Crítica | The Resident – 3ª Temporada

A terceira temporada de The Resident é tão antenada com a realidade e sua atualidade que, nos últimos episódios, já tinha feito correlações com a pandemia da covid 19, antes mesmo do cenário social pausar o ritmo das produções seriadas televisivas. Constantemente voltada ao processo de exposição do descompasso entre os avanços tecnológicos e a desumanização na medicina, a série chega ao seu terceiro ano com ritmo semelhante aos anteriores, mas com histórias que se repetem demais e demonstram que a série precisa buscar algo diferencial dentro de um panorama de exacerbada oferta de dramas médicos semelhantes. Desta vez, há um paciente que acredita ser vampiro e uma vítima da masculinidade opressora do companheiro. Médicos disputam pacientes em vez de dinheiro e objetos materiais em mesas de pôquer. A necessidade de publicidade para o hospital ganhar mais recursos do capital é alvo dos interesses de doadores e acionistas. A mercantilização da medicina e os impactos da selvageria capitalista contemporânea são os temas principais dos episódios de 2019-2020. Num panorama onde a tecnologia vira os seres humanos do avesso e os deixam praticamente transparentes para cirurgias, a relação afetuosa do médico-paciente se esvazia diante das dispersões e da falsa sensação destes profissionais, indivíduos que acreditam que são deuses perante a desesperadora enfermidade alheia.

Os conflitos dos personagens em torno dos acontecimentos diários em suas vidas profissionais e pessoais ainda magnetizam, afinal, a equipe em questão é carismática, mas a aderência neste terceiro ano foi menos prazerosa que as experiências anteriores. Isso por causa de algo tácito e já óbvio: por mais que os criadores Amy Holden Jones, Hayley Schore e Rishan Sethi, também coautores de alguns episódios, injetem alguma novidade entre um ponto e outro, a sensação que temos é a de mais do mesmo. Aquele clima de “isso de novo?”, seguido de “ah, não, acho que foi nas outras séries muito iguais”. Com a maioria dos episódios dirigidos por Jann Turner, Edward Ornelas e Satya Bhabha, os 20 “momentos” da terceira temporada mantém a padronização estética dos anos anteriores, mais uma vez, com situações em maior parte, dentro do Chastain, com situações dramáticas externas, mas todas voltadas para o centro nervoso da série, o hospital em questão, para onde não só as pessoas doentes se deslocam, mas também os próprios funcionários que aderem aos estereótipos das séries médicas e não possuem outra vida ou interesses a não ser o exercício da enfermagem e do atendimento clínico/cirúrgico.

Eis um ponto que todas as séries médicas precisam refletir para tentar, talvez, mudar um pouco o panorama de obviedades e saturação temática. São questões, no entanto, paradoxais, pois é possível que parte do público se desinteresse pela mudança brusca das situações novelescas de dentro para fora do eixo hospitalar. Dito isto, vamos aos personagens, suas necessidades dramáticas, conflitos e evoluções. Conrad Hawkins (Matt Czuchry) continua inconsequente e ensaia a perda de sua licença médica por agir de maneira muito brusca. Sabemos que nem sempre é possível manter-se dentro da rigidez de um sistema que favorece muito menos os profissionais e pacientes e foca mais nos lucros, mas o personagem se coloca na posição de herói da Marvel e mesmo quase certo sempre, exala em sua masculinidade agressiva um tom mandatório e arrogante que nos leva a observar que suas ações não estão alinhadas apenas aos pacientes, mas a necessidade de alimentação do ego e da convicção de que é um exímio profissional. Devon Pravesh (Manish Dayal), o carismático residente em evidencia na primeira temporada, ainda é presente e importante, mas não ocupa os mesmos privilégios dos demais protagonistas que começaram na mesma linha. Sua presença em cena é relativamente menor.

Irving (Tasso Feldman), espécie de alívio cômico, ganha uma projeção um pouco maior que antes, tal como Jessica (Jessica Miesel), enfermeira que aceita o pedido de casamento do jovem médico apaixonado. Um incidente de trânsito vai abalar a vida do casal, mas as coisas podem caminhar para um desfecho satisfatório. Nick (Emily Van Camp) continua dominando as cenas. Ela não é médica, mas em seu exercício de enfermeira chefe, dá as cartas em muitas situações, mostra capacidade de liderança e ainda esbanja carisma e profissionalismo na área de saúde, com posicionamentos e observações que ajudam no exercício dos demais médicos da unidade. Com bastante presença, ela protagoniza muitos diálogos e momentos dos episódios da temporada, personagem que merece desempenhar dramaticamente uma série que precisa revisar a sua trajetória. Dra. Mina Okafor (Shaunette Reneé Wilson) se liberta dos problemas familiares e traumas do passado, mas vive os dilemas da falta de tato em lidar com AJ Austin (Malcolm-Jamal Warner), dupla de cirurgiões cardiotorácicos eficientes, mas que não resolvem os conflitos na seara sentimental. Austin, nesta temporada, trafega pela descoberta de seus pais biológicos, circuito dramático que rende bons momentos.

Dr. Bell (Bruce Greenwood) vive grandes mudanças dentro do hospital. Exerce o cargo de CEO, mas agora é tentado pela oportunidade de se tornar um apresentar de televisão voltado ao exercício midiático das praticas medicinais. Depois de uma participação num programa na cadeira de convidado, o seu suposto talento para o segmento é percebido e exaltado, com um gancho que ainda está em fase de maior desenvolvimento. Para os manuais de dramaturgia, em especial aos que se voltam para as teorizações de Etienne Souriau e alguns arquétipos apresentados no já clássico As Duzentas Mil Situações Dramáticas, o experiente médico funciona como uma espécie de camaleão, em mutação e delineada dubiedade em cena. Menos aliado e mais antagonista nas temporadas anteriores, Randolph Bell agora esbanja carisma, bondade e ética com os demais funcionários do hospital, antes em conflituosa relação com o seu gestor. A mudança é novelesca e acertada, pois a série traz dois personagens insuportáveis para ocupar o espaço de malvados em cena, outro estereótipo que alguns programas têm evitado atualmente. Aparentemente macabros e totalmente frios e calculistas, tais antagonistas se tornam o que no senso comum se convencionou a chamar de “maquiavélico”.

A representação vem por meio da presença dos novatos Logan Kim (Rob Yang) e Dr. Barret Cain (Morris Chestnut), ambos irritantemente maléficos. O primeiro é cria da Red Rock e toda vez que entra em cena, é utilizado pelo roteiro para nos dizer que a associação entre as corporações da medicina visa o lucro, em detrimento do bem-estar dos pacientes, médicos, enfermeiros e demais funcionários. Com a chegada de Cain, isso fica ainda mais intenso. O médico que adora ter a sua imagem exaltada. Bajulado, ele é um fenômeno talentoso da cirurgia, mas também dono de práticas questionáveis, motivo de dor, ódio, raiva e outros sentimentos nada agradáveis para os personagens. Clichê, sem a devida “alma” para que no processo de humanização, pudéssemos compreender as suas atitudes, o malvado de plantão é colocado para chorar no último episódio da temporada, momento também voltado ao desenho de seu destino na próxima temporada, caso ainda se mantenha no hospital depois das falcatruas que colocaram a vida de muitos pacientes em risco. O comportamento destes dois personagens é o que arregimenta as conexões realistas da série, no que tange aos mecanismos da prejudicial mercantilização do campo da medicina.

Na seara da construção audiovisual dos episódios, a terceira temporada de The Resident contou com a direção de fotografia de Bart Tau no acompanhamento dos personagens nas dinâmicas internas e externas do Chastain, núcleo hospitalar que vive dias tenebrosos com os desdobramentos da fusão com seu contraponto ético, Red Rock, grupo mais focado nos interesses financeiros, tal como exposto anteriormente. Planos mais fechados para as cenas de tensão e a mesma paleta de cores dos anos anteriores marcam o campo da visualidade, arquitetado pelo design de produção gerenciado por Paul Peters, responsável por diversos setores, em especial, a direção de arte, a cenografia, os figurinos e a maquiagem, este último, mais contido que o habitual nas séries médicas repletas de mesas de cirurgia com profissionais de saúde em plena ação, a desbravar corpos humanos em busca dos problemas que levaram tais indivíduos aos seus serviços. Acompanhamos os dramas da equipe e dos pacientes com a condução musical da dupla formada por Jason Derlatka e Jon Ehrlich, seara estrutural que não é memorável, mas ganha pontos por não ser intrusiva demais.

Com histórias suficientes para o desenvolvimento de mais uma temporada, haja vista a série de ganchos calculadamente distribuídos no episódio de desfecho, adiantado por causa das complicações na seara cultura em decorrência da pandemia marco de 2020, The Resident é uma série carismática que deveria diminuir as suas expectativas no que diz respeito ao número de episódios por temporada, algo que sabemos, deve ser empolgante financeiramente, mas que não rende o mesmo em termos dramáticos. Numa repetição constante de situações muito similares aos demais produtos do mesmo segmento, isto é, a séries médicas, um dos filões temáticos persistentes da televisão, longevos como as produções de investigação policial e atendimentos de emergência, The Resident ainda não se tornou dramaticamente rasteira como as temporadas mais recentes de Grey’s Anatomy, mas é uma série que vive dentro deste contexto de “hipóxia narrativa”, um problema que em grau elevado, pode causar a perda de consciência da produção e, consequentemente, a “falência múltipla” dos interesses de seu público-alvo.

The Resident (idem, Estados Unidos/2019-2020).
Criação: Amy Holden Jones, Roshan Sethi, Hayley Schore
Direção: Phillip Noyce, Rob Corn, Bill D’Elia, James Roday, David Rodriguez, Thomas Carter, Bronwen Hughes, David Crabtree, Liz Allen
Roteiro: Amy Holden Jones, Roshan Sethi, Hayley Schore
Elenco: Manish Dayal, Emily VanCamp, Matt Czuchry Bruce Greenwood, Melina Kanakaredes, Tasso Feldman, Shaunette Reneé, Morris Chestnut, Rob Yang
Duração: 45 min (cada episódio – 20 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.