Crítica | The Twilight Zone – 1X03: Replay

plano critico twilight zone episode 3 critica alem da imaginação

  • Confira os outros episódios do revival aqui e os episódios da série clássica aqui.

Além da Imaginação é o tipo de série que nunca fugiu de questões sociais e políticas, e podemos ver como isso continua uma tradição, com o episódio Replay. Nina Harrison descobre possuir uma câmera capaz de carregá-la de volta no tempo ao apertar um botão. Ela está levando seu filho para o primeiro dia na faculdade de cinema, mas é constantemente parada no meio do caminho por um policial. Podemos ver como o episódio prepara o terreno para um comentário sobre a brutalidade policial com a comunidade negra. É um tópico delicado que pode dar errado no caso de uma abordagem insensível, mas felizmente não é o caso. Aqui encontramos mais um caso da ficção científica usando alegoria para construir um debate mais tangível para o nosso tempo e realidade, e também é possível ver como esta nova versão da série está se posicionando em nosso cenário atual e diferenciando-se de outras antologias atuais como Black Mirror, que devem bastante da sua abordagem ao clássico de Serling.

Replay tem sua premissa emprestada de alguns episódios em outras edições da série, como A Most Unusual Camera, de 1960, e Rewind, de 2003. Enquanto o primeiro dá ao personagem a vantagem de espiar o futuro, o segundo envolve um viciado em apostas que adquire um gravador capaz de levá-lo ao passado, uma proposta mais parecida com a de Replay, mas não chega a ser tão similar quanto Nightmare At 30,000 Feet foi de seu paralelo clássico. Nos dois casos, os objetos são uma ferramenta para conseguir dinheiro fácil. Para Nina, a câmera tem um propósito mais íntimo, ainda que ela aprenda como lidar com uma forma de egoísmo que faz deste episódio o melhor até agora.

Nina tenta todas as maneiras diferentes de abordar a presença do oficial Laski, um policial abusando do poder. Todas as suas perguntas e desculpas para abordar uma mãe e seu filho terminam de maneira violenta, e não importa quantas vezes a câmera a leve para o passado, eles não conseguem chegar ao seu destino. Esse episódio tem algumas decisões narrativas inteligentes que servem para brincar com a nossa expectativa, principalmente na cena em que Nina e seu filho saem da estrada e descansam em um hotel. Os dois assistem o resultado da loteria na televisão, e neste instante poderíamos ter uma curva na trama, com os dois usando a vantagem de voltar ao passado para poder ganhar no sorteio, mas o roteiro se importa mais em dar aos personagens uma interação mais afetuosa entre mãe e filho, onde ela usa seu “poder” para impressioná-lo, resultando em um momento de harmonia no meio de toda a tensão causada pela presença intimidadora do policial.

Ainda que o enredo tenha um brilho próprio por conta da crítica e a forma como não perde a força ou deixa de lado sua promessa inicial, ele ao mesmo tempo também sofre um pouco com a falta de sutileza em seu argumento, principalmente quando o terceiro ato começa a se desenvolver com algumas conveniências, introduzindo um personagem necessário para a trama, mas que acaba servindo como uma desculpa narrativa apressada, sem contar uma tomada onde podemos ver a mensagem do episódio sendo literalmente escrita para nós através de um pôster escrito “Black Lives Matter”. O debate é mais provocativo quando Nina carrega a trama, o que faz com que algumas representações visuais óbvias tornem-se uma martelada dispensável no que já estava sendo bem feito e não precisava de ajuda.

Até agora foram revelados alguns nomes que fazem o elenco da série um de seus maiores atrativos, e em Replay nos deparamos com uma atuação maravilhosa (não estou exagerando) de Sanna Lathan, que interpreta Nina. O maior diferencial deste episódio reside nas interações entre os personagens, com a abordagem realista de uma mãe que faz de tudo pelo filho. E eu não posso deixar de mencionar Gleen Fleshler no papel do policial Laskin, que entra na lista de seus personagens perturbadores. Nina tenta resolver o embate com Laski por vários ângulos, e mesmo depois de uma conversa honesta onde ela entrega tudo que pode, as coisas continuam iguais. O medo nos olhos de Lathan e a indiferença de Fleshler comprova o talento dos dois, e se a conclusão deste episódio não é uma das cenas mais intensas e poderosas de Além da Imaginação, eu provavelmente assisti a série errado todos esses anos.

No meio de toda a tensão, ainda é possível encontrar algumas referências, como os nomes Whipple e Lasky, vistos anteriormente no aparelho de áudio do protagonista em Nightmare At 30,000 Feet e na placa de uma rua no episódio The Comedian, respectivamente. Whipple é uma menção direta ao episódio clássico The Brain Center at Whipple´s; aqui o título está sendo usado como uma marca responsável por tecnologias misteriosas, produtos que vem além da imaginação. Será que a série está trazendo estas consistências para estabelecer uma conexão maior entre os episódios ou continuam sendo apenas referências? Além dos nomes, o número 1015 retorna depois de aparecer em um painel no episódio anterior, mas agora ele está bem mais evidente, ocupando um grande espaço de uma imagem que revela a placa do carro de Lasky. Para finalizar, podemos ver na lanchonete uma pequena máquina de moedas com a cabeça de um demônio; este mesmo objeto é original de Nick of Time, outra história da década de 1960 estrelada por William Shatner. E só para aproveitar o parágrafo, uma pequena curiosidade: Ryan Coogler é mencionado durante uma conversa. Coogler é mais conhecido hoje por ter dirigido Pantera Negra, mas seu primeiro longa, Fruitvale Station: A Última Parada, foi produzido por Gerard McMurray, o diretor deste episódio.

Replay é uma história arriscada, mas necessária. É uma pena ver a reação negativa de uma parcela do público com um episódio que fala tanto com o fã de Além da Imaginação, ficção científica e principalmente, com o nosso cotidiano. Não só afeta a recepção e a visibilidade da delicada direção de McMurray e a excelente atuação de Sanna Nathan, que deram de tudo para uma das poucas narrativas da série onde o presente vindo além da imaginação não traz benefício algum, apenas mostra as várias vertentes temporais onde a personagem não consegue vencer. No fim, descobrimos que ela tinha a ferramenta certa, só não sabia como usar. Não é sempre que podemos voltar ao passado e resolver um obstáculo, às vezes a melhor solução é enfrentar o desafio de frente. Por mais episódios como este, não importa se tivermos que deixar a sutileza de lado por um tempo, o que Serling tentou nos ensinar há muito tempo.

Qualquer estado, entidade ou ideologia que falha ao reconhecer o valor, dignidade e direito do homem, é um estado obsoleto.

Rod Serling em The Obsolete Man, 1961

Além da Imaginação (The Twilight Zone) – 1X03: Replay (EUA, 11 de Abril de 2019)
Direção: Gerard McMurray
Roteiro: Selwyn Seyfu Hinds
Elenco: Sanaa Lathan, Steve Harris, Gleen Fleshler, Jocelyn Panton, Samatha Spatali, Jordan Peele
Duração: 45 min.

ROBERTO HONORATO . . . Criado pela TV, minha família era o programa dos Muppets e minha segunda casa era a locadora (era fácil de chegar, só precisava atravessar a rua). Não me incomodava rebobinar todas as fitas, e nem podia, já que assistia o mesmo filme várias vezes. E quando não é cinema, o cheiro de quadrinhos me chama de longe e preciso gastar dinheiro que não tenho. E nunca esqueça: #sixseasonsandamovie