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Crítica | The Pacific

por Marcelo Sobrinho
343 views (a partir de agosto de 2020)

“Your soul may belong to Jesus, but your ass belongs to the marines.”

Eugene Sledge, em ‘With the Old Breed: At Peleliu and Okinawa’

Contém spoilers!

Quando Robert Leckie volta para casa após a rendição dos japoneses, que decretara o fim da Segunda Guerra Mundial, o taxista recusa o pagamento da corrida. Anuncia-se como veterano do Dia D e declara para o integrante da 1ª Divisão de Fuzileiros Navais: “Posso ter desembarcado na Normandia, mas tive algumas licenças em Paris e Londres. Vocês fuzileiros só tiveram a podridão da selva e a malária”. O relato anedótico ilustra bem o que foram os anos de combate nas longínquas ilhas banhadas pelo Pacífico. A guerra naquele oceano foi um capítulo bastante particular da Segunda Grande Guerra, mas dificilmente recebe a mesma atenção que os acontecimentos envolvendo o palco europeu. Após produzirem Band of Brothers em 2001, Steven Spielberg e Tom Hanks decidiram iniciar um novo projeto – uma nova minissérie de guerra, seguindo os moldes da anterior, mas centrando-se em relatos sobre a Guerra do Pacífico.

Nascia The Pacific, minissérie de 2010, também em 10 capítulos, que desenvolve em paralelo as narrativas de três fuzileiros navais americanos: os soldados Robert Leckie e Eugene Sledge e o sargento John Basilone. Eles tornaram-se célebres por suas participações nas principais batalhas do Pacífico – de Guadalcanal a Okinawa. A minissérie americana baseia-se nas auto-biografias de Sledge e Leckie e, exatamente por isso, sente-se a mudança de tom em relação a Band of Brothers. The Pacific não tenta emular o que deu certo na minissérie de 2001. Esse é um de seus principais trunfos. Não se trata mais de uma única companhia, vivendo coletivamente a guerra. Mesmo atuando muitas vezes na mesma batalha, só há um momento em que dois deles se encontram de fato. O resultado disso é que a minissérie desloca a experiência do conflito para o indivíduo. A guerra tem cores diferentes para Basilone, Leckie e Sledge. Se algo os conecta é meramente o seu horror – amplificado em The Pacific de modo assombroso.

Orçada em 200 milhões de dólares, ela é considerada até hoje uma das minisséries mais caras da história. Mas para tirar proveito de tudo o que ela pode oferecer, é preciso ter em mente que as comparações com Band of Brothers precisam se restringir mesmo à forma. Há quem critique The Pacific por entremear relacionamentos amorosos em meio às tonitruantes batalhas. Não acho que os roteiristas tenham optado por um mero alívio à experiência dantesca que se mostra no campo de batalha. Cada um dos relacionamentos cumpre um papel na construção e transformação dos personagens. O caso mais importante, envolvendo John Basilone e Lena Riggi, é o início da ruptura do sargento com o status de pop star que ganhara após retornar de Guadalcanal. É a aproximação dos dois que faz Basilone abandonar a vida medíocre e banal que levava para retornar ao front, reencontrar-se consigo mesmo e morrer dignamente. Há algo maior que a medalha de honra que recebera. Algo que ele só encontra ao tombar em Iwo Jima. A minissérie expõe as memórias dos homens. Não só a dos combatentes.

The Pacific tem vida própria. Se ela não tem todo o frescor de sua forma original, ao menos compensa com uma cinematografia ainda mais perfeita tecnicamente. O planos gerais nas praias de Guadalcanal, revelando o impressionante massacre de japoneses, colocam potência máxima desde o primeiro episódio. Mais à frente, na batalha de Peleliu, o momento mais glorioso da direção – uma incrível sequência em que os soldados correm a céu aberto, sob pesado bombardeio japonês, sendo mortos ou dilacerados em grande número. Robert Leckie corre sob o fogo inimigo em um travelling de acompanhamento que impressiona pela beleza da execução, mesmo não sendo uma novidade no gênero (Kubrick já fizera isso em Glória Feita de Sangue). Também os efeitos especiais e visuais criam um espetáculo de destruição e de morte, tingido pelas cores quentes e saturadas de uma fotografia que retrata uma natureza que castiga, por suas abundâncias e suas faltas, tanto quanto o fogo inimigo. The Pacific é brutal.
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Combatendo um novo inimigo

“No círculo terceiro estou; maldita
eterna chuva, gélida e pesada
em monótono ritmo precipita.”

Canto VI, Inferno – A Divina Comédia, de Dante Alighieri

Os que lutaram na Europa, por mais rigorosos que fossem seus invernos, provocando doenças (como os “pés-de-trincheira”) e inúmeras baixas, encontraram condições naturais semelhantes às suas. Quando os fuzileiros americanos desembarcaram nas praias do Pacífico, encontraram como inimigo não só a determinação do soldado japonês, mas uma natureza em tudo diferente da que conhecia. The Pacific faz um belo trabalho de ambientação de seus combatentes, que tiveram de suportar os vapores e os fluidos de uma natureza tão paradisíaca quanto hostil. Em Guadalcanal, encontraram uma floresta bela e densa. Sedutora e venenosa. Em Cabo Gloucester, a lama e a chuva ininterrupta, que perturbava o humor dos homens e enlouquecia suas mentes. Um dos momentos mais assustadores de toda a minissérie é o suicídio do tenente Lebec, exclamando suas últimas palavras como as de um condenado: “Tudo está molhado!”.

Já em Pavuvu, a doença é trazida pela mata. A malária leva febre e dor para o soldado Wildbur “Runner”, dentre outros. A disenteria também se alastra. Em Peleliu, são as altas temperaturas, a seca e a ausência completa de água potável que desafiam os corpos dos homens. Em Okinawa, a pestilência de terrenos lodacentos e a escuridão só interrompida pelo fogo da batalha. Quanto mais difíceis são as condições naturais impostas ao combate, mais empedernidos, desesperados e doentes se tornam os soldados. Bob Leckie desenvolve enurese após Cabo Gloucester. Em Peleliu, um soldado grita na noite e é morto pelos companheiros. O experiente sargento Elmo Haney entra em colapso emocional.  As crises de choro se tornam generalizadas. Em Okinawa, o soldado Tony Peck atira contra a escuridão e provoca a morte de um amigo. Os fuzileiros de The Pacific enfrentam suas batalhas como círculos de um inferno semelhante ao de Dante Alighieri, onde a chuva, o fogo, o frio e a escuridão são as danações eternas de seus condenados.
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O racismo como combustível da guerra

Recentemente, o jornalista Seymour Hersh, que denunciou o massacre de civis em My Lai durante a Guerra Vietnã, reafirmou a existência de uma relação tão íntima como destrutiva – o racismo e a guerra. Tal como Hersh em relação ao Vietnã, The Pacific faz uma denúncia bastante ousada ao racismo dos americanos contra os japoneses. Tratados como “yellow monkeys” desde o primeiro episódio, fica claro que os soldados estadunidenses aprenderam mais do que combatê-los e matá-los. Aprenderam também a odiá-los como seres quase inumanos – feras a serem abatidas e eliminadas. O embrutecimento geral pelo combate acabara por acirrar ainda mais os ânimos e, embora não fique explícito, é bastante possível imaginar que os japoneses nutrissem o mesmo ódio pelos americanos. Ao menos, a ferocidade de seus ataques nos permite presumir isso. É uma tolice, é claro, achar que o ódio escolha lados para agir.

São vários os momentos em que o tratamento dispensado aos japoneses revela o vilipêndio à sua própria humanidade. Os americanos brincam de alvejar um último japonês vivo em Guadalcanal. Snafu rouba ouro dos dentes dos cadáveres inimigos. Em uma excelente cena, um fuzileiro americano cospe em um soldado japonês rendido e sob a proteção da convenção de Genebra. Outro mata um jovem japonês desarmado apenas pelo prazer de matar. Surgem assim os sentimentos mais primitivos do homem, regidos por aquele que os lidera por excelência – o ódio. Isso não sinaliza, contudo, que os mesmos personagens que matam como animais não terão também suas oportunidades de redenção, nem que os japoneses deixarão de demonstrar igualmente a sua covardia. Uma mãe desesperada é utilizada como “homem-bomba” por eles, em um dos momentos mais cruéis de The Pacific. Sledge viverá a experiência contrária em Okinawa, ao tomar em seus braços outra mãe japonesa, gravemente ferida e em franca agonia. Vale para os dois lados – é tratando o outro como uma fera que se torna outra igual.
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A guerra entre culturas e o desmanche da Idade da Razão

A Guerra no Pacífico tem um significante próprio, que não se encontra em nenhum dos combates que aconteceram na Europa. Os entreveros entre os combatentes Aliados e os italianos e alemães foram embates entre culturas similares, isto é, entre homens que conseguiam reconhecer-se uns nos outros, mesmo que assumindo a missão de se matarem. As batalhas nas ilhas do Pacífico, impregnadas pelo racismo de lado a lado, revelaram o fracasso último da chamada Idade da Razão, para usar um termo sartriano. Todo o avanço da técnica, da ciência e, portanto, da razão, não só não eliminou a miséria, o ódio e a guerra do mundo, como acabou por aprofundar a mais antiga das separações – aquela entre o Oriente e o Ocidente, que nutriram naqueles anos e naquelas ilhas infernais uma ojeriza mútua que há muito não se via. O mundo se partia novamente ao meio e o progresso nos restituía o nosso pior enquanto humanidade.

As bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki foram o último e mais triste capítulo dessa cisão. Muitos reclamam que The Pacific as ignorou. Nunca é demais chamar a atenção para o fato de que se trata de uma minissérie e não de um documentário. Portanto, não há qualquer obrigação de se cobrir todos os fatos históricos, especialmente porque todos os acontecimentos estão situados pelo olhar dos fuzileiros, que puderam comemorar o fim da guerra em Okinawa. A minissérie produzida por Hanks e Spielberg é constituída de relatos pessoais. De experiências individuais, portanto. É preciso saber valorizar essa riqueza, afinal, uma calamidade com a que se abateu sobre Hiroshima e Nagasaki encontra eco também nos menores horrores praticados por ambos os lados no dia-a-dia do combate.

Alguns homens da 1ª Divisão de Fuzileiros Navais em Okinawa. Eugene Sledge, ao centro da primeira fila e Romus Burgin, o segundo da esquerda para a direita na terceira fila.

The Pacific segue como um dos mais importantes retratos cinematográficos da Guerra do Pacífico. Talvez o mais emocionante e pessoal deles. O número de personagens principais é menor que o de Band of Brothers, mas seu relato de coragem e de horror combatendo nos recônditos da guerra, onde tantos outros não precisaram ir, contém a dignidade das melhores histórias de combatentes.

The Pacific – EUA, 2010
Direção: Carl Franklin, David Nutter, Graham Yost, Jeremy Podeswa, Timothy Van Patten.
Roteiro: Bruce C. Mckenna, Chuck Tatum, Eugene Sledge, Robert Leckie, Laurence Andries, Michelle Ashford, Robert Shenkkan.
Elenco: Ashton Holmes, James Badge Dale, Jon Seda, Joseph Mazzello, Josh Helman, Keith Nobbs, Martin McCann, Rami Malek, Toby Leonard Moore, Adelaide Clemens, Andrew Lees, Annie Parisse, Brendan Fletcher, Caroline Dhavernas, Claire van der Boom, Connor O’Farrell, Gry Sweet, Jacob Pitts, Scott Gibson.
Duração: 600 minutos.

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4 comentários

Jordison Francisco 7 de setembro de 2020 - 16:59

“The Pacific” é mais uma produção sobre a Segunda Guerra Mundial, com a tríade formada por Steven Spielberg, Tom Hanks e Gary Goetzman na produção. Esta série fez bastante sucesso e é considerada uma das melhores séries de TV nos últimos anos.

Que série sensacional pois acompanha o padrão de filmes Quando os Bravos se Calam(1998), A Lista de Schindler, Corações de Ferro e O Resgate do Soldado Ryan! Gostei muito da direção dele no show”Band Of Brothers”. E por isso quem decidiu investir nessa produção também não se arrependerá.

Tempos depois, os produtores se reúnem mais uma vez para mais uma produção sobre a Segunda Guerra, “The Pacific” foca em três marinheiros na costa do litoral do Pacífico, durante o conflito entre EUA e Japão. Não querendo comparar, mas já comparando, a série gerou uma expectativa tão grande, já que Band Of Brothers da HBO foi um grande sucesso, e aqui não repetiu este sucesso.

Está muito aquém de sua antecessora. Band of Brothers é imensamente superior, pois focar no comportamento humano durante a guerra e não priorizar somente os combates apenas, na minha humilde opinião é brilhante.

Agora não vamos fazer comparações, falemos apenas do show… “The Pacific” pretende render uma homenagem aos jovens soldados americanos (alguns tinham entre 16 e 17 anos ao chegar à zona de batalha), mas também abordar o drama vivido pelos japoneses.

A série não consegue desenvolver uma trama. Todos os episódios não passam de uma longa sequência de ação. São tantas cenas de guerra, que elas se repetem, se tornam vazias, todas iguais: chuva, lama, tiros, sangue, chuva, lama, tiros, sangue, chuva, lama, tiros sangue. Não há drama que dure mais que alguns minutos na tela, não há conflito (internos ou externos – a não ser a guerra, claro). O único conflito é o de John Basilone, e ele é tão dissolvido ao longo de tantos episódios, que se perde. E o conflito de Sledge só ocorre no último capítulo.

Outro problema são os personagens. A série não consegue criar arcos dramáticos para os personagens. O resultado disso é que nenhum personagem cativa e o expectador não consegue se conectar a nenhum.
Um dos poucos personagens com um arco dramático, é John Basilone. No começo era apenas um almofadinha, e de repente, se torna um herói de guerra e essa situação o desenvolve muito bem, chegando uma conclusão dramática e cativante.
De resto, todos os demais personagens são mal desenvolvidos. Eugene Sledge até tem seu momento no último episódio, e aí já é tarde, né?
E o elenco também não ajuda. Mesmos as boas atuações, alguns adultos se passando por rapazes de 16/17 anos é forçar a situação que não dá pra engolir. Jon Seda (Basilone) já tinha 39 anos quando fez série. James Badge Dale (Robert Leckie) já tinha 31. Joseph Mazello (Sledge) era mais novo, com 26. Não consigo ver esse pessoal como se fossem adolescentes.

A direção de arte é boa a princípio, mas como o roteiro não ajuda, os cenários começam a se tornar repetitivos, caindo na mesmice (e isso inclui tanto campos de batalha quanto as bases militares). O trunfo fica mesmo com o figurino, objetos de cena e cenários urbanos.

A fotografia é bem franca, com uma iluminação mal produzida em vários momentos e uma paleta de cores estagnada. Te faz sentir assistindo um filme dos anos 1970.

Focou mais nas cenas de guerra e nas paisagens, e pouco no conflito dos soldados, tão pouco que a gente se identifica pouco com os soldados. E tem partes nos episódios que são um pouco lentas. O clima de combate é diferente, são cenas noturnas, outro tipo de esquema no conflito. Gostei dos nomes dos episódios que são nomes das localidades que se tiveram combates.

Além disso, é justamente na segunda metade da série que a carga mais dramática, tensa e insana da guerra acontecem. E ela é acompanhada da aparição, ao meu ver, do melhor ator-personagem da série, ainda que seu papel tenha ares de coadjuvante: Snafu! O psicológico de seu personagem, bem como a própria fisionomia que ele imprimia, são fantásticas. Esse ator foi o mais bem sucedido em transmitir uma imagem de mente insana misturada com desolação. É justamente Snafu que participa de uma das cenas mais impactantes da série, quando ele fica tentando “acertar” pedrinhas no crânio aberto de um japonês. Essa cena dá náuseas!

Brutal, realista, violento e emocionante. O que os Marines passaram não é pra qualquer um.

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Gessé Celestino 10 de abril de 2018 - 20:02

Eu já vi ela umas 5x, é realmente fantástica, e não deixou a desejar em nada em relação a Band of Brothers. Tanto que eu, particularmente, achei essa série mais elaborada que a antecedente. Steven Spielberg e Tom Hanks, né, não tinha como dar errado.

Parabéns pela crítica, e continuem. 🙂

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Marcelo Sobrinho 11 de abril de 2018 - 09:42

Olá, Gessé! Também adoro The Pacific. Band of Brothers eu já assisti mais vezes, mas gosto das duas igualmente. Cada uma com sua abordagem. 5 estrelas para ambas sem medo de ser feliz! Obrigado pelo elogio! Leu minha crítica de Band of Brothers também? Abraços!

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Marcelo Sobrinho 11 de abril de 2018 - 09:42

Olá, Gessé! Também adoro The Pacific. Band of Brothers eu já assisti mais vezes, mas gosto das duas igualmente. Cada uma com sua abordagem. 5 estrelas para ambas sem medo de ser feliz! Obrigado pelo elogio! Leu minha crítica de Band of Brothers também? Abraços!

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