Home TVEpisódio Crítica | The Terror – 1X04: Punished, as a Boy

Crítica | The Terror – 1X04: Punished, as a Boy

por Ritter Fan
75 views (a partir de agosto de 2020)

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios e, aqui, a crítica do livro. 

A aurora boreal esverdeada dominando o céu polar e o sol visto baixo no horizonte gelado por alguns segundos contrastam fortemente com a brutalidade de Punished, as a Boy, talvez o episódio que mais claramente tenha mostrado as facetas monstruosas do Homem, deixando o parente do Wampa quase que como o menor dos problemas cozinhando nos conveses do Terror e do Erebus. Talvez a única alma genuinamente boa que podemos pinçar deste banho de sangue seja o Doutor Harry Goodsir, mas sua voz não tem força na inclemência da natureza e da (falta de) humanidade que o cerca.

Reparem como, surpreendentemente, o episódio começa não com um flashback, mas sim com mais um pulo para o futuro, cinco meses a frente dos eventos de The Ladder, mas não no gelo e sim na Inglaterra, com Lady Jane (Greta Scacchi), esposa de Sir John Franklin, veementemente clamando à junta da Marinha Britânica para que um resgate seja imediatamente montado, somente para ser recebida com desdém e, no máximo, uma promessa de que, se até 1850 (eles estão ainda em 1847!), ninguém ouvir da expedição, eles farão tudo para salvar seu marido e os demais. Apesar das cores quentes e reconfortantes da fotografia, trata-se de uma sequência aterradora a seu próprio modo e certamente angustiante, pois a indignação de Lady Jane é palpável, algo que é multiplicado pelo conhecimento que nós, espectadores, temos do destino de seu marido, morto violentamente pelas garras de uma criatura aparentemente sobrenatural.

Quando vem o corte, depois que Lady Jane diz à Sophie Cracroft (Sian Brooke) que ela mesmo tentará financiar o resgate, somos levados diretamente para o Terror, na cabine do agora comandante geral da expedição Crozier, em uma tomada que já estabelece a situação complicada do navio, completamente adernado na montanha de gelo que o prende. A situação do capitão permanece a mesma, com sua fuga na direção da bebida continuando fortemente, algo que entendemos ainda melhor no flashback um pouco mais para a frente, para o momento em que ele, desesperado, tenta convencer Sophie, o amor de sua vida, a desposá-lo. Se Sophie tenta ser política ao máximo possível, a reação de Lady Jane é terrível e fria, algo que, claro, ajuda a construir o momento presente de Crozier, que vê na expedição sua esperança (vã) de finalmente ganhar a mão da moça.

Nesse vai e vem do roteiro, escrito pelo showrunner David Kajganich, temos um excelente exemplo de circularidade narrativa, com eventos do passado e do presente na “civilização” ecoando fortemente no presente gélido perdido no meio do nada com coisa nenhuma. É kafkiano e claustrofóbico ao limite, passando a clara e evidente mensagem de que não há saída para ninguém ali na Expedição Franklin.

Isso fica ainda mais evidente na arquitetura sonora da série e que é particularmente importante neste episódio, com o ranger da madeira dos navios sendo onipresente, dando a sensação de que eles estão em cascas de ovos sendo lentamente esmagados pelas irresistíveis forças da natureza ao redor. Mesmo no branco, mas escurecido exterior banhado pela aqui ameaçadora Aurora Boreal, que faz tudo parecer um outro planeta em uma série de ficção científica, o som é importante, com os estalos do gelo como trovões ao redor de todos, como se eles estivessem em um campo de batalha sem qualquer chance de defesa.

Diante desse pesadelo, a presença invisível do monstro é como uma catarse explosiva. Aquele medo por que todos passam acaba repentinamente em meio à precisão literalmente cirúrgica do monstro que faz uso de iscas para dividir grupos e de terror psicológico com ataques repentinos e, pior ainda, a devolução de um corpo frankensteiniano, com metade de uma pessoa e metade de outra. As tripulações dos navios não estão diante de um animal irracional apenas, mas sim de uma criatura de extrema astúcia.

Mas o mais astuto dos animais é o Homem, não é mesmo? O mesmo Homem que brutalmente arrasta uma esquimó para o navio, quase linchando-a sob acusações genéricas de que ela teria ligação com a criatura (mesmo que seja isso o que inevitavelmente pareça). Aqui, os verdadeiros monstros aparecem e eles não têm pelos brancos nem garras afiadas como katanas. São astutos, mas dissimulados como Cornelius Hickey, são duros e incapazes de perdão como Francis Crozier, são frios e distantes como a já citada junta da Marinha Britânica ou como o cirurgião-chefe da expedição que trata o cérebro à mostra de um paciente com um “pudim”.

E, claro, tudo leva inexoravelmente ao antagonismo mais forte que se forma entre Crozier, inclemente em sua punição, e Hickey, solene e rancoroso ao recebê-la. A câmera de Edward Berger, durante a sessão de chicotadas “como em um menino” em Hickey, começa com ângulo baixo e close-up extremo, deixando-nos ver o jovem transformando-se fisicamente ao longo da punição, em uma belíssima atuação de Adam Nagaitis que me lembrou muito as chicotadas que o personagem do então desconhecido Denzel Washington leva no sensacional Tempo de Glória e que lhe valeu o Oscar de Ator Coadjuvante. Aos poucos, Berger altera o ângulo, deixando-nos ver o rosto de Crozier também transformado em uma espécie de máscara de vingança incontida e, devemos concordar, desproporcional, e, pior ainda, os rostos dos demais tripulantes quando as chicotadas começam a tirar sangue das nádegas de Hickey, claramente levando-os para o lado do desobediente colega, algo materializado depois pela escolha maciça em saírem do Terror e irem ao Erebus, por “segurança”.

Se a fotografia exterior do episódio flertava como enquadramentos claramente inspirados nas obras de William Turner, no interior escurecido dos navios vemos outros trabalhos vindo à luz (ou à falta de luz), notadamente os do holandês Rembrandt. O cuidado de Florian Hoffmeister nesse quesito é de tirar o fôlego, já que ele consegue fazer do feio o bonito, do horrível, o quase romântico, por vezes até fazendo-nos esquecer da trama para observar os detalhes da iluminação e das cores ou fazendo-nos voltar sequências com o mesmo objetivo.

Punished, as a Boy reitera o caráter (des)humano de The Terror e arranca tensão não de momentos de grafismo explícito repletos de sangue e tripas, mas sim dos pequenos detalhes visuais e sonoros que vão engrandecendo a atmosfera pesada e claustrofóbica desse primor de série. Não há nada melhor do que começar a assistir um episódio e ficar frustrado por ele acabar um piscar de olhos depois…

The Terror – 1X04: Punished, as a Boy (EUA – 09 de abril de 2018)
Desenvolvimento: David Kajganich (baseado em romance de Dan Simmons)
Showrunners: David Kajganich, Soo Hugh
Direção: Edward Berger
Roteiro: David Kajganich
Elenco: Jared Harris, Tobias Menzies, Ciarán Hinds, Paul Ready, Ian Hart, Adam Nagaitis, Edward Ashley, Matthew McNulty, Christos Lawton, Liam Garrigan, Ronan Raftery, Nive Nielsen, Tom Weston-Jones, Greta Scacchi, Sian Brooke
Duração: 46 min.

Você Também pode curtir

23 comentários

Bruno 16 de abril de 2018 - 15:48

Não entendi o que aconteceu com a liberação dos episódios. Marcada pra um dia, estreou no dia anterior. Daí no dia que deveria ser a estreia divulgaram o segundo episódio.

Então, no dia do terceiro episódio, liberaram até o quinto episódio. E na semana passada, quando deveria estrear o quarto episódio, liberaram todos os cinco que faltavam.

Alguém sabe o que aconteceu? Procurei o cronograma e era pra sair um episódio por semana. Será que houve vazamento dos episódios ou foram liberados oficialmente?

Responder
planocritico 16 de abril de 2018 - 18:31

Mas liberaram aonde? No canal AMC aqui no Brasil, onde eu vejo, só passa um episódio por semana e não tem nada liberado.

O que eu soube é que na Amazon Vídeo americana e de alguns outros países, os episódios seriam liberados dessa forma aí que você descreveu.

Abs,
Ritter.

Responder
Bruno 17 de abril de 2018 - 15:03

Eu foi colocar pra baixar o quarto episódio e vi que tinha sido lançado junto com o terceiro. Daí pesquisei os demais e vi que já tinham saído todos.

Então deve ter sido na Amazon só mesmo, mas já dá pra baixar todos

Responder
planocritico 17 de abril de 2018 - 15:22

Eu conferi depois e foi isso que aconteceu mesmo. Em alguns países (não EUA e Brasil pelo menos), a série foi comprada e distribuída pela Amazon e lançada quase de uma vez. Como aqui tem o canal AMC, eles estão lançando normalmente e é assim que tenho acompanhado.

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 17 de abril de 2018 - 15:22

Eu conferi depois e foi isso que aconteceu mesmo. Em alguns países (não EUA e Brasil pelo menos), a série foi comprada e distribuída pela Amazon e lançada quase de uma vez. Como aqui tem o canal AMC, eles estão lançando normalmente e é assim que tenho acompanhado.

Abs,
Ritter.

Responder
Bruno 16 de abril de 2018 - 15:48

Não entendi o que aconteceu com a liberação dos episódios. Marcada pra um dia, estreou no dia anterior. Daí no dia que deveria ser a estreia divulgaram o segundo episódio.

Então, no dia do terceiro episódio, liberaram até o quinto episódio. E na semana passada, quando deveria estrear o quarto episódio, liberaram todos os cinco que faltavam.

Alguém sabe o que aconteceu? Procurei o cronograma e era pra sair um episódio por semana. Será que houve vazamento dos episódios ou foram liberados oficialmente?

Responder
Junito Hartley 11 de abril de 2018 - 00:15

A série é muito boa, gosto desse tipo de história, nesse episódio foi o que mais mostrou o bixo, mais claramente não dá pra falar que é somente um urso.

Responder
planocritico 11 de abril de 2018 - 12:52

Estou curioso para saber se eles mostrarão o bicho em detalhes.

Abs,
Ritter.

Responder
Luis Fernando 10 de abril de 2018 - 14:26

Gostando demais dessa série. Fui pegar o livro pra ler e achei truncado, lento. Mas como você disse, os detalhes da história se sobrepõe ao ritmo. Ainda vou continuar a leitura.

Responder
planocritico 10 de abril de 2018 - 14:38

O livro é deliberadamente lento e exige paciência do leitor. Mas é gratificante.

A série também é muito boa, mas naturalmente mais rápida, até pelas modificações muito boas que eles estão implementando.

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 10 de abril de 2018 - 14:38

O livro é deliberadamente lento e exige paciência do leitor. Mas é gratificante.

A série também é muito boa, mas naturalmente mais rápida, até pelas modificações muito boas que eles estão implementando.

Abs,
Ritter.

Responder
Daniel Barros 10 de abril de 2018 - 13:06

(“The winter is here!”)
Muito boa até agora! Que continuem assim!!

Responder
planocritico 10 de abril de 2018 - 13:07

Bota inverno nisso! Acho que até os White Walkers congelariam ali!

Abs,
Ritter.

Responder
Daniel Barros 10 de abril de 2018 - 13:06

(“The winter is here!”)
Muito boa até agora! Que continuem assim!!

Responder
Huckleberry Hound 10 de abril de 2018 - 09:46

Será que alguém vai sair vivo dessa viagem?

Responder
planocritico 10 de abril de 2018 - 10:21

Se eles seguirem o livro, eu sei a resposta, mas eu NÃO vou te contar! HAHAAHAHAHAHAHAH

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 10 de abril de 2018 - 10:21

Se eles seguirem o livro, eu sei a resposta, mas eu NÃO vou te contar! HAHAAHAHAHAHAHAH

Abs,
Ritter.

Responder
Junito Hartley 10 de abril de 2018 - 22:02

No primeiro episodio ja fala que os dois navios nunca mais foram visto, logo, geral morre.

Responder
Junito Hartley 10 de abril de 2018 - 22:02

No primeiro episodio ja fala que os dois navios nunca mais foram visto, logo, geral morre.

Responder
planocritico 10 de abril de 2018 - 22:31

Mas eles podem ter saído andando pelo gelo, não?

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 10 de abril de 2018 - 22:31

Mas eles podem ter saído andando pelo gelo, não?

Abs,
Ritter.

Responder
Junito Hartley 10 de abril de 2018 - 23:11

De poder ate que eles podem, o duro é sobreviver pra contar historia.

Responder
Junito Hartley 10 de abril de 2018 - 23:11

De poder ate que eles podem, o duro é sobreviver pra contar historia.

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais