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Crítica | “The Rabbit That Hunts Tigers” – YĪN YĪN

por Davi Lima
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rabbit

Dentro da linha de produção musical instrumental, na qual se trata de maneira focada nas formas de concretizar e delinear sujeitos, representações e referências  visuais mentais nos ouvintes, a banda YĪN YĪN busca as interfaces entre gêneros musicais, culturas ocidentais e orientais e entre sons sintetizados e naturais. Essa pesquisa melódica, que se inspira no funk, boogie e disco, com o auge na década de 80, parte da banda holandesa em conspiração tailandesa contra visões eurocêntricas, tentando vocalizar um ambiente sonoro que soa estereotipicamente oriental num futurismo anacrônico. Nessa incompreensão temporal, e muito mais espacial, é que o EP The Rabbit That Hunts Tigers se caracteriza facilmente como uma produção musical psico-pop, por ter uma aura psicodélica espontaneamente compartilhada de múltiplas referências, mas que estranhamente se agrega ao dito orientalismo.

O quesito estranho tem como prova o universalismo que se intenta alcançar pelo foco nas concretizações mentais do instrumental underground. Por um lado a faixa The Sacred Valley of Cusco indica o espaço peruano, por outro a sonoridade diferenciada pela mimetização da conexão do ser humano com a natureza se reafirma em A Ballad for Chong Wang, numa clássica referência percussiva e caracteristicamente chinesa. Ou seja, fugindo da linearidade da ordem das faixas do EP, ainda que compreendendo sua mínima relevância na organização de uma escuta progressiva, a banda holandesa assume um papel da transição alucinógena, como se pudesse ser a ponte de transição para um outro universo diante de um pretenso universalismo de referências associativas que se pode imaginar, tendo até avatares improvisados que surgem nos começos ou nos finais das faixas de maneiras mais evidentes.

Em uma das melhores músicas, Pingpxng é factível na idealização da banda, não à toa a primeira liberada antes do resto do EP. Ela contém um cavalgar de um cavalo, que se concretiza num relincho, além de pequenas introduções de explosões mixadas daqueles faroestes mais clássicos em meio ao tiroteio. Mas em essência, pensando na sonoridade mais crua, é um belo clássico tailandês acelerado, abdicando de uma espécie de banjo com quatro cordas por uma guitarra dupla, ou seja lá o que o criativo guitarrista Yves Lennertz pode tocar. Essa é a representação delimitada, em que se pode fazer associações interpretativas, mas se forja uma mistura, especialmente com a ajuda do baterista Kees Berkers que torna rítmico as alternâncias dentro de um mesmo universo estranho.

No entanto, esse universalismo pende para algo temporalmente e espacialmente contemplado por um Japão oriental, o que faz uma das grandes faixas chamada Thom Kï Kï , mas responde a pretensa mistura e ponte psicodélica de The Rabbit That Hunts Tigers, indicando fragilidades de encaixe após o término da música.  Para se chegar nesse Japão, One Inch Punch, com mais batidas, incrementa mais eletrônico e vozes futuristas em meio a um solo de guitarra repetitivo, em que as variações são sintéticas, sentidas exatamente pelo efeito da repetição. Ao contrário, a faixa seguinte chamada “Lotus”, que engaja um realismo de vozes naturais de um ambiente com muitas pessoas, rebaixa a mixagem mais tecnológica e faz a guitarra, o baixo, e todo o instrumental ligado a fios parecerem ecoarem sonoridades singelas sem tecnologia. E é nessa sequência que a contextualização, numa ouvida linear das músicas do EP, parece pronta para Thom Kï Kï, algo mais próximo da nomeação da banda em Yin Yin, sem o equilíbrio do Yang. O som tecnológico que vai esclarecendo em 1 minuto para batidas constantes e sintetizadores, até mais 1 minuto depois formar uma mistura com um groove intenso como separação, uma quebra musical. Em meio a isso, inserções de uma moda rural vai dando o tom da luta interna da música, até se finalizar com batidas no mesmo ritmo de um sintetizador. Essa descrição parece realmente um duelo japonês medieval em um universo à parte, que se teletransporta com o interlúdio da pequena faixa On Yiep. Em quatro músicas em sequência o psicodélico se posta como evolução transcendental. 

Apesar desse crescimento na mistura de representações e interfaces, em vista que o boogie, o funk e o espírito japonês desencaixados para criar harmonia é o tal foco em delinear concretizações mentais como efeito de um instrumental underground como The Rabbit That Hunts Tigers; a ida para representações peruanas, como em Mountain Alpaca, ou na evidência psicodélica da hiper sintetização tecnológica em Kroy Wen, vão repartindo interfaces, em que são faixas muito unitárias dentro de um escopo desencaixado propositalmente para formar uma psicodelia de referências. Compreendendo isso, a fragilidade do encaixe vai aparecendo como estilo de referência única, como em Sui Yè ou Dis kô Dis Kô, em que os desencaixes já são didatizados, perdendo a psicodelia que tange exatamente o estranhamento, a referenciação incapaz de se compreender plenamente. É como se o alucinógeno dos holandeses acabasse, perdendo a inspiração transcendente, mas mantendo a qualidade técnica.

Porque, afinal, quando se pensa na abertura do EP The Rabbit That Hunts Tigers, como uma introdução de desconstrução, em que os sons rurais, com pássaros ritmados no acompanhar de uma guitarra leve, são desarticulados por um toca fita, como uma demarcação temporal e de estranhamento posterior, a pretensão da música título parece ser mais harmônica, mesmo perdendo a magia. É um show de percussão, tambores, com pelo menos três ritmos dentro da faixa, exaltando a técnica e deslocando a psicodelia para o final, com vozes e aceleração, num molejo frenético. Assim, a universalização quebra para um lado e a concretização instrumental, que chegava na construção de avatares simbólicos e espirituais entre espaços de planos inimagináveis, se rende a técnica aprimorada que um bom instrumental deve ter.

Aumenta!: Pingpxng
Diminui!: –
Minha Canção Favorita do Álbum: Thom Kï Kï

The Rabbit That Hunts Tigers
Artista: YĪN YĪN
País: Holanda
Lançamento: 18 de Outubro de 2019
Gravadora: Bong Joe
Estilo: Funk

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