Crítica | The Romanoffs – 1X08: The One That Holds Everything

  • Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

No último episódio de The Romanoffs, Matthew Weiner entrega um episódio que, se está longe de ser memorável, pelo menos retira o verniz da pretensão de sua nova criação e resulta em um divertimento passageiro que aspira bem de longe ser algo que pudesse vir da mente de Alfred Hitchcock (impossível não fazer a conexão com Pacto Sinistro) com pitadas das reviravoltas típicas de M. Night Shyamalan. Pelo menos é um encerramento em ascendência para a temporada, algo na verdade não muito difícil considerando os fracos Bright and High Circle, Panorama e End of the Line, os três capítulos imediatamente anteriores.

Falar muito da trama é necessariamente estragar surpresas, pelo que tomarei a liberdade de ser críptico aqui. Estruturado como uma matriosca, ou seja, uma história dentro de uma história dentro de uma história, The One That Holds Everything começa com Jack (JJ Feild), o roteirista da série objeto de House of Special Purpose, embarcando em um trem em Paris em direção a Londres. Ele encontra Candace (Adèle Anderson), uma senhora, em seu assento, e ela pede educadamente para ele deixá-la sentar ali, pois a proximidade com a janela reduz seu enjoo. Jack concorda, mas, quando a viagem começa e ele tenta ler um livro, Candace começa a puxar conversa e não para mais, até que ela o convence a deixar contar uma história que um amigo seu – descendente dos Romanovs – contara para ela, começando, então, a segunda narrativa do episódio que nos apresenta a Simon (Hugh Skinner), um jovem com problemas no seio familiar.

O roteiro co-escrito por Weiner e Donald Joh consegue manter o mistério por algo como 15 ou 20 minutos, tornando-se óbvio ululante a partir daí, ainda que o mistério continue até a “revelação” final. Como sempre advoguei, a capacidade de um roteiro de surpreender com reviravoltas que ninguém consegue acertar não é requisito para um bom filme. Tudo tem que ser feito com lógica interna e, quando há isso, montar mentalmente o quebra-cabeças e chegar ao resultado final mais rápido do que a cadência narrativa torna-se algo até esperado. Nesse ponto, a dupla escritora acerta e cria um suspense que, como disse, é realmente divertido e, pela primeira vez na série, sem aquela camada de empáfia e sofisticação falsa que Weiner sempre tentou imprimir à série.

O problema está, mais uma vez, no irritante didatismo que faz com que o episódio seja uma sucessão de explicações detalhadas para o que estamos vendo na tela, em uma redundância cansativa e completamente inaceitável para alguém do naipe de Weiner. A tragédia na vida de Simon, por exemplo, é repisada tantas vezes e de tantas maneiras diferentes que eu sinceramente nem mais acho que Weiner está subestimando o espectador, mas sim que ele simplesmente não consegue narrar uma história com começo, meio e fim no breve intervalo de 80 minutos. O mesmo vale para todo o desenvolvimento do começo da vida adulta de Simon em Hong Kong e para sua relação com seu pai. É como ver um disco arranhado que a agulha tenta avançar, mas encontra uma intransponível barreira pela frente.

O trabalho de Skinner como Simon também não convence. O ator, que, aliás, se parece muito com Matt Smith, parece que está no teatro ou atuando diante de câmeras da era do filme mudo, em que as expressões e trejeitos exagerados precisavam reinar para fazer as vezes da voz. E ele não muda ao longo de seu desenvolvimento (sua história se passa em momentos temporais diferentes em uma narrativa não-linear), o que perpetua sua afetação, retirando completamente qualquer resquício de naturalidade de seu potencialmente interessante personagem. Apenas para fins comparativos, Oliver Zetterström, que vive Simon quando garoto, consegue ser muito mais sutil e delicado em sua representação do personagem.

Sem dúvida alguma, a natureza trotamundos do episódio, que encapsula toda a série, é interessante e traz novidades visuais bem capturadas pela direção de arte, com locações em Paris, Londres e Hong Kong, mas esses passeios visuais não tem um propósito maior do que gritar aos quatro ventos que o orçamento da série foi generoso. Se toda a ação fosse circunscrita a um quarteirão de um vilarejo de um país sem nome, o efeito para a narração seria basicamente o mesmo.

Mas as brincadeiras que Weiner e Joh fazem para manter seu mistério por mais tempo possível, como nos jogar para épocas diferentes em uma boa montagem que jamais confunde, torna The One That Holds Everything um episódio fácil de assistir por conseguir prender a atenção. É evidente que estamos vendo estilo sobre substância, mas pelo menos estamos vendo algo que carrega significado e que foge da burocracia inacreditável dos três episódios anteriores (ainda que a discussão central levantada no capítulo imediatamente anterior seja importante, como mencionei na respectiva crítica).

Chegando ao seu fim, The Romanoffs definitivamente não disse a que veio. Quando tudo o que podemos dizer de The One That Holds Everything é que ele é divertido, mas ordinário, fica dolorosamente visível que a tão esperada nova série de Weiner é, possivelmente, uma das mais desapontadoras séries novas em anos.

The Romanoffs – 1X08: The One That Holds Everything (EUA, 23 de novembro de 2018)
Criação: Matthew Weiner
Direção: Matthew Weiner
Roteiro: Donald Joh, Matthew Weiner
Elenco: Hugh Skinner, Hera Hilmar, Ben Miles, JJ Feild, Adèle Anderson, Oliver Zetterström, Deirdre Mullins, Rebecca Root, Jane Perry, Christopher Goh, Jing Lusi
Duração: 80 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.