Crítica | The Twilight Zone – 1X07: Not All Men

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  • Confira os outros episódios do revival aqui e os episódios da série clássica aqui.

Annie (Taissa Farmiga) está começando um novo emprego. Ela pretende ser uma profissional exemplar, o que inclui saber trabalhar em equipe. Dylan (Luke Kirby), seu supervisor, a convida para um jantar de negócios e promete levá-la para assistir a chuva de meteoros em sua casa. Logo fica evidente que não estão apenas falando de negócios. Annie não parece incomodada, já que se sente interessada por ele. Os dois assistem o evento e chegam até a pegar um dos vários meteorito que chegaram à superfície. Ao voltar para casa, as coisas começam a ficar estranhas quando Dylan muda sua abordagem e passa a ter um comportamento mais hostil. O encontro acaba, mas o perigo é constante quando a jovem descobre que mais pessoas nas ruas estão ficando mais agressivas, e para seu azar, são apenas os homens.

Em Not All Men imaginamos um mundo onde as mulheres têm um medo constante da violência masculina e o que podem fazer com elas sexualmente. Um mundo onde elas precisam ter cautela na maneira que falam, recebem a culpa pela forma que se veste e observam os seus parceiros descontar sua frustração com demonstrações de força bruta desnecessária ou indo brincar com suas armas no meio da rua. A parte mais fácil deste episódio foi a construção de mundo, já que nenhum dos exemplos anteriores precisa ser imaginado, principalmente se considerarmos o número cada vez maior de casos de violência contra a mulher e de denúncias de abuso sexual (sem contar as vezes onde não são denunciados por medo de represália). Anne tenta sair com suas amigas para beber e se distrair, mas a conversa logo chega onde ela não quer, o que causa um desconforto geral e contribui para o estresse da personagem. Ela visita sua irmã Martha (Rhea Seehorn) e vê como parece feliz com seu marido, Mike (Ike Barinholtz). O casal é educado e divertido, e Mike parece diferente dos outros, com sua necessidade em afirmar como “nem todos os homens” são exemplares como ele. Já ouvimos essa declaração antes.

Escrito por Heather Anne Campbell, a mesma responsável pelo ótimo episódio Six Degrees of Freedom, e dirigido por Christina Choe, podemos ver como foi inteligente da série escolher suas mulheres para comandar o episódio. Isso não só colaborou para que o texto tivesse identidade e, obviamente, uma voz experiente nos temas apresentados. Os diálogos são entregues de forma seca, servindo como socos no estômago, sem medo de ir direto ao ponto. É claro que algumas vezes parece não ter firmeza no que está dizendo, então precisa se repetir, o que tem sido um mal recorrente desta temporada até aqui. Mas ao contrário de episódios como The Wunderkind, onde a crítica é apenas uma grande premissa e uma reviravolta vazios, Not All Men se assemelha em abordagem ao que foi feito em Replay, com um debate social que pode ser pesado e sem medo de ser um pouco “na cara”, mas que usou isso para desenvolver uma narrativa intrigante com personagens bem construídos.

Este episódio é o mais próximo que temos de algo dirigido por Jordan Peele, tendo um pouco da atmosfera de Corra!, tomada pelo suspense do imprevisível. Mas apenas comparar Campbell com Peele não seria justo, ela tem sua própria maneira de fazer com que aquele mundo não seja apenas um espelho do nosso, servindo para representar muito bem o tipo de pesadelo coletivo que encontramos na zona além da imaginação. Sua direção preza por enquadramentos abertos, mesmo quando temos apenas interações entre dois personagens. É engraçado como assim ela consegue intensificar uma sensação de paranoia e claustrofobia, deixando cada cena carregada de tensão, sem esquecer algumas sequências que exibem uma boa dose de terror, com figuras surgindo das sombras e sangue por todo lado.

Ainda que eu não seja um grande fã dos papéis que Ike Barinholtz escolheu ao longo de sua carreira, aqui ele conseguiu a proeza de não me incomodar, sendo responsável até por uma das melhores cenas do episódio. Taissa Farmiga tem se mostrado cada vez melhor quando não está prisioneira das produções de Ryan Murphy, e é bom ver Luke Kirby, que brilha em The Marvelous Mrs. Maisel. Não sabia que Rhea Seehorn estaria no elenco, o que me deixou feliz porque ela faz um trabalho impecável em Better Call Saul, e aqui ela tem mais espaço do que imaginei.

Talvez o que mais incomode alguns espectadores é a revelação final, que mostra como Heather Anne Campbell não está nem um pouco interessada em perdoar as pessoas por seu comportamento violento. O que faz com que isso funcione é como a diretora aponta que a agressividade não está restrita à relacionamentos heteronormativos, e a maneira como os próprios homens são afetados por suas atitudes. É uma jogada arriscada, mas que funciona dentro do que foi estabelecido. Mais uma vez, temos um episódio com um debate relevante, mas bem executado, sendo mal avaliado por uma parte do público. É uma pena ver isso acontecer, ainda mais agora que Além da Imaginação está começando a mostrar indícios de como consegue ser fiel ao que Rod Serling criou e ao mesmo tempo saber como aproveitar a abordagem “absurda” de Jordan Peele. Por mais episódios como este.

Além da Imaginação (The Twilight Zone) – 1X07: Not All Men (EUA, 9 de Maio de 2019)
Direção: Christina Choe
Roteiro: Heather Anne Campbell, Glen Morgan
Elenco: Taissa Farmiga, Luke Kirby, Ike Barinholtz, Rhea Seehorn, Shalyn Ferdinand, Jordan Peele
Duração: 42 min.

ROBERTO HONORATO . . . Criado pela TV, minha família era o programa dos Muppets e minha segunda casa era a locadora (era fácil de chegar, só precisava atravessar a rua). Não me incomodava rebobinar todas as fitas, e nem podia, já que assistia o mesmo filme várias vezes. E quando não é cinema, o cheiro de quadrinhos me chama de longe e preciso gastar dinheiro que não tenho. E nunca esqueça: #sixseasonsandamovie