Crítica | The Twilight Zone – 1X09: The Blue Scorpion

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Jeff Stork acaba de perder seu pai. Além disso, precisa lidar com todas as reuniões e papeladas envolvendo seu recente divórcio. Vasculhando entre os pertences de seu pai, um músico bastante respeitado e com uma história de vida impressionante, Jeff encontra uma arma. A arte de um escorpião revestindo o objeto não é a parte mais curiosa, nem mesmo o bilhete misterioso deixado pelo finado; o que realmente assusta o protagonista é seu nome cravado em uma das balas do pente da arma.

Fica clara aqui a intenção do episódio em abordar um dos debates mais polêmicos da América, o porte de armas de fogo. E pela primeira vez nesta temporada, tivemos uma abordagem um pouco menos óbvia do assunto principal. Não vamos nos animar, continua visível a intenção do roteiro, mas em The Blue Scorpion o verdadeiro foco está na maneira como atribuímos valor ao inanimado, ou como damos vida aos nossos medos. Até mesmo a profissão do protagonista, um antropologista, revela a promessa de um estudo sobre o personagem. Jeff assume uma postura inesperada, até para ele mesmo, quando aceita a arma como uma companheira. A decisão de usar uma arma para representar o apego do personagem ao que não é humano revela-se uma jogada arriscada, se aproveitando de sua fragilidade emocional e a vontade de se proteger de todos para traçar um paralelo com a nossa realidade.

Craig William Macneill dirige o episódio, que não tem muitos atributos que merecem destaque de sua parte, mas mais uma vez lá vou eu elogiar o excelente trabalho de Mathias Herndl, responsável pela direção de arte, facilmente o departamento mais consistentemente belo da temporada. Macneill é competente em alguns planos criativos, principalmente em ângulos mais distintos, como a sequência envolvendo a primeira pessoa a possuir a arma Blue Scorpion. Mas é Herndl que merece a atenção, como alguns dos melhores visuais da temporada. Há a sensação de claustrofobia causada pela paranoia do personagem, e é agora que eu elogio Chris O´Dowd, um ator que saiu como um rosto engraçado da hilária comédia The It Crowd e agora está fazendo papéis mais desafiadores. Se não fosse por ele, este episódio seria um tédio, já que grande parte depende da entrega do protagonista.

Há uma coisa engraçada nessa primeira temporada de Além da Imaginação. Talvez este revival seja a versão mais política que a série já viu, e olha que Rod Serling adorava inserir debates sobre alguns temas bem desconfortáveis. Cada episódio parece estar interessado em carregar altas doses de crítica social e política. Por um lado, é um positivo, já que a ficção científica é um gênero perfeito para abordar analogias de maneira inteligente. Mas esse é o problema, essa temporada não tem sido nem um pouco sutil com sua mensagem. Se parece que estou soando como um disco arranhado repetindo isso toda semana, imagina minha decepção assistindo cada novo episódio.

É claro que houveram exceções como Replay e Not All Men, compensando a falta de delicadeza com seus temas conduzindo a trama através de bons personagens e um ótimo trabalho na representação do suspense, ajudando bastante na ambientação. Mas não dá pra viver de conceito a vida inteira, o que esta série precisa é de uma voz própria, não só assumir a responsabilidade de ser a produção mais mente aberta da TV — sem contar que outras séries já fizeram isso melhor, sem se apoiar nesta muleta narrativa.

The Blue Scorpion escapa pela tangente com uma abordagem menos explícita de seus temas e um bom personagem para segurar nossa atenção. É refrescante, mas ainda assim é um episódio que se desenvolve preguiçosamente e tem um clímax decepcionante. Vamos torcer para semana que vem trazer algo muito bom porque até o momento a avaliação geral desta temporada não tem sido das melhores.

Além da Imaginação (The Twilight Zone) – 1X09: The Blue Scorpion (EUA, 23 de Maio de 2019)
Direção: Craig William Macneill
Roteiro: Glen Morgan
Elenco: Chris O´Dowd, Amy Landecker, Adam Korson, Justyna Bania, Amanda Burke, Jordan Peele
Duração: 41 min.

ROBERTO HONORATO . . . Criado pela TV, minha família era o programa dos Muppets e minha segunda casa era a locadora (era fácil de chegar, só precisava atravessar a rua). Não me incomodava rebobinar todas as fitas, e nem podia, já que assistia o mesmo filme várias vezes. E quando não é cinema, o cheiro de quadrinhos me chama de longe e preciso gastar dinheiro que não tenho. E nunca esqueça: #sixseasonsandamovie