Crítica | The Umbrella Academy – 1ª Temporada

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O processo para a adaptação de Umbrella Academy demorou algum tempo antes de realmente chegar ao público pela Netflix, em fevereiro de 2019. Quase dez anos, para falar a verdade. As primeiras conversas para a adaptação vieram depois do sucesso de Dallas, a segunda minissérie de Gerard WayGabriel Bá sobre essa família nada harmônica de super-heróis. A Universal Studios seguia com interesse de transformar os quadrinhos em um longa-metragem, e as conversas à guisa de pré-produção seguiram entre-se do final de 2009 até pelo menos a New York Comic Con de 2012, com planos e alterações do roteiro e tudo mais. Pouco tempo depois o projeto foi abandonado e só em 2015 uma nova tentativa de adaptação veio à tona, desta feita, para a TV. A produção só veio cair no colo da Netflix (como distribuidora) em meados de 2017, quando houve o anúncio oficial da série, sob tutela da Universal Cable Productions juntamente com a Dark Horse Entertainment. As filmagens da temporada se iniciaram em janeiro de 2018 e o processo seguiu até meados de julho.

Pegando essencialmente (mas não unicamente) os eventos de Suíte do Apocalipse, esta 1ª Temporada coloca em cena todos os ingredientes que fizeram os quadrinhos de Umbrella Academy tão atrativos e repletos de grandes surpresas. O enredo tem como motor a morte de Sir Reginald Hargreeves (Colm Feore), milionário que adotou sete crianças concebidas misteriosamente, todas nascidas no mesmo dia e hora. A intenção do homem era treinar essas crianças para combater ameaças à Terra. Mas como tudo o que envolve família é complicado, o tempo passou e cada filho (de uma forma ou de outra) seguiu seu caminho. No ponto em que iniciamos a série, uma nova ameaça está chegando, e esta é maior do que qualquer coisa que a Umbrella Academy tenha enfrentado um dia. O mundo está para acabar… Sob comando de Jeremy Slater (algo que achei estranhíssimo, pois ele não tem um currículo que podemos chamar exatamente de elogioso, exceto pelas duas temporadas de O Exorcista), os 10 episódios dessa temporada mostram o desenvolvimento da família que integra a Umbrella Academy e, ao mesmo tempo, engata numa jornada difícil para impedir que o Apocalipse aconteça.

Em proporções e momentos diferentes, a série me pareceu uma mistura de Utopia com Dirk Gently, numa medida em que os roteiros seguem perceptível dinâmica de desenvolvimento, podendo ser divididos assim: 1) conflitos da família-Umbrella. Este tem o maior destaque da trama e é costurado (em formato de grupo ou individual) às outras camadas. 2) indivíduos e mistérios que ameaçam a família-Umbrella. Nesta camada temos o reforço do time de coadjuvantes, em essência, sustentado por Hazel (Cameron Britton) e Cha-Cha (Mary J. Blige), destacando-se The Handler (Kate Walsh) na segunda metade. E por fim, 3) laços secundários, empecilhos e o fim da família-Umbrella. Nestes blocos, vemos o destaque para personagens que se ligam aos membros da família, como Pogo, Mamãe Grace, Ben Hargreeves (The Horror, o Nº6, morto violentamente em circunstâncias misteriosas — algo também não explicado no arco de abertura dos quadrinhos), Detetive Patch e Leonard Peabody.

Partindo do princípio de “time familiar problemático”, os textos se deixam levar com facilidade para o aprofundamento das relações entre os irmãos, fazendo com que a união entre eles fosse lentamente exibida, embora não cheguem de fato ao patamar de “união”. Com todo esse tempo disponível, há disponibilidade para digressões, para mostrar a viagem ao futuro do Nº5 (Aidan Gallagher em excelente atuação nos primeiro 5 episódios, mas perdendo espaço e intensidade na segunda metade) e para fazer o maior número de voltas em torno do fim do mundo, passando por mistérios individuais, especialmente quando a Organização que cuida das linhas do tempo e de “pessoas que alteram o continuum da humanidade” entra em cena. A esta altura, o espectador já tem uma história central para acompanhar, dividida entre conflitos humanos e corrida para impedir o fim do mundo. Com a entrada da Organização, porém, a coisa muda inteiramente de figura. Todo o trabalho da Umbrella Academy é colocado em perspectiva (diminuída) e soma-se a um fator burocrático nos dois episódios finais, que certamente cobram o seu preço (negativo), com eventos interrompidos, ciclos cênicos utilizados sem necessidade e o enredo um tanto emperrado.

Algo que se percebe em Suíte do Apocalipse e que vemos igualmente nesta adaptação é que o tempo inteiro temos algo com que nos preocupar. Os textos não nos deixam por muito tempo em paz, mesmo que demorem tempo demais “construindo” algo que não seria mais necessário explorar, vide a relação entre Luther (Tom Hopper) e Allison (Emmy Raver-Lampman), algo que começa com uma interessante e estranha exposição — afinal, eles são irmãos — mas caminha para um padrão romântico que em nada combina com a série. Caso haja dúvidas quanto a isso, basta olhar para cinco outros romances do show e tirar as próprias conclusões: Hazel & Agens; Diego (David Castañeda) & Patch; Nº5 & Dolores; Vanya (Ellen Page, em uma atuação carente de emoção, embora eu entenda perfeitamente a escolha da atriz para compor essa persona tábua para sua personagem) & Peabody; Klaus (Robert Sheehan) & Dave. O lado positivo em relação a isso é que quando olhamos para a família, este é o único relacionamento trabalhado de maneira questionável ali. Todas as outras relações, herdeiras de uma infância problemática, cheia de exploração, bullying, maus tratos, desprezo e falta de envolvimentos emocionais, ganha um excelente foco por parte do roteiro.

Para destacar a individualidade, a produção pesou a mão na oposição de cores e modelos dos figurinos e da direção de arte para os quartos de cada um dos Hargreeves. E não apenas isso. Cada um tem também uma música que os acompanha na apresentação (e uma que une a todos!), além de boa sacada dos diretores para filmá-los sob diferentes planos e ângulos, dependendo de sua importância hierárquica, algo que respeitam até o presente momento de suas vidas adultas. Curiosamente, não vemos a mesma diferença aparecer na fotografia, o que me pareceu óbvio: se todos são fortemente sequelados por uma terrível infância competitiva e exploradora; transformados em heróis da maneira menos indicada possível, então todos estão no mesmo patamar de base emocional, logo, iluminados pelo mesmo padrão de luz e filtros de cor, mas particularmente diferenciados por outros elementos estéticos.

Se não tivesse passado tempo demais às voltas com os dramas internos que nada acrescentam à história — especialmente quando falamos de Vanya — os episódios seriam mais curtos e melhor interligados. Hazel e Cha-Cha também protagonizaram intermináveis minutos de “nada sobre o nada” (com uma comédia que se perde fácil e apenas bons momentos de luta para compensar) e o roteiro ainda se deu o trabalho de criar uma “terceira via” para o Nº5, quando aceitou um segundo emprego na Organização. Dramaticamente eu consigo entender a necessidade daquele contato, para pegar as pistas que seriam utilizadas na reta final. Todavia, a estadia ali encerra-se em si mesma e este é o verdadeiro problema, porque, de outro modo, tais pistas poderiam ser conseguidas de outra forma, possivelmente uma bem mais ágil. Nos últimos momentos, fiquei consideravelmente espantado com a má qualidade dos efeitos especiais, porque até aquela queda horrorosa da casa, todo o padrão havia estado muito bem. Penso que com o dinheiro curto e a potência da cena, deixaram que parecesse “barato” mesmo, já que nossa atenção estaria focada em outra coisa, o que não deixa de ser verdade, mas é impossível não notar a diferença.

A família é o nosso Universo pessoal, independente de ter um núcleo bom ou ruim. Nossos primeiros valores, escolhas e impulsos surgem do seio familiar e é em par ou contra ela que tomamos as primeiras decisões de nossa vida. Essa trajetória socialmente natural e bastante realista aparece em The Umbrella Academy com toda a dinâmica, brigas, alfinetadas, provocações, mágoas e tentativas de reconciliação. Ao misturar o caminho super-heroico com o de laços assim tão íntimos, a série consegue nos transportar para ela através da empatia e, com isso, agarra a nossa atenção com rapidez, até porque logo aparecem poderes, mistérios para serem resolvidos e, a cereja do bolo, viagens no tempo. Na superação de dificuldades, tentativas de conviver com as diferenças e redefinir a capacidade de confiar e partilhar, The Umbrella Academy finca suas raízes. Uma série estranhamente humana sobre humanos incomuns, com quem nos identificamos ou a quem rejeitamos de cara. Um convite + acompanhantes para curtir o caos de mãos dadas.

  • Pergunta de identificação: com qual dos membros da Umbrella Academy vocês mais se identificam? Que irmão-número vocês são?

The Umbrella Academy – 1ª Temporada (EUA, 15 de fevereiro de 2019)
Showrunner: Jeremy Slater
Direção: Peter Hoar, Andrew Bernstein, Ellen Kuras, Stephen Surjik, Jeremy Webb
Roteiro: Steve Blackman, Ben Nedivi, Matt Wolpert, Lauren Schmidt, Robert De Laurentiis, Sneha Koorse, Eric W. Phillips
Elenco: Aidan Gallagher, Cameron Britton, Eden Cupid, Cameron Brodeur, Ethan Hwang, Dante Albidone, Tom Hopper, David Castañeda, Robert Sheehan, Emmy Raver-Lampman, Adam Godley, T.J. McGibbon, Ellen Page, Colm Feore, Mary J. Blige, Murray Furrow, Jordan Claire Robbins, Cody Ray Thompson
Duração: 10 episódios de c. 60 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.