Crítica | The Shape Lives: 40 Anos de Halloween

Halloween se configura como a franquia slasher com maior prestígio crítico, além de ter uma legião imensa de fãs. Pode não ter tido o mesmo sucesso financeiro que Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo, mas é pomposa em seus requisitos estéticos, bem como personagens mais desenvolvidos. Todo esse respeito é canalizado por meio do documentário The Shape Lives: 40 anos de Halloween, dirigido, editado e escrito por Dave James, uma das melhores críticas genéticas já realizadas para a franquia de Michael Myers, universo que por sinal, já foi tema de várias produções com tom retrospectivo. Produzido na ocasião de lançamento do filme de 2018, o material exalta os principais pontos que fizeram da realização de 1978, um clássico absoluto do cinema.

O documentário começa bem e mantém seu ritmo ao longo de todos os 75 minutos de duração. É uma aula de como realizar exercícios retrospectivos. Logo na abertura, John Carpenter é apresentado, numa das tantas entrevistas realizadas após o estrondoso lançamento do filme de 1978. Um plano-sequência semelhante ao da abertura de Halloween – A Noite do Terror nos guia por um cinema, espaço de sonhos e entretenimento que marcou a juventude e vida do cineasta. Sempre com a famosa respiração ofegante de Michael Myers por detrás da máscara, característica marcante do design de som do filme, o narrador traça a comparação orçamentária entre a produção e A Bruxa de Blair, ambos sucessos espontâneos de baixo custo.

Logo mais, Dylan Spicer, narrador carismático e envolvente, nos apresenta uma cena do clássico Disque M Para Matar, de Alfred Hitchcock, tendo em vista reforçar que assassinatos e motivações insanas para o crime já estavam estabelecidos no cinema há algum tempo. O requisito que faltava era a máscara, algo que O Massacre da Serra Elétrica tratou de arranjar em 1974. É quando entramos no primeiro de dez capítulos que dividem o documentário. Entre cenas de Halloween 3  e Halloween H20 – Vinte Anos Depois, conferimos dados biográficos de John Carpenter, dentre eles, a sua família, a vocação musical oriunda do pai, a sua paixão por Howard Hanks e John Ford, prováveis fontes para inspiração de sua estética apurada, além das experiências ao fazer cinema e assistir debates com a presença de Roman Polanski, Orson Welles e Michelangelo Antonioni.

Há ainda neste primeiro momento, uma breve, mas interrompida referência aos crimes de Charles Manson, algo que de certa maneira impactou a forma como as pessoas estavam enfrentando a violência nos anos 1970. Com uso frequente de cenas dos filmes, bem como as trilhas originais, o documentário flui com bastante liberdade e nos faz adentrar o universo de Michael Myers, uma grandiosa aula de cinema, com passeios pela produção, distribuição e recepção de uma obra cinematográfica intrigante e historicamente cheia de importância, tamanho o seu legado. Próximo ao desfecho deste capítulo, temos a observação sobre alguns temas frequentes na filmografia de Carpenter, detalhes ilustrados com cenas de Assalto à 13ª DP, uma de suas primeiras produções e que já continham anti-heróis, mulheres fortes e independentes e trilha sonora memorável.

Ao longo do capítulo 02, acompanhamos o legado de Capitão Voyeur, um filme com traços significativos de Janela Indiscreta, posteriormente adaptados ao contexto de Halloween – A Noite do Terror. O capítulo 03 traz o envolvimento entre Debra Hill e John Carpenter, a produção do primeiro filme, cenas de bastidores, a criação da máscara, o design de produção e os enquadramentos meticulosos ganham destaque, com reforço do ponto de vista já utilizado em Natal Negro, mas criado por estratégias narrativas mais sofisticadas na produção em questão. O capítulo 04 faz uma análise geral da final girl Laurie Strode, num comparativo com Sidney Prescott e Nancy, de Pânico e A Hora do Pesadelo, respectivamente, produções de Wes Craven. Com cenas de 1978 e 2018 intercaladas, Laurie é apontada como alguém sintonizada, que se sobressai, num filme slasher que se preocupa em desenvolver os personagens, ao invés de coloca-los apenas como vítimas para morrer violentamente nas mãos dos antagonistas.

Essa ilustração é realizada com a famosa cena de morte com o machado, criada pelo mestre da maquiagem Tom Savini, no primeiro Sexta-Feira 13. É um elo comparativo de inferiorização que voltará constantemente ao longo do documentário. Provavelmente o seu realizador não vai com a cara da franquia criada por Sean. S. Cunningham, tida pelo roteiro como barata e oportunista. É a prévia do capítulo 05, dedicado ao personagem de Donald Pleasence, espécie de Van Helsing de Michael Myers. No capítulo 06, o documentário explana as ressonâncias de Alfred Hitchcock no filme, explica como a cena de abertura foi concebida, para adiante, adentrar o capítulo 07, focado na criação da icônica trilha sonora. É um trecho bem interessante e diferente do que outros documentários sobre Halloween já fizeram, com trechos de John Carpenter exclusivamente músico, envolvido com sua guitarra.

Temos também imagens de bastidores da realização da trilha sonora de Halloween (2018). Para Carpenter, Bernard Hermann e sua instrumentação musical simples demarcaram a sua vida enquanto compositor de trilhas. No capítulo 08, o documentário flerta com a distribuição, estreia e sucesso do filme, as ansiedades dos realizadores, receosos por causa de um possível fracasso. Há a famosa crítica de Roger Ebert, responsável por trazer confiança ao filme, com direito ao áudio captado numa das sessões de lançamento, com o público em polvorosa bem na cena de perseguição da reta final da produção. A relação da franquia com Moustapha Akkad é comentada, seguida de uma breve análise dos filmes subsequentes ao de 1978, alguns bem-sucedidos, outros demasiadamente ruins.

No capítulo 09, somos apresentados ao legado de Michael Myers na franquia Pânico, em especial, na cena de Jamie Kennedy a discutir as regras slasher no terceiro ato do filme. As cenas da final girl de Jamie Lee Curtis, afirma-se, por meio de imagens que comprovam, influenciaram Dia dos Namorados Macabro, Sexta-Feira 13, Sexta-Feira 13 Parte 3, O Trem do Terror, Chamas da Morte, dentre outros. Traçado como imitação vagabunda de Halloween, a franquia de Jason é constantemente destratada pelo roteiro, aparentemente incomodado com o fato de ter sido o primeiro slasher comprado e distribuído por um estúdio com tanto potencial econômico.

No capítulo 10, o narrador afirma que a franquia havia morrido em 2002, pois Halloween: Ressurreição não deixou espaço para continuidade. O novo rumo a ser tomado era a refilmagem exacerbadamente violenta de Rob Zombie, um filme que causou muita polêmica. Primeiro, John Carpenter é surpreendido pela pergunta sobre sua opinião num evento. A sua resposta é direta: o filme tornou a força da natureza é algo explicitamente delineado, explicadinho, com tanta riqueza de detalhes que retirou toda a estranheza diante das pessoas em confronto com tamanha entidade aniquiladora. A radiografia da infância e motivações de Michael Myers incomodou o seu criador, num exercício de linguagem cinematográfica considerado exagerado.

Em seu desfecho, o documentário traz o excelente ponto de vista de John Carpenter sobre subtexto, algo essencial para discutir crítica de cinema, memória e legado. Ele aponta que na era dos monstros da Universal, o cinema debatia os efeitos da depressão econômica e incertezas dos efeitos de 1929. Cenas de Nosferatu, Drácula, Lobisomem são entrecortadas para nos ilustrar a fala autorizada de um mestre da estética e história do terror. Os monstros de hoje, por sua vez, falam de nosso tempo. Para ilustrar, a produção exibe cenas de Samara (O Chamado), Patrick Bateman (Psicopata Americano), Hannibal (O Silêncio dos Inocentes), Chucky (Brinquedo Assassino), Jason (Sexta-Feira 13), Leatherface (O Massacre da Serra Elétrica), Freddy Krueger (A Hora do Pesadelo), além de cenas de It – A Coisa, Corra, Aniversário Macabro, Psicose e por último, claro, Michael Myers.

The Shape Lives – 40 Anos de Halloween (The Shape Lives – 40 Years of Halloween) — Estados Unidos, 2018
Direção: Dave James
Roteiro: Dave James
Elenco: John Carpenter, Jamie Lee Curtis, Moustapha Akkad, Rick Rosenthal, Clive Baker, Donald Pleasence, Brian Andrews,  Tom Atkins, Nick Castle, Debra Hill, John Ottman
Duração: 75 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.