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Crítica | The Tax Collector

por Ritter Fan
2307 views (a partir de agosto de 2020)

Quando um filme encerra sua produção em 2018 e só encontra distribuição dois anos depois unicamente em vídeo sob demanda e, mesmo assim, em meio a uma pandemia, o espectador já tem todos os sinais necessários para precaver-se. Afinal, se nem os produtores de Hollywood, acostumados com bombas, mexeram-se para colocar o longa no cinema, a notícia simplesmente não pode ser boa.

Esse é exatamente o caso de The Tax Collector, a mais nova tentativa – extremamente falha – de David Ayer de mostrar que ainda consegue dirigir bons filmes, algo que, claro, deveria começar com um bom roteiro, algo que ele também escreveu e, novamente, errou feio. O longa, porém, tem uma grande vantagem sobre atrocidades semelhantes como The Last Days of American Crime: sua duração é modesta, fazendo-nos perder apenas 95 minutos da vida, mesmo que esses 95 minutos pareçam levar 195 para passar…

A principal razão para essa sensação de lerdeza é que Ayer passa quase a metade de seu filme ensinando detalhes da operação capitaneada por David (Bobby Soto) e seu braço direito e guarda-costas Creeper (Shia LaBeouf) como se houvesse alguma coisa complicada ou particularmente diferente nela. A dupla simplesmente coleta dinheiro de “proteção” de todos os negócios – legais e ilegais – de seu território em Los Angeles, algo que mesmo os mais inexperientes cinéfilos já viram dezenas e dezenas de vezes. E o mais divertido – uso o adjetivo de forma sarcástica, só para deixar claro – é que Ayer acha que está ao mesmo tempo construindo e desenvolvendo seus personagens, enquanto que tudo o que ele consegue fazer, e mesmo assim com algum esforço, é sacramentar estereótipos rasteiros e arriscar diálogos que, na cabeça dele, deveriam ser marcantes.

Como determina todo clichê de filme de gângster, Bobby é o “bandido bonzinho”, religioso e dedicado à sua família e Creeper é o durão estranho que só é minimamente interessante porque é vivido por LaBeouf de cavanhaque, terno, óculos escuros e cara de mau. A rotina dos dois vai por água abaixo quando Conejo (Jose Conejo Martin), um mafioso mexicano, entra na vida deles querendo tomar o território, resultando na violência sanguinária usual. Aliás, minto. Não é nada usual, pois “usual” significa no mínimo algo divertido, mesmo que rasteiro. O que Ayer entrega é, na verdade, completamente sem graça, com tiroteios que são borrões na tela, torturas com câmera tremida e uma ação climática que é tão facilmente executada pelo protagonista que ela termina por demolir toda a pretensa construção do bandido como o cara mais invencível do mundo, o que significa passar por rituais satânicos com direito a sacrifícios humanos e, claro, aquele banho de sangue refrescante.

Mas o amontoado de clichês e estereótipos poderia resultar em algo até passável (bom seria pedir demais), pois a mera existência deles em um filme, como não me canso de dizer, não é uma sentença condenatória. A questão é que Ayer não consegue fazer nada verdadeiramente bem. De seus atores não extrai nada que não sejam carrancas que não permitem qualquer variação emocional que diferencie raiva de amor ou tristeza, algo que é particularmente evidente na atuação de Soto. Sua direção é, nos seus melhores momentos, burocrática, com uma decupagem paupérrima que leva a outro problema grave: a montagem. Diferente de outros filmes de ação, a questão não é nem de longe cortes de milissegundos ou o frenesi ininteligível de um Michael Bay da vida. Em The Tax Collector, a montagem de Geoffrey O’Brien é um curioso personagem com vida própria que jamais consegue manter coesa a estrutura de uma sequência com uma boa quantidade de cortes.

Os melhores exemplo disso são justamente as cenas em que os personagens estão apenas conversando. Repare na convocação de Bobby e Creeper para uma conversa com Conejo como cada corte desobedece a lógica direcional dos olhares dos personagens. Muitos dirão que isso é bobagem, outros que é estilo, mas tenho para mim que é a boa e velha incompetência manifestando-se de maneira assustadora nesse filme que realmente deveria ter ficado em algum porão escuro da produtora, sem nunca ver a luz do dia.

O que fica, ao final de 95 minutos, é aquela sensação vazia e frustrante de que só dava mesmo para ser pior se a duração dessa bobagem fosse maior. David Ayer precisa urgentemente ou se aposentar ou voltar à faculdade de cinema para relembrar o que um dia, mesmo que muito brevemente, conseguiu ser, a não ser que sua intenção com The Tax Collector tenha sido fazer um apanhado daquilo que não se deve fazer em um longa-metragem.

The Tax Collector (EUA – 07 de agosto de 2020)
Direção: David Ayer
Roteiro: David Ayer
Elenco: Bobby Soto, Shia LaBeouf, Cinthya Carmona, George Lopez, Jay Reeves, Lana Parrilla, Chelsea Rendon, Gabriela Flores, Elpidia Carrillo, Jose Conejo Martin, Brian Ortega, Brendan Schaub, Jimmy Smits
Duração: 95 min.

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13 comentários

Rafael 2 de setembro de 2020 - 00:25

O personagem do Shia foi absolutamente sem necessidade de existir. Mostrava ser um super bad guy, mas na verdade era um gaiato… a ideia do filme até era boa, porém foi perdendo constância, quem a gente pensava que seriam os bandidaços na verdade eram crianças com medo do bicho papão.

Achei o personagem do “Conejo” bem característico e salvou a unha do dedo do pé. Agora o resto mano…

Assino embaixo a sua crítica…

pra mim um drama sem drama, mais do mesmo e menos do que se espera.

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planocritico 2 de setembro de 2020 - 14:28

Chegou a ficar engraçada (inadvertidamente) toda a “lenda” de durão que o filme se esforça a construir ao redor do personagem do Shia em seus 40 minutos iniciais somente para acontecer o que acontece. Eu sei que eu ri…

Abs,
Ritter.

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Filipe Isaías 10 de agosto de 2020 - 17:50

Tenho uma teoria: lembra como o Jared Leto não saía do personagem no set de Esquadrão Suicida? Acho que a atriz que fazia a Enchantress também não saiu e jogou uma maldição no David Ayer. Se bem que trabalhar com o Leto já é uma maldição. Caramba, maldição dupla, difícil de sair mesmo.

Abs.

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planocritico 10 de agosto de 2020 - 18:10

HAHAHAHHAAHHAHAHAHA

Nossa! Mas só se a maldição for retroativa, pois o Ayer já era fraco antes!

Abs,
Ritter.

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Filipe Isaías 10 de agosto de 2020 - 19:20

Coitado do Ayer, eu gosto de Fury…

Aliás, Ritter, você viu que a Rhea Seehorn não foi nem indicada ao Emmy por Better Call Saul? Eu já não levava a premiação à sério, mas agora ela morreu pra mim.

Abs.

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planocritico 10 de agosto de 2020 - 19:32

Também gosto de Fury. E basicamente só isso…

Sobre a Rhea Seehorn, cara, que raiva que me deu. Estou é esperando para ver se o Golden Globes tem a coragem de repetir essa cretinice…

Abs,
Ritter.

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Here's Johnny 10 de agosto de 2020 - 02:03

Vi o filme de forma bem aleatória, porque estava procurando algo rápido pra ver ontem à tarde, e como o Shia tava fazendo uns bons indies nos últimos anos, fui me arriscar.

E que coisa absurdamente horrorosa, cada dia que passa eu acredito mais que End Of Watch e Fury foram “acidentes” de percurso e que o padrão de qualidade verdadeiro do Ayer é esse aí.

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planocritico 10 de agosto de 2020 - 02:45

Sim, exatamente meu pensamento sobre o Ayer…

Abs,
Ritter.

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Better call Wassef 10 de agosto de 2020 - 19:08

Quando sair o AyerCut desse filme você terá que se retratar rsrsrsrs

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planocritico 10 de agosto de 2020 - 19:20

Pois é… Agora todo filme porcaria vai ter um messiânico “FulanoCut” para salvar a lavoura, pois os fãs vão adorar a salvação mesmo quando ela for ruim…

Abs,
Ritter.

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Victor Martins #ForaHickman 10 de agosto de 2020 - 13:19

No futebol tem uma expressão inglesa, “One Season Wonder”, que serve para designar jogadores que fazem UMA grande temporada e depois entram em decadência no restante da carreira.

Tá na hora de inventar a “One Movie Wonder”, onde Ayer (acho que Fury é medíocre), Duncan Jones, Catherine Hardwicke, Richard Kelly, Michael Gondry, M. Night Shyamalan, se encaixam.

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planocritico 10 de agosto de 2020 - 13:19

Não concordo sobre Shyamalan, mas é bem por aí mesmo em relação aos demais e também Ayer.

Abs,
Ritter.

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Cleber Rosa 10 de agosto de 2020 - 16:25

M. Night Shyamalan E Duncan Jones, na minha opinião, NÃO, mas o resto está coberto de razão! rsrs

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