Crítica | The Romanoffs – 1X03: House of Special Purpose

  • Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Reunindo Christina Hendricks, com quem trabalhou em Mad Men e a espetacular Isabelle Huppert, com uma ponta de Paul Reiser, Matthew Weiner solta os freios da criatividade e faz de House of Special Purpose um episódio meta-narrativo que parece até mesmo ser semi-autobiográfico ou, pelo menos, autocrítico e também crítico dos bastidores de uma produção televisiva, fazendo com que ficção e realidade convirjam em uma história estranha, mas divertida. É como mergulhar um pouco no processo criativo de The Romanoffs e de muitas outras obras audiovisuais.

Afinal, na história, Hendricks vive Olivia Rogers uma atriz famosa que substitui a protagonista de uma minissérie histórica em seis partes intitulada The Romanovs, depois que ela é demitida (ou pede demissão, ou…), com Huppert vivendo a ex-atriz, hoje diretora, Jacqueline Gerard. Recebida com frieza no set localizado no interior da Alemanha e hospedando-se em um castelo que está lá para acrescentar à mística dos Romanovs, aos poucos começamos a ver aquela realidade já estranha entremear-se com a ficção, dentro de um contexto que deixa às escâncaras – talvez exageradamente, não sei – a dinâmica complicada de uma produção como essas.

O roteiro, que Weiner co-escreveu com Mary Sweeney, trabalha a partir do que nós, espectadores, entendemos ou esperamos dos clichês de bastidores. A atriz voluptuosa e desejada por todos que parece ter subido na carreira por dormir com diretores e atores, a diretora rabugenta e excêntrica que abusa do elenco, o ator que segue “O Método” para atuar e não sai de seu personagem, o agente (Reiser) que tem mais o seu interesse na cabeça do que o de sua cliente, o investidor apaixonado pela atriz e assim por diante. É uma literal coleção de estereótipos e clichês ambulantes que foram meticulosamente criados para corroborar o raciocínio de um leigo sobre uma produção, mas que não é efetivamente leigo se olharmos mais profundamente para a História do Cinema. E os roteiristas sabem disso e usam isso a seu favor.

Aos poucos, porém, a narrativa começa a ganhar outros contornos, ainda que mantendo essa linha, para enevoar a linha divisória entre realidade e ficção. É aqui que a narrativa metalinguística entra mais fortemente, com “mistérios” no hotel que deixam Olivia desnorteada e a crescente esquisitice de Jacqueline no set de filmagens, como na hilariante e também desconcertante sequência em ela segura as “bolas” do ator que vive o czar Nicolau II para dar-lhe uma bronca, o que o leva a refazer a cena como um musical, que ela, ato-contínuo, adora. São momentos WTF? como esse que valem o espetáculo.

No entanto, é também nessa doideira que o roteiro perde um pouco a força, com uma estranheza crescente que dá a entender que Weiner está atirando para todos os lados e criando um episódio que está mais próximo de um capítulo de Além da Imaginação do que algo que “pertença” à sua série. Mas, claro, não há regras no que fazer ou não fazer em uma obra composta de filmes soltos amarrados a partir de apenas um único fio narrativo que, na verdade, pode ser usado de qualquer maneira. Mas entre corredores estranhos no hotel e pequenas fantasmas no quarto de Olivia e uma cena de “improviso” no set entre ela e o ator que vive Rasputin, o roteiro parece querer falar de tudo um pouco e acaba que não fala bem de muita coisa. E o final, que remete brilhantemente à sequência de abertura, é estranho e, diria, insatisfatório dentro da progressão narrativa.

Mesmo com seus problemas, House of Special Purpose mantém o grau de suntuosidade dos dois episódios inaugurais e ganha pontos ao lidar com assuntos delicados de maneira jocosa, sem perder a crítica ácida. E, claro, não atrapalha em nada ter a belíssima Christina Hendricks e a sensacional Isabelle Huppert no elenco, ambas, aparentemente, muito à vontade e divertindo-se nessa baderna deliciosa e auto-referencial de Weiner.

The Romanoffs – 1X03: House of Special Purpose (EUA, 19 de outubro de 2018)
Criação: Matthew Weiner
Direção: Matthew Weiner
Roteiro: Matthew Weiner, Mary Sweeney
Elenco: Christina Hendricks, Jack Huston, Paul Reiser, Isabelle Huppert, Mike Doyle, JJ Feild, Mark Valley, Evgenia Brik, Morten Suurballe, Ivan G’Vera, Goran Navojec
Duração: 88 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.