Crítica | The Perfection

“Você sabe o que acontece agora.”

Os caminhos para o sucesso, para a perfeição, não importa o quão desagradáveis sejam, são compreensíveis? Tão polêmicas, The Perfection irá apresentar inúmeras questões dessa espécie, discutindo perversão em uma obra do gênero de terror com muitas pitadas eróticas, que combinam com todo esse traje a rigor provocador. O projeto traz vários dos seus personagens cometendo certos atos que, por si só, seriam invariavelmente problemáticos, no entanto, que visam um outro fim e tentam por tais se acobertar. Os fins justificam os meios? O que é legítimo e o que não é? Esse anseio descontrolado por uma grandeza e/ou por um determinado objetivo expõe, entretanto, vertentes perigosas dos seres humanos, as quais serão introduzidas no enredo do longa-metragem em questão gradualmente. Os monstros que usam máscaras de heróis e os mocinhos que usam máscaras de vilões se revelarão, em um jogo de aparências promissor pela maneira como Richard Sheperd, o cineasta responsável pela obra, conduz o seu começo, muito enervante nas sugestões.

O primeiro ato do longa-metragem é o que tem de melhor na obra, mais preocupada nas várias estranhezas do que nas tais respostas. Charlotte (Allison Williams), na premissa, é uma ex-violoncelista, mas que trocou a sua carreira para estar ao lado de sua mãe nos seus últimos anos de vida. Depois que sua mãe enfim se vai, retorna ao meio que deixara há anos. Os seus mestres do passado dão as caras novamente. Agora, porém, existe uma mais nova musicista no seu lugar, Elizabeth (Logan Browning), pupila da sua antiga escola de música que está em um auge na sua carreira. Como os personagens não são quem parece ser, a narrativa não é o que parece ser. Mas é apenas quando está dando as primeiras pistas, insinuando os mistérios propostos e os estranhamentos, que Richard Sheperd consegue usufruir com grande competência das suas ferramentas. Já no resto do seu longa-metragem, o cineasta perde ligeiramente o impacto das provocações,  pois começa a achar que o roteiro é bem mais inteligente do que verdadeiramente é.

Uma cafonice torna-se inexorável ao restante do projeto, se comparado ao seu início, mais concreto em suas ambições. Sheperd, curiosamente, até parece Jordan Peele, mas sem a mesma sagacidade do cineasta responsável por Corra! e Nós. É igualmente curioso notar que Allison Williams interpreta personagens ambivalentes para os dois artistas, em papéis que enganam as expectativas dos espectadores. Ao mudar completamente os valores da trama, nos famigerados plot twists, o artifício usado, porém, é o mesmo, parando o enredo para explicar o que aconteceu. É um uso tão gratuito quanto expositivo, parando o ritmo da narrativa para desenvolver algo que já estava possibilitado pelas pistas deixadas. Sheperd, em razão disso, subestima bastante o seu público. O que a obra propõe às motivações dos personagens é interessante, coerente, mas a execução é problemática. O cabelo de uma das garotas, por exemplo, é usado em uma reviravolta menor, no terço conclusivo, como se realmente tivesse alguma importância, e quiçá imprescindível.

Em contrapartida, o começo do longa-metragem é mais puro dessas pretensões, as quais não se resolvem em execução. O erotismo é usado bem para manipular as percepções do espectador, assim como a música e a montagem. Quando apresenta Charlotte, sugere-se nas primeiras cenas uma personagem perturbada, enigmática, mas sem escrachar as motivações. Williams permanece serena, paciente, mesmo que pontuais cenas nos levem a pensar outras coisas. Com as suas primeiras aparições, nasce uma personagem que é misteriosa, originando um ar de desconfiança. Quando Charlotte abraça o personagem de Steven Weber, seu professor na escola de música, por exemplo, podemos perceber cicatrizes no seu pulso. Sheperd consegue movimentar bem essa mescla entre uma calmaria e a noção de que algo está errado. Ao pegar uma faca, por exemplo, o abrupto inquieta. A trilha-sonora complementa essa construção de tensão ainda mascarada, que se transforma em uma estimulante tensão sexual. Pena que The Perfection não conquiste a perfeição.

The Perfection – Canadá, 2019
Direção: Richard Sheperd
Roteiro: Eric C. Charmelo, Richard Sheperd, Nicole Snyder
Elenco: Allison Williams, Logan Browning, Steven Weber, Alaina Huffman, Glynis Davies, Molly Grace, Milah Thompson, Christina Jastrzembska, Mark Kandborg, Winnie Hung
Duração: 90 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.