Crítica | The Rain – 1ª Temporada

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Primeira série dinamarquesa original da Netflix, The Rain se passa em um futuro não muito distante, onde uma misteriosa chuva causou a morte de centenas de milhares de pessoas. Inicialmente não temos uma noção exata da catástrofe, nem se ela foi local ou ocorreu no mundo inteiro. Não temos absolutamente nenhum detalhe sobre o que causou essa chuva (isso só virá bem tarde, na temporada) e nem do alcance de contaminação que ela tem. Assim, mergulhados em mistérios e após cinco minutos de “normalidade” do Piloto, entramos nesse thriller pós-apocalíptico, do qual se destacarão Simone (Alba August) e seu irmão Rasmus (Lucas Lynggaard Tønnesen), uma saga para encontrar o pai e a cura para uma praga de grandes proporções.

O que o espectador precisa saber desde o início é que a dramaturgia e a direção do piloto da série oferecerão um desafio imenso à paciência. Mas no começo, tudo parece bem. O roteiro do primeiro episódio começa nos empurrando para o mistério e tomando um caminho muito interessante na criação do mundo apocalíptico. Explicações pormenorizadas podem fazer falta à medida que o episódio avança, mas não a ponto de nos desconectar do enredo por isso. O problema é que existe um temporal de estupidez acompanhando a chuva (hehehe), com ações irritantes por parte de Simone e Rasmus, que ainda é uma criança. Essas atitudes voltarão para Rasmus no penúltimo e um pouco no último episódio, mas aqui, no início, é demasiadamente insuportável. Cada tragédia, cada impasse para se chegar ao bunker onde estariam protegidos da chuva, cada ação para se conectar e aceitar aquela situação vai fervendo a nossa bile de uma forma como poucas séries conseguem fazer. Só do meio do episódio para frente, quando é apresentado um bom lapso temporal, é que as coisas começam a funcionar.

Não há muita diferença do drama pós-apocalíptico apresentado em The Rain com o mesmo tipo de história que vimos em outras séries e filmes do gênero. O diferencial aqui é a mistura de trama fraterna com busca de explicações para o que aconteceu ao mundo. A partir do segundo episódio, Stay Together, começamos a nos conectar aos personagens, relação beneficiada pelos flashbacks, que trazem informações sobre um pedaço da história pregressa de cada um. Infelizmente, os criadores não equilibraram o nível de exposição de cada um, então chega um ponto em que sabemos coisas demais de um ou outro personagem, mas não temos sequer as informações básicas e necessárias (para localização desses indivíduos no grupo) de outra parte, o que não seria um problema se o roteiro explorasse o mistério em torno disso, mas não é essa a intenção da série, logo, surge o problema. O drama da “chuva contaminada“, a missão de “fugir da chuva e caçar comida” e a constante luta para não encontrar os agentes do governo — que pegam sobreviventes para algo que só descobrimos na reta final — formará a linha central dessa temporada, acrescida dos mistérios familiares dos irmãos protagonistas.

Analisando pelo simples aspecto de profundidade narrativa, vemos que os roteiros de The Rain mantêm-se mais ou menos confortáveis em um ciclo de fuga e encontros, misturando nuances textuais que já vimos em The Walking Dead e Utopia, com uma certa conspiração Corporativa ou Estatal. O único momento onde essa variação acontece tem inspiração no macabro e genial conto A Especialidade da Casa, de Stanley Ellin (e em uma porção de obras que exploram essa relação entre viajantes amedrontados e habitantes de um lugar onde todos parecem muito felizes e gentis), mas esse bloco da história dá a impressão de ser parte de algo completamente diferente. Aliás, a forma como o roteiro tropeça nesse bloco do casarão configura o ponto final de uma sequência de pequenos erros. No todo, não somos muito afetados por eles porque o elenco é simpático a maior parte do tempo e existe uma boa relação entre eles, além da busca por sobrevivência, que mesmo fazendo parte de um ciclo, a longo prazo, chateante, funciona bem de maneira pontual. Naquele momento, todavia, o texto emperra. Cria-se um mistério que morre ali mesmo e não tem absolutamente NENHUMA relação com o que vem depois. Ou seja, um episódio perdido, luxo que o show não poderia se dar, considerando que é uma temporada de apenas 8 episódios.

A direção de fotografia aqui é assinada por dois profissionais, Rasmus Heise (I Kill Giants) e Jesper Tøffner (A Comunidade), que criam um padrão difuso de ambientação, com pouco contraste e destaque para filtros azuis e verdes, excetuando-se o episódio da casa macabra ou dos bunkers, onde existem os mais variados modelos de direção e iluminação da série. Os diretores Kenneth Kainz (A Herdeira) e Natasha Arthy (Comeback) também fazem um trabalho interessante ao acompanhar o grupo por florestas, estradas desertas e cidades destruídas. O padrão de The Rain é de filmagens em externas, então uma direção competente para esse tipo de necessidade é importante. Ainda bem que temos isso aqui. É pela mão dos diretores que temos suavizados muitos dos erros do roteiro, e só lamentamos o fato de não terem a mesma competência para a direção de cenas emotivas, que carregam uma forte canastrice, especialmente se temos alguém do elenco chorando em desespero (leia-se: Rasumus mimado, no final). Em outra camada, a indicação de personalidade através dos figurinos (e os personagens aqui são realmente bem diferentes entre si) mais a trilha sonora flertando com o terror, ajudam a compor o Universo de medo e desesperança que aqui temos, marcado por distintos pontos de vista e ação diante do perigo.

O Finale da temporada, Trust Your Instincts, traz uma reviravolta tardia e sem amparo, considerando o que tivemos no decorrer dos episódios. Alguns retornos, algumas perguntas e, principalmente, algumas respostas poderiam ter um impacto ainda maior se tivessem conexão clara e bem trabalhada nos roteiros anteriormente (o caso da cápsula com reação alérgica é um claro exemplo do que poderia funcionar a longo prazo). O resultado final, porém, é empolgante. Mesmo com uma resolução que nos leva (de novo!) para o mesmo ambiente de fuga, temos agora mais informações e um perigo aparentemente maior para o grupo de fugitivos. Agora que perdões foram dados e os laços entre o grupo foram fortalecidos, algo precisa acontecer para que a trama ganhe novo vigor. O mistério sobre o que contamina ou não, sobre a chuva ainda ter ou não o vírus e sobre Rasmus trazer ou não coisas importantes para a Corporação Apollon (a incoerência de sua posição final, com máscara, depois de passar a temporada inteira sem máscara, é irritante para além da conta, vale dizer) figuram entre os bons ganchos narrativos ao final deste primeiro ano. A jornada continua. Enquanto isso, alimentem-se. E mantenham-se secos. Nunca se sabe.

The Rain – 1ª Temporada (Dinamarca, EUA, 4 de maio de 2018)
Criadores: Jannik Tai Mosholt, Christian Potalivo, Esben Toft Jacobsen
Direção: Kenneth Kainz, Natasha Arthy
Roteiro: Jannik Tai Mosholt, Marie Østerbye, Lasse Kyed Rasmussen, Poul Berg, Mette Heeno}
Elenco: Alba August, Lucas Lynggaard Tønnesen, Mikkel Boe Følsgaard, Lukas Løkken, Jessica Dinnage, Sonny Lindberg, Angela Bundalovic, Lars Simonsen, Iben Hjejle, Johannes Kuhnke, Rashid Aitouganov, Inge Lise Goltermann, Anders Heinrichsen, Thea Glindorf, Adam Habib Buratowski, Bertil De Lorenzi
Duração: 50 a 45 min. (cada episódio)

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.