impressão de que faltava algo à trama do relacionamento entre o Capitão Mercer (Seth MacFarlane) e a Comandante Grayson (Adrianne Palicki). Talvez isso se desse pela centralidade que ele ocupa na estrutura geral da série , somada à predominância da exploração sempre mais humorística do tema. Mesmo apreciando ambos personagens, me parece que o romance vai/não-vai da ponte de comando da USS Orville acabou por diversas vezes se revelando mais limitado do que a produção parecia por vezes sugerir — vide o arco recente sobre o novo namorado de Kelly, que resultou até agora em absolutamente nada. Felizmente, Tomorrow, and Tomorrow, and Tomorrow vem remediar a situação e, de quebra, parece nos apontar exatamente para o ingrediente que faltava na mistura para que a coisa superasse os moldes de lugar-comum: o desenvolvimento de personagem de Kelly Grayson.

Não que ela tenha sido jogada para escanteio ou propriamente maltratada de alguma forma pelo roteiro. Ao contrário, se tem algo em que The Orville consegue se garantir semana após semana com total consistência (além da recriação do look-and-feel de uma certa série clássica de ficção científica televisiva) é a boa construção dramática de personagens. De quebra, a produção o faz sem abrir mão das técnicas valiosas de sutileza narrativa. Porém, embora possamos dizer que conhecemos o suficiente sobre Grayson para garantir um “recheio dramático” mínimo para seus arcos pessoais, é certo que com o avanço da série a personagem acabou carecendo de um trabalho mais detido sobre seus conflitos. Enquanto as desventuras românticas de Bortus (Peter Macon), Malloy (Scott Grimes) e até mesmo de Isaac (Mark Jackson) foram abordadas por ângulos diversos e com oportunidades interessantes de estudo de personagem, Kelly acabou por muito tempo enredada como parte indiferenciável da trama do casamento mal-sucedido com Ed.

Por sorte, maquinações temporais gratuitas e sem muito propósito garantem a oportunidade perfeita para que a co-comandante da nave finalmente receba um episódio focado em sua perspectiva pessoal. Com um evento bizarro interagindo com um experimento de viagem temporal desenvolvido por Isaac (eu sei que o cara se redimiu mas, ainda assim, ele tem autorização pra isso?), a Kelly de sete anos atrás acaba surgindo a bordo da Orville, trazendo um conflito multifacetado entre passado e futuro. É notável a simplicidade e eficiência com a qual a série se utiliza de uma premissa clássica do subgênero para se debruçar sobre o tema, explorando-o de forma envolvente e inspirada.

Se falar sobre amores passados, desenvolvimento pessoal e questões identitárias a bordo de uma nave exploratória em si só já não é tarefa fácil, então fazê-lo com uma perspectiva realista, humanizadora e, ainda assim, muito divertida merece grandes elogios. Assim como acabamos de ver em Sanctuary, o roteiro aqui abraça as questões que levanta e transita com segurança entre o terreno da comédia leve e do drama sincero, evitando a alternativa fácil do cinismo. O otimismo pé-no-chão de Orville novamente dá as caras na exploração da história pessoal entre Ed e Kelly, que aqui ganha novo fôlego ao ser abordada a partir da perspectiva de Grayson, marcando aquilo que a diferencia em relação a Mercer e não apenas tudo que eles obviamente têm em comum.

Um encontro com sua própria versão no passado, afinal de contas, é um premissa brilhante para se explorar várias dessas questões. Ao contrário do que ocorreu com o lado sombrio do Capitão Kirk, que se materializou a bordo da USS Enterprise em carne, osso e lápis no olho no episódio The Enemy Within da Série Original de Star Trek, a relação imediatamente conflituosa entre a Kelly do presente e a Kelly do passado não guarda em si nenhum maniqueísmo possível. Palicki entrega aqui uma de suas melhores atuações, marcando bem as diferenças entre as duas encarnações da personagem de forma a sustentar bem a relação dúbia de ódio e admiração que perpassa esse encontro improvável. E teria como ser diferente?

A combinação entre essa temática tão universal e uma abordagem precisa realça novamente as qualidades dramáticas da série. Enquanto, por exemplo, a trama do episódio Second Chances de A Nova Geração deu ênfase ao aspecto “intergeracional” de um encontro trans-temporal do tipo, a exploração da ideia aqui consegue ser ainda mais interessante por dois motivos. O primeiro é justamente a construção bem realizada do fator humano e da falibilidade inerente de nossa tripulação. Afastando-se da pegada mais “protocolar” que é marca de algumas histórias do gênero, nos inteiramos da carreira de Kelly de forma a aumentar nosso fator de identificação e vínculo. Não se trata de tentar explorar um possível contraste entre maturidade e imaturidade, mas  sim de se utilizar do contexto de viagem no tempo para questionar o que entendemos por maturidade, identidade, etc. Ambas as Kellys têm razão a respeito de certas coisas, e permanecem tão indefinidas quanta a outra a respeito de outras. Com um tato bem ajustado, o episódio explora isso de forma divertida e envolvente do início ao fim — a (im)possibilidade de “tentar de novo” com o Ed do presente é apenas um dos fatores em jogo aqui. O segundo elemento de destaque, por sua vez, é a forma como o episódio inesperadamente resolve mergulhar de cabeça na premissa de ficção científica e se dispõe, de surpresa, a se revelar como apenas a primeira parte de algo mais complexo.

Pois é, aquele final! O que foi aquele final!? Convencidos de termos presenciado um belo bottle episode focado em uma personagem que há tempos merecia, somos pegos de surpresa aos 45″ do segundo tempo ao descobrir que as coisas pelo jeito não se resolveram tão facilmente assim. O bom preparo da perspectiva da Kelly do passado acaba servindo como gancho para tornar sua decisão inesperada em rejeitar Ed algo orgânico e convincente (além, é claro, de um tanto chocante!). Tomorrow, and Tomorrow, and Tomorrow começou como um belo estudo de personagem, mas ao final revela “de quebra” ter tudo para se desdobrar em um final de temporada onde a trama de sci-fi é trazida de surpresa para o primeiro plano. O que acontecerá a partir desse desenvolvimento inesperado dos eventos? Dedos cruzados para mais um capítulo excelente — e, é claro, por uma mais do que necessária terceira temporada!

The Orville – 2X13: Tomorrow, and Tomorrow, and Tomorrow — EUA, 18 de abril de 2019
Direção: Gary S. Rake
Roteiro: Seth MacFarlane, Janet Lin
Elenco: Seth MacFarlane, Adrianne Palicki, Penny Johnson Jerald, Scott Grimes, Peter Macon, J. Lee, Mark Jackson, Chad L. Coleman, Jessica Szohr, Mark Jackson, Chad L. Coleman
Duração: 44 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.