Crítica | The Twilight Zone – 1X10: Blurryman

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  • Confira os outros episódios do revival aqui e os episódios da série clássica aqui.

Se você ainda não assistiu ao último episódio da temporada, eu indico que faça isso antes de ler porque não há outro jeito de falar dele sem entrar em detalhes (em outras palavras, aqui vai chover spoiler).

Até agora tivemos uma interpretação competente e uma abordagem um pouco diferente do que se é esperado dessa série. Toda semana tenho comentado sobre a falta de sutileza nos temas ou de uma voz própria para um título tão conhecido, ainda mais quando temos tantas outras séries no formato antológico fazendo sucesso. A presença de Jordan Peele na produção e como narrador foi o principal atrativo para aqueles interessados em entrar neste mundo que vai além da visão e som. Essa temporada sofreu altos e baixos e separou o público entre aqueles abertos à possibilidade de novas histórias sobre tópicos convenientes, e aqueles indignados com um revival desnecessário. Em The Blurryman, episódio que conclui o primeiro ano da série, temos um exercício de metalinguagem que até funciona no final, mas sofre com uma execução fraca.

Um escritor, interpretado por Seth Rogen, é atormentado por um roteiro que não parece decolar. Até que finalmente pensa em algo capaz de intrigar o público, envolvendo uma explosão nuclear que acabou com a população. O escritor comemora a saída do bloqueio criativo, mas logo descobre que o seu texto tornou-se realidade quando olha pela janela e se encontra no mundo que acabou de escrever. É uma premissa simples, lembra alguns grandes episódios da série clássica, tem até o mesmo estilo de trilha sonora. A câmera caminha, Jordan Peele começa com sua narração, mas ele se interrompe ao notar que a cena não está boa.

Descobrimos que o escritor é o próprio Seth Rogen interpretando mais um papel, assim como Jordan Peele. Os dois estão no set de filmagem de Além da Imaginação. Assim somos introduzidos a “verdadeira” protagonista do episódio, a roteirista Sophie Gelson (Zazie Beetz), uma jovem apaixonada por Rod Serling e tudo que ele criou. Com isso estabelecemos que esta temporada inteira era apenas uma produção de um estúdio tentando reviver a série da década de 1950 e 60. Para nós, tudo era apenas uma série de TV, mas Sophie não é uma personagem em seu mundo, apenas no nosso, e com isso ela é assombrada constantemente por uma silhueta misteriosa que apelida de Blurryman (“O Homem Borrado”).

É um pouco complicado, mas a série confirma que todos os episódios até aqui foram apenas parte de uma grande produção de Hollywood. Como ponto de partida para a trama a ideia não é original, mas faz sentido. Por ser um episódio de Além da Imaginação sobre Além da Imaginação, não faltam referências, mas a mais proeminente envolve o episódio Time Enough At Last, onde um homem sobrevive uma guerra nuclear e pode finalmente ler seus livros em paz, mas termina quebrando seu único par de óculos.

Fica clara a intenção do episódio em debater o status quo do revival. Em certo ponto, Sophie tem um debate com Peele sobre sua visão para a franquia. Ela não aceita que histórias possam ser apenas “conceitos sci-fi bobos” e que a ambiguidade não deveria ser parte da série: “É Além da Imaginação… se você não está dizendo algo importante, qual o propósito?”. Peele não se importa com isso e tenta convencê-la de que às vezes você só precisa de um escapismo para um dia ruim.

Com isso a série começa a questionar sua própria existência e o relacionamento com os fãs. Arriscado, mas necessário. Infelizmente, a trama se desenvolve de forma preguiçosa, dando mais foco ao homem borrado – um mistério bem previsível. E é durante a reviravolta que temos um momento de pura nostalgia e a indicação da direção que a segunda temporada (já confirmada) deve tomar. Rod Serling, recriado digitalmente (nada nível Blade Runner 2049 ou os personagens dos filmes da Marvel), surge das sombras e carrega Sophie para além da porta, revelando várias realidades. Os dois conversam e finalmente entendemos a intenção deste revival e onde ele pretende habitar, em uma zona onde a diversão não precisa ser deixada de lado para que o público possa apreciar a parte crítica.

É uma pena terem percebido isso tão tarde com uma temporada sem brilho. Depois da reviravolta, talvez seja hora de mexer um pouco com o formato e seguir arriscando e explorando mais, principalmente agora que Serling praticamente voltou dos mortos para tomar conta da série.

Além da Imaginação (The Twilight Zone) – 1X10: The Blurryman (EUA, 30 de Maio de 2019)
Direção: Simon Kinberg
Roteiro: Alex Rubens
Elenco: Zazie Beetz, Seth Rogen, Betty Gabriel, Zibby Allen, Caitlin Stryker, Jordan Peele
Duração: 39 min.

ROBERTO HONORATO . . . Criado pela TV, minha família era o programa dos Muppets e minha segunda casa era a locadora (era fácil de chegar, só precisava atravessar a rua). Não me incomodava rebobinar todas as fitas, e nem podia, já que assistia o mesmo filme várias vezes. E quando não é cinema, o cheiro de quadrinhos me chama de longe e preciso gastar dinheiro que não tenho. E nunca esqueça: #sixseasonsandamovie