Crítica | The Umbrella Academy – Vol. 1: Suíte do Apocalipse

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Uma frase genérica que pode resumir The Umbrella Academy é a de que a série explora uma família disfuncional de super-heróis incomuns. Numa comparação distanciada com uma série lançada anos depois, diria que se trata de um Black Hammer mais sacana, com conexões cosmopolitas e um tipo de mistério que se aproxima bem mais dos basilares mistérios envolvendo super-heróis do que se pensa à primeira vista. Todavia, Gerard Way não tem a intenção de torar as coisas fáceis e nem entregar todos os pontos, a começar pela concepção da equipe. A introdução das crianças que formarão a ‘Academia’ tem um ar messiânico despreocupado, sendo todas elas nascidas no mesmo dia, de mulheres que não sabiam como ficaram grávidas. É aí que entra em cena The Monocle (Sir Reginald Hargreeves), o pai-alien adotivo e treinador dos rebentos sobreviventes. Mas o autor não se prende aos mistérios dessa origem. Saltamos alguns anos para o futuro e então conhecemos a Umbrella Academy, em sua primeira formação.

Partindo sempre de ações carregadas de significado e pensando em contextos a longo prazo, Way coloca as crianças em ação e vai jogando “acontecimentos perdidos” à medida que passam as páginas, mas o público não chega a sentir falta de um maior tempo para se acostumar com esse Universo, porque tudo é muito divertido e o momento presente é bem estruturado pelo texto, exceto na conclusão da saga. O ritmo quase não se alterna e, juntamente com isso, é possível visualizar migalhas de informações sobre diversos personagens ou algumas cenas do passado dessa família, muito disso graças à diagramação de Gabriel Bá, com quadros dentro de quadros nos momentos certos e boas passagens entre temporalidades e localidades. A arte também dialoga com a estranha disparidade entre a forma física dos personagens (ou, dependendo do tempo, de pelo menos um deles) e a violência que os cerca.

Mesmo que haja um forte pendor para meias-informações ou zero de explicação para coisas realmente importantes (como a morte do filho #00.06 The Horror [Ben], que possuía um monstro de tentáculos saindo de seu corpo), a história não sofre realmente com a falta desses detalhes. Se existe algum momento de confusão ele está entre a primeira e a segunda revista, notadamente em relação ao filho #00.05 Number Five (The Boy), o viajante no tempo agora com a aparência de um garoto de dez anos. Já em relação aos outros filhos, roteiro e arte fazem um sólido trabalho de colocação na história, a começar por #00.01 Spaceboy (Luther), o líder do grupo, seguindo-se #00.02 The Kraken (Diego) o explosivo lançador de facas; #00.03 The Rumor (Allison); #00.04 The Séance (Klaus) e #00.07 The White Violin (Vanya), a tardia ovelha negra. Todos aqui possuem o seu tempo para brilhar e todos possuem problemas individuais + destacados defeitos e problemas compartilhados, seja com o pai adotivo, seja com os outros irmãos. Quase uma típica família, mas com uma dose a mais de rancor e elementos fantásticos.

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Minha reclamação em relação a Suíte do Apocalipse está na sensação de ausência que a gente tem quando chega ao final. Como disse antes, o ritmo do roteiro não muda, então estamos o tempo inteiro diante de uma coisa nova, uma morte importante, um grave ferimento, algo explodindo ou já destruído… sempre algo novo, e nisso Gerard Way é muito bom. Nós não ficamos entediados aqui. Contudo, fica no ar a impressão de que teríamos mais detalhes do passado da família ou que toda aquela saga com a Violino Branco teria ligações mais interessantes no desfecho. Isso, talvez, fizesse desaparecer o sentimento de “resoluções tiradas da cartola”.

Após criar alguns finais temporários para os personagens, o autor parte para a nostalgia e para o clima de hostilidade se dissipando, este sim, um grande acerto do autor, que não faz o tipo de remissão boba onde “tudo fica bem e todos pedem desculpas e são perdoados“, mas também não investe no simples desespero depois da tempestade. Ele consegue escolher bem aqueles que permanecem juntos (em conflito ou não) e os que estarão distantes por um tempo, com isso, despertando a curiosidade do leitor para ver qual será a próxima reunião e luta dessa família. A ‘Academia’ familiar cujos problemas internos são bem mais graves do que ter que suportar piadas de um eventual tio do pavê.

The Umbrella Academy – Vol. 1: Apocalypse Suite (EUA, 2007 – 2008)
Editora original: Dark Horse
No Brasil: Devir, 2009 e 2015
Roteiro: Gerard Way
Arte: Gabriel Bá
Cores: Dave Stewart
Letras: Nate Piekos
Capas: James Jean
Editoria: Scott Allie
196 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.