Crítica | The Resident – 2ª Temporada

Quando lançada a primeira temporada do drama The Resident, o processo de análise repleto de aproximações e distanciamentos com a série Grey’s Anatomy foi inevitável. Apesar de reconhecer o valor de cada produção, atravessava a longa maratona do drama médico criado por Shonda Rhimes. No período, amargava a travessia entre a 12ª e a 13ª temporadas, momentos que arrisco apontar como os mais frágeis e decadentes de Meredith Grey e seus colegas de profissão. Os residentes do Chanstain Hospital envolviam-se em tramas amorosas? Sim, mas também estavam focados em sobreviver em meio aos temas comuns das séries médicas, interligados a uma ácida e forte crítica social ao excludente modelo de saúde estadunidense, além de potencializar questões sobre corrupção, abuso de poder e desvio de função profissional, dentre outras celeumas comuns ao cotidiano de qualquer ser humano que atua normalmente numa vida em sociedade.

Assim, The Resident ganhou as atenções do público e da crítica, principalmente por apostar num modelo que insisto constantemente em minhas reflexões escritas e aulas de escrita criativa (argumento e roteiro). Evitar alongar as séries para modelos acima de 15 episódios. Quanto mais elástica a temporada, mais chances de se perder e ficar tediosa. Há um esquema econômico que parece fazer funcionar a estratégia, mas em termos dramáticos e estéticos, compromete o material em seu “todo”, tornando algo que deveria ser mais impactante e memorável num festival de tramas que se esticam e precisam preencher lacunas constantemente. Foi um pouco do que ocorreu com a segunda temporada desta série que em seu primeiro ano, mergulhou o dedo na ferida sistêmica da saúde estadunidense que pode ser alegórica para pensar todo o planeta, mas que em seu segundo ano, recuou levemente e preferiu manter o foco no lado humano de seus personagens.

Não deixa, portanto, de ser interessante, acompanhar o amadurecimento do núcleo principal de personagens, todos com os seus perfis sociais e psicológicos adensados pelos roteiros oriundos da equipe de Amy Holden Jones, Hayley Schore e Rishan Sethi, dramaturgos dos criadores da série, também coautores de alguns episódios. Dirigidos por Rob Corn, David Crabtree, Jann Turner, Paul McCrane e Bronwen Hughes, os 22 “momentos” da segunda temporada mantém o padrão do ano anterior. Ações em maior parte dentro do centro hospitalar, alguns dramas e escapadas externas, personagens em conflito de opiniões e na busca incessante por salvar vidas alheias, estratégia que se observada de maneira terapêutica, pode indicar que são pessoas interessadas em resgatar no outro aquilo que falta em suas próprias existências.

Conrad Hawkins (Matt Czuchry) continua assumindo o posto central da trama. Ele é quem dá as ordens em muitos atendimentos do hospital. Menos arrogante e mais humanizado, diferente da temporada anterior, período onde seu machismo disputava odor com o cheiro de prepotência, o médico agora vive mais tranquilamente em sua dinâmica hospitalar, apesar de ainda ter que lutar contra algumas burocracias e enfrentar as crises no relacionamento com Nick. Hawkins ainda precisa lidar com a presença de seu pai, um homem dominador e poderoso, constantemente envolvido com questões administrativas do hospital, principalmente no que diz respeito ao investimento de capital e divisão na mesa de sócios. Engraçado observar a semelhança com outra série médica, Chicago Med, produção que abordou algo muito parecido.

Seu parceiro de trabalho, Devon Pravesh (Manish Dayal), também atravessa questões semelhantes. Depois de tudo pronto para casar, em plena prévia do laço religioso, com todos os convidados do lado de fora, o personagem adere ao velho clichê da crise perante o matrimônio e larga tudo de lado para seguir outro rumo. Envolvido emocionalmente com uma personagem passageira na trama, Pravesh encontra o caos em sua vida sentimental durante a segunda temporada. Quem também merece destaque é Irving Feldman (Tasso Feldman), o carismático e discreto coadjuvante que possui função dramática essencial em muitos trechos, pois é a escada para ações e diálogos importantes dos protagonistas.

Nick (Emily Van Camp) está de volta ao hospital depois das ciladas na investigação contra Dra. Hunter. Atuante e bem em seu relacionamento, encontrará distração com a chegada do Dr. Alex (Milles Gaston Villanueve). Sua vida amorosa com Conrad continua intensa, mas ele a pressiona pelo casamento. Ela ainda não se sente preparada. O conflito de interesses causa desconforto para ambos, o que pode ocasionar futuramente a separação do casal. Profissionalmente, ela continua atuante e intensa no hospital, agindo especificamente em sua área, mas sendo vivaz em outros segmentos, inclusive nas opiniões em diagnósticos. O reencontro indesejado com seu pai e a luta constante pela manutenção da vida de sua irmã, viciada que atualmente se encontra em hemodiálise e aguardando transplante de rim é parte da sua linha dramática na segunda temporada.

A Dra. Mina Okafor (Shaunette Reneé Wilson) vive dois problemas. A visita de sua mãe, uma bem-sucedida, mas arrogante e prepotente médica nigeriana reconhecida mundialmente. Sua chega ao hospital para uma parceria faz a personagem reviver lembranças desagradáveis e indesejadas. Ciente da sua competência enquanto cirurgiã e focada na ascensão de sua carreira, a personagem também deseja viver um relacionamento que não seja distração, mas que faça parte de um dos setores de sua vida. O namoro da temporada anterior evolui, mas a solicitação de casamento não é levada em consideração. Assustada com a possibilidade, ela acaba por distanciar o interesse amoroso, mergulhando ainda mais no trabalho para esquecer o fracasso de seu investimento numa relação sentimental.

Dr. Bell (Bruce Greenwood), o antagonista da primeira temporada começa na lama da vida nesta temporada. Preso ao ser pego em via pública com uma prostituta, o médico possui extensa evolução em seu arco dramático e continua bastante humanizado, pois mesmo que tenha se tornado mais próximo de sua equipe e pensado em suas posturas depois dos acontecimentos nefastos com a Dra. Hunter, seu foco central é a manutenção financeira, o que pede bajulação dos investidores e decisões que nem sempre são adequadas para quem vive na utopia do puro altruísmo no universo dos profissionais de saúde, algo já problematizado na reflexão da segunda de The Good Doctor.

Dra. Lane Hunter (Melina Kanakaredes) era um dos grandes problemas, mas depois da sua saída da cadeia logo nos primeiros episódios, seguida de sua morte trágica, novos desafios se apresentam para os chefes, residentes e enfermeiros do Chanstain Hospital. A chegada da QUOVADIS, uma empresa poderosa, fornecedora de serviços hospitalares imbuídos de tecnologia avançada e tratamentos experimentais atualizados, mas que podem por em risco a vida dos pacientes e a autoridade dos profissionais que atuam na linha de frente dos atendimentos é o centro nervoso dos problemas que se desenvolvem junto demais subtramas que felizmente, estão todas bem amarradas ao ponto nevrálgico da segunda temporada.

No que tange aos pontos de conexão realista, podemos apontar o episódio da mulher grávida que passou por problemas devido ao atendimento propositalmente ineficaz por ser afroamericana. O leitor pode indagar que a questão não acaba nunca e que todas as séries médicas mais populares já abordaram, o que tornaria a discussão obsoleta, mas quem dera que isso fosse realmente assim, um delírio ficcional. Não é. Estamos mergulhados numa profunda era de estupidez no que diz respeito às questões raciais. It Not Now, Then? Eis o título do episódio em questão. Tema constante, a questão racial ainda me surpreende, pois quando desconfio que uma incursão narrativa talvez seja absurda demais, descubro que é adaptação de um episódio ocorrido na vida real.

Lia, personagem negligenciada pela equipe que assume o seu parto, morre por conta de complicações pós-operatórias. Para a elaboração do episódio, os roteiristas utilizam e creditam no final da exibição, os dados do Centro de Controle Prevenção de Doenças, informações que afirmam a seguinte aberração: há 243% de chances de uma mulher negra morrer no parto. Por curiosidade, no Brasil, os dados da segregação apontam que 54,5% das mortes em parto ocorrem com mulheres negras. O motivo? Não é preciso escancarar mais, não é mesmo? Outro momento interessante foi o desespero da enfermeira Nick na busca por ajudar a sua irmã doente. A discussão da vez foi a compra de órgãos humanos num mercado obscuro, algo que move dinheiro, desespero dos necessitados e lucro por parte dos agenciadores, tema debatido de maneira orgânica ao longo dos episódios que apostaram na abordagem como conflito para rechear a narrativa.

Na seara da construção audiovisual das narrativas, The Resident contou mais uma vez com um grupo de profissionais competentes. Grande parte das cenas são registradas no interior do hospital, imagens captadas pela direção de fotografia de Hilda Mercado e John Brawley, dupla que se dividiu para acompanhar, enquadrar e iluminar os personagens que circulam pelos ambientes adornados por Paul Peters, responsável pelo design de produção, setor que possui trabalho eficiente, em especial, a cenografia de Dena Allen. O verde e o branco são os tons que dominam tais setores, pigmentações conduzidas musicalmente por Jason Derlatka e John Ehrlic.

Renovada para mais um ano, a série deve nos reservar novos antagonistas e emoções, mas também tomar cuidado para não ser apenas mais um entretenimento ligeiro da televisão. Mesmo que seja parte integrante de um setor da indústria, isto é, as séries médicas, The Resident não precisa manter-se na camisa de força. É preciso ousar nos temas e na forma, tal como a primeira temporada, melhor delineada no que concerne aos conflitos e intrigas, acompanhados por críticas sociais necessárias e contundentes, sem perder o que faz tais produtos magnetizarem com o público: os romances, as disputas de poder e outras distrações do ambiente hospitalar que nos permitem socializar com os personagens e enxerga-los como seres humanos realistas, repletos de emoções e contradições, tal como nós, espectadores.

The Resident (idem, Estados Unidos/2018-2019).
Criação: Amy Holden Jones, Roshan Sethi, Hayley Schore
Direção: Phillip Noyce, Rob Corn, Bill D’Elia, James Roday, David Rodriguez, Thomas Carter, Bronwen Hughes, David Crabtree, Liz Allen
Roteiro: Amy Holden Jones, Roshan Sethi, Hayley Schore
Elenco: Manish Dayal, Emily VanCamp, Matt Czuchry Bruce Greenwood, Melina Kanakaredes, Tasso Feldman, Shaunette Reneé
Duração: 45 min (cada episódio – 22 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.