Crítica | “The Slow Rush” – Tame Impala

Se você acompanhar a discografia de qualquer grande artista dos anos 60 e 70, vai perceber que uma vez que este adentrou os anos 80 a qualidade de seus trabalhos caiu de forma notória. Existem exceções, claro, mas o padrão é inegável. Essa comparação talvez seja válida pra entender o que aconteceu com o Tame Impala. Não que seu novo álbum, The Slow Rush, seja ruim, muito pelo contrário – é ótimo – mas se trata de uma obra inferior aos discos anteriores do grupo. A banda de Kevin Parker passou seus dois primeiros álbuns explorando o rock psicodélico dos anos 60 e 70 com maestria, enquanto em Currents lidou com a típica transição dos anos 70 para os anos 80 onde sintetizadores invadiam as pistas. Agora, em seu quarto disco, a banda se encontra completamente imersa no pop oitentista.

Kevin Parker sempre foi, acima de tudo, um fã incondicional de música pop. E, em tempos que o produtor trabalha com nomes como Lady Gaga e Kanye West e o Tame Impala é alçado a nível headliner de festivais, talvez essa fosse mesmo a hora adequada pra migrar para ares de sonoridade mais pop, ainda que sua obra anterior, Currents, já tivesse feito essa ponte. Mas engana-se quem acredita que a escolha do compositor tenha qualquer interesse oportunista e comercial. A própria abertura do disco, One More Year, já mostra como Kevin não abre mão da complexidade de suas composições, brincando com ecos em uma chuva de synths e entregando uma típica música eletrônica que seria esperada de um DJ renomado e experiente.

Se a produção dos trabalhos anteriores era explosiva, a de The Slow Rush é contida, baixa e bastante intimista. Essa sonoridade mais leve garante uma atmosfera bem típica do AOR dos anos 70 e 80 às canções. Is It True é descaradamente influenciada pela fase Off The Wall e Thriller de Michael Jackson, a ponto de soar com estranheza como uma faixa do Tame Impala, mesmo que sua execução seja surpreendente. O disco ainda é um tanto reminiscente de Currents, soando como uma transição para uma nova fase do grupo. Instant Destiny e On Track, por exemplo, parecem sobras do álbum anterior, sendo a primeira algo que merecidamente sairia do material de lançamento pelo seu ar genérico, enquanto a segunda seria injustiçada já que daria uma excelente combinação com as faixas mais atmosféricas e confessionais do álbum.

O principal single, Borderline, demonstra as fragilidades de The Slow Rush. Muito calcado na repetição e em sintetizadores monótonos, a faixa parece se inspirar no que houve de mais insosso nos sucessos dos anos 80. O lado positivo é que, em uma obra inundada por sintetizadores, as sonoridades mais orgânicas são bem trabalhadas e chamam atenção quando inseridas, como é o caso das belas cordas que guiam a ótima Tomorrow’s Dust, ou o baixo de Lost In Yesterday que busca emular o típico groove do maior sucesso da banda, The Less I Know The Better. O ótimo falsete de Kevin Parker – que é marca registrada dos vocais do Tame Impala – aqui também soam muito bem mixados e inserido nas canções, denotando uma evolução do líder do grupo como produtor.

Há uma carência de faixas que possam trazer a mesma catarse espetacular de Let It Happen, Mind MischiefApocaypse Dreams ou Alter Ego. Entretanto, duas faixas se sobressaem, a primeira delas sendo It Might Be Time, com uma coleção de beats avassaladores sendo despejados por cima da aconchegante base de teclado que inicia a canção, até se tornar um hino que, em outros tempos, seria um prato perfeito para um rock de arena. A outra faixa se trata do encerramento, One More Hour, onde Kevin demonstra que sua genialidade ainda segue em vigor. Influências pesadas do rock progressivo se misturam ao clássico soft rock oitentista a fim de gerar uma obra sensorial que muda de tom e escala de forma perfeita com uma fluidez rítmica impressionante.

Kevin Parker se tornou, merecidamente, um dos produtores mais renomados da atualidade, sendo um interesse particular de muitas estrelas pop. Seu feito de elevar uma banda de rock psicodélico ao status de headliner de grandes festivais é impressionante em tempos onde o rock é decretado morto. The Slow Rush é uma boa extensão do produtor como um visionário da música pop, incorporando um olhar mais intimista e pessoal à música popular dos anos 70/80 e criando uma nova fase para o Tame Impala. Embora facilmente o álbum mais fraco da brilhante discografia da banda, pode significar o início de algo muito mais surpreendente que ainda pode vir.

Aumenta!: One More Hour
Diminui!: Borderline

Slow Rush
Artista: Tame Impala
País: Austrália
Gravadora: Island Records
Lançamento: 14 de fevereiro de 2020
Estilo: Rock/Pop Psicodélico

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.