Crítica | O Jardim dos Prazeres

Antes de se tornar o Mestre do Suspense, Alfred Hitchcock engatinhou por alguns crimes menores e dramas de baixa tensão, no início de sua carreira. A estreia oficial do cineasta aconteceu no ano de 1925, com The Pleasure Garden, mas ele já trabalhava há algum tempo como assistente de direção, tendo sido apresentado ao mundo da sétima arte em 1921, ocupando papéis diferentes como desenhista de intertítulos, diretor de arte e editor. Foi também nesse período que ele conheceu sua futura esposa, Alma Reville.

Em 1922, Hitchcock iniciou a produção daquele que seria o seu primeiro filme (Nº 13), mas abandonou-a no ano seguinte porque aceitou o cargo de assistente de direção do cineasta Graham Cutts, um popular diretor da época em quem Hitchcock viu a oportunidade de aprender e talvez conseguir melhor oportunidade do que a que recebera para dirigir Nº 13. Nesse mesmo ano, ele teve a oportunidade de terminar as filmagens do curta Always Tell Your Wife para o diretor Hugh Croise, trabalho pelo qual não recebeu os créditos.

Em 1924 surgiu a Gainsborough Pictures, no lugar da The Select Organization, uma produtora que de imediato assinou contrato com a famosa UFA (Alemanha) e levou o diretor Graham Cutts e sua equipe para Berlim. O filme que então se produzia era The Blackguard, uma parceria britânico-germânica cujas filmagens seriam muito importantes para um dos membros da equipe de Cutts, o seu assistente de direção Alfred Hitchcock, que durante a viagem acabou conhecendo e conversando com F.W. Murnau (à época, filmando A Última Gargalhada). Hitchcock possivelmente deve ter trombado com Fritz Lang pelo Estúdio, pois era no mesmo núcleo em que o diretor alemão filmava uma das cenas de Os Nibelungos, filme do qual Hitchock acabou aproveitando os cenários para organizar a filmagem de uma cena em The Blackguard.

Foi durante essas filmagens que o Executivo da Gainsborough Pictures fez uma proposta para Hitchcock dirigir dois filmes de produção britânico-germânica pelos estúdios MLK, na Bavária. Ambas as obras foram filmadas em 1925, mas não tiveram lançamento comercial no mesmo ano. The Mountain Eagle (filme hoje perdido, infelizmente) estreou em 1926, e o presente The Pleasure Garden fez a sua estreia em Munique, em 3 de novembro de 1925.

O Jardim dos Prazeres foi uma espécie de batismo de fogo para Hitchcock. O filme teve como locações os estúdios da MLK e associados, além de externas na cidade de Munique e a sequência da Lua-de-mel na comuna de Alassio (província de Savona), na Itália. Nem é preciso dizer que o diretor teve problemas com orçamento, o que explica alguns momentos bem estranhos de continuidade e ambientação de cenários no filme. Mas não há muito o que florear: a inexperiência de Hitchcock atrás das câmeras e um roteiro que não ajudava muito fizeram deste longa-metragem (que é uma adaptação do romance de Oliver Sandys) um melodrama um tanto ousado no toque libidinoso, mas de baixa qualidade geral.

O filme mostra a relação de duas garotas com seus respectivos amores, mas acompanha o rumo que a vida de cada uma delas toma a partir de um certo momento, criando interessantes concepções femininas de mundo. Essa característica do texto, todavia, é imediatamente soterrada por opções narrativas e estéticas tremendamente questionáveis, a começar pela aparência física (não disfarçada pela maquiagem) das atrizes Virginia Valli (Patsy) e Carmelita Geraghty (Jill). Chega um momento do filme em que o espectador não consegue diferenciar quem é quem! No momento em que Hugh, o noivo de Jill entrou em cena, eu tive que voltar alguns minutos para poder ver novamente a entrada dos personagens e gravar algumas de suas características a partir da parca quantidade de informações dos diálogos nos intertítulos.

A obra traz ainda alguns defeitos próprios do cinema mudo, como o congelamento dos atores por alguns segundos nas cenas dramáticas, ou mesmo a interpretação afetada em momentos de grande dor ou forte expressão sentimental. O único que se livra disso é o ótimo Miles Mander, que interpreta Levett, o vilão do filme. Sua atitude enlouquecida após a doença contraída no além-mar é incrível; uma pena que o roteiro tenha lhe dado um final patético, assim como deu à ligação amorosa de Patsy com o ex-noivo de Jill.

Em termos técnicos, podemos até selecionar alguns pontos que já delineavam as opções de imagem ou entretenimento desenvolvidos no futuro por Hitchcock (o toque indiscreto obtido através da montagem, no início do filme, é o principal deles), mas pouco sobra além disso. Um elemento aqui presente e que realmente vale a citação é o uso de sobreposição da imagem de uma nativa morta por Levett reaparecendo como um fantasma. Embora destoe do núcleo geral do filme, essa opção mostra a coragem que o diretor tinha para fazer experimentações, algo que seria uma pedra angular de sua carreira.

Antes de finalizar, gostaria de destacar as ótimas cenas feitas com os inquilinos de Patsy, o Sr. e a Sra. Sidey, além, é claro, da presença do cão da garota, o divertido Cuddles. Esse é o único núcleo do filme que não possui problemas, não só porque encabeçam o ponto cômico da obra, mas porque, em meio ao mínimo desenvolvimento psicológico das outras personagens, se apresentam na medida certa, com características bem dosadas pelo texto de Eliot Stannard e bem filmadas por Hitchcock.

The Pleasure Garden é um filme ruim, mas não uma bomba imprestável. Falta à película a dose certa entre o entretenimento e a qualidade da história que se está narrando. Definitivamente não parece o primeiro longa de um gênio, mas é um filme que definitivamente vale a pena assistir a fim de se comprovar os primeiros passos nada firmes de um futuro Mestre do cinema.

  • Crítica originalmente publicada em 5 de outubro de 2013. Revisada para republicação em 13/08/19, em comemoração aos 120 anos de nascimento do Mestre do Suspense e início de uma versão definitiva do Especial do diretor aqui no Plano Crítico.

The Pleasure Garden – UK, Alemanha, 1925
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Eliot Stannard, baseado no romance de Oliver Sandys
Elenco: Virginia Valli, Carmelita Geraghty, Miles Mander, John Stuart, Ferdinand Martini, Florence Helminger, George H. Schnell, Karl Falkenberg, Lewis Brody
Duração: 75 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.