Crítica | The Rain – 2ª Temporada

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Eu adoraria fazê-la esquecer de tudo se pudesse.

Qualquer bom apreciador de universos pós-apocalípticos ao ver a premissa de The Rain logo pensa em algo muito proveitoso: Uma infecção viral mortal transmitida pela água da chuva. São inúmeras possibilidades a se explorar a partir disso, numa concepção geral de sobrevivência ou em algo mais específico de estudo de personagens diante da situação. Contudo, The Rain escolheu o caminho mais irrelevante possível ao misturá-lo com uma história genérica de universo distópico adolescente tipicamente hollywoodiano. 

Se a série dinamarquesa tinha algum resquício de criatividade ao explorar as consequências desse universo, isso já tinha morrido na temporada anterior, onde a água deixou de ser uma ameaça que nunca foi na verdade, assim a nova temporada já começa na conspiração governamental piegas, com engravatados e militares atrás de uma cura nas mãos do irmão “predestinado” da protagonista. Ao menos, o início, e a própria estrutura de 6 episódios, mostrava que seria uma temporada assumidamente mais enxuta (literalmente), já que a primeira parte, se tirasse todas as inutilidades de romances mal elaborados e flashbacks preguiçosos, não daria nem 3 episódios tamanha a enrolação dos capítulos de apenas 35 minutos. 

Esta ao menos é mais objetiva aonde quer chegar, por pior que seja esse destino, a tentativa de tensão é mais nítida, consequentemente a tornando menos enfadonha. Entretanto, isso não quer dizer que os estímulos sejam bem articulados, pelo contrário, o episódio inicial estabelece um novo grupo de personagens somente por conveniência da única reviravolta possivelmente interessante da série, mas que é tratada sem peso nenhum e ainda abre portas para uma galhofa involuntária com o personagem de Rasmus, que passa a ser um “escolhido” além da cura. 

É difícil mencionar sem spoilers, mas ele se torna uma mistura de Hulk, Venom e Superman, para cada vertente lembrada no arco do personagem é uma cena mais constrangedora que a outra, seguindo a incompetência do roteiro na execução das convenções mais simples possíveis do gênero, além de uma regressiva técnica pela dependência maior em efeitos visuais sem textura alguma. 

A regressiva atinge outros pontos que tinham seus méritos no ano anterior, tal como a fotografia e a trilha sonora que serviam de uma maquiagem chamativa, não surgem com o mesmo efeito por não serem valorizadas devidamente, a edição não compensa o ritmo mais hábil por ser visualmente confusa ao ser misturada pela escolha de enquadramentos, problemática recorrente da péssima elaboração no mise-en-scène, sem a menor noção de verossimilhança geográfica, é digno de novela amadora. 

A falta de química do grupo fala por si só, recheado de atores inexpressivos deixando os personagens ainda mais enfadonhos. Eles só sobrevivem às situações por meio de facilitações narrativas, e individualmente são meras peças para conveniências de conflitos facilmente resolvíveis. Não há desenvolvimento além de arcos dramáticos extremamente manipuladores, que ao menos antes continham flashbacks didáticos em situar cada um em seu arquétipo, e render informações importantes sobre a origem apocalíptica, mantendo a curiosidade do espectador em certo nível ao adotar uma estrutura Lost, mais expositiva,  algo abandonado em boa parte dessa temporada, e quando aparece até rende cenas interessantes, mas nem um pouco aproveitadas. 

Então, é até difícil defender a escolha da proposta mais urgente, porque não tem efeito, só deixa a série ainda mais perdida e praticamente sem pretexto criativo de existência, sendo talvez a pior da Netflix ao querer sugar o máximo de seu público. O gancho ao final é covarde nesse sentido, mirabolante ao extremo e pretexto para uma conclusão que pode ir a todos os caminhos, porque sim. Conseguindo ser ainda pior que o ano de origem, a 2ª Temporada de The Rain foge de qualquer lógica minimamente interessante de universos pós-apocalípticos.

The Rain – 2ª Temporada (Dinamarca, EUA, 17 de maio de 2019)
Direção: Søren Balle, Kasper Gaardsøe, Josefine Kirkeskov
Roteiro: Jannik Tai Mosholt, Christian Potalivo, Esben Toft Jacobsen, Rune Schjøtt, Julie Budtz Sørensen, Simon Oded Weil
Elenco: Alba August, Lucas Lynggaard Tønnesen, Mikkel Boe Følsgaard, Lukas Løkken, Jessica Dinnage, Sonny Lindberg, Natalie Madueño, Clara Rosager, Evin Ahmad, Johannes Kuhnke, Lars Simonsen, Nikolaj Groth, Nicklas Søderberg Lundstrøm, Magdalena Eshaya
Duração: 45 min. em média por episódio. 6 episódios.

IANN JELIEL . . . Um aspirante a engenheiro da computação que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.