Crítica | The Umbrella Academy – Vol. 2: Dallas

Quase que em um fôlego só, apenas nove meses depois de Suíte do Apocalipse, a parceria de Gerard Way com Gabriel Bá gerou a segunda minissérie (ou arco, chamem como quiser) de The Umbrella Academy, contando as peripécias de uma super-família disfuncional composta por gente bizarra em um mundo para lá de estranho. Em Dallas, a dupla parte do maior mistério deixado pelo volume anterior, ou seja, o que afinal aconteceu com o Número Cinco entre o começo de sua viagem temporal de volta ao presente para salvar o mundo e sua efetiva chegada, para brindar os leitores com uma enlouquecida história que tem a viagem no tempo como artifício narrativo central.

No Volume 1, Número Cinco, conversando com Pogo na mansão da academia, esboça contar sua história, deixando a narrativa pendurada com um críptico início: “mas talvez eu deva começar pelo assassinato de Kennedy”. A conexão com o novo subtítulo, então, fica evidente, mas quem leu Suíte do Apocalipse pode já imaginar que Way, para desvendar esse mistério, faz de tudo, menos caminhar de forma linear. Mesmo abrindo o Volume 2 com o que parece ser o primeiro encontro d’O Monóculo com JFK, em 1963, ano do atentado, o que já aguça a curiosidade, o roteiro do vocalista da ex-banda My Chemical Romance imediatamente nos arranca desse suposto “conforto”, arremessando-nos para uma missão dos irmãos super-poderosos quando ainda criança e que espelha a primeira sequência de ação da história anterior, em que eles enfrentam a Torre Eiffel. Agora, é a vez da gigantesca estátua de Abraham Lincoln, na capital dos EUA, ganhar vida e sair destruindo tudo. Não só vemos o paralelismo narrativo entre volumes, mas também um perfeito começo que usa um presidente assassinato para dialogar com toda a linha narrativa que lida com outro presidente assassinado.

Com essa dupla introdução, a ação volta para o presente, alguns meses depois dos eventos que culminaram com a mansão da academia sendo destruída e um meteoro sendo segurado por Séance, em uma impressionante e completamente inesperada demonstração de poder. Mas o status quo da equipe mudou radicalmente: Spaceboy agora é um obeso mórbido que vive só comendo besteira e vendo televisão no subsolo da ex-mansão; Séance é uma celebridade por ter salvo a cidade, vivendo como tal; Rumor, agora muda, gosta de torturar psicologicamente Violino Branco, que ficou tetraplégica e desmemoriada e Kraken… bem, ele continua igual, surrando bandidos, mas agora com o objetivo de descobrir onde está Número Cinco, que ele considera extremamente perigoso. Mas Kraken não tem exclusividade nessa busca, já que 00.05 continua sendo caçado por aqueles sujeitos surreais com máscaras de gás e uniforme colorido que deram as caras (por assim dizer) no primeiro volume e que, aqui, aprendemos que são da Temps Aeternalis, agência que monitora e conserta anomalias temporais. Uma dupla mascarada de assassinos é enviada atrás dele e é a partir daí que a história acrescenta mais e mais camadas de sandices, usando a viagem no tempo – o melhor artifício sci-fi já criado – como mola mestra para movimentar todas as peças narrativas.

Apesar de Way atirar para todos os lados como no volume anterior, inserindo elipses narrativas e novos mistérios que ficam sem resolução direta, Dallas tem a óbvia vantagem de partir da premissa que o leitor conhece o núcleo dos personagens, o que dispensa apresentações e contextualizações. Dessa maneira, o mergulho no vai-e-vem temporal é direto e profundo, com talvez um tantinho mais de exposição do que a história realmente precisasse, mas nada realmente mortal para a fluidez narrativa. Além disso, o autor consegue equilibrar melhor o “tempo de página” de cada irmão Hargreeves, com cada um tendo seus 15 minutos de fama sem que sejam necessários malabarismos narrativos ou momentos exagerados (ou mais exagerados do que o exagero padrão, melhor classificando) como os mencionados poderes de Seánce que vimos em Suíte do Apocalipse.

E, como se isso não bastasse, toda a história é bem fechada, redonda e lógica (na lógica nem sempre lógica de Way, lógico), com um final satisfatório e que encerra o ciclo “de origem” de Número Cinco, ainda que eu não ficasse nada triste se, um dia, ele e Bá resolvessem escrever um spin-off só do personagem, contando suas peripécias temporais. Cada personagem ganha sua resolução, algumas tristes, outras mais positivas, mas sem trair a personalidade de cada um e a complicada relação entre os irmãos.

Por fim, a característica arte quase caricatural de Gabriel Bá funciona muito bem para os estranhos personagens que povoam a história, com seus exageros anatômicos sendo utilizados a favor da narrativa e não apesar dela, contribuindo para uma harmonia narrativa que caminha de mãos dadas com o texto de Way. Esse diálogo entre arte e roteiro é amplificado pelas cores de Dave Stewart, que mantém a atmosfera gótica por toda a obra, quebrando-a com splashes de cores vivas em momentos-chave, como nas sequências com Hazel e Cha Cha, os assustadores assassinos temporais que vão ao encalço de Número Cinco.

The Umbrella Academy: Dallas preenche muitos dos “espaços” propositalmente deixados pelas elipses do volume inaugural e desenvolve seus personagens centrais em uma história enlouquecida e frenética, mas que nunca quebra seu ritmo constante. É sandice do começo ao fim, mas não se poderia esperar menos do segundo capítulo das aventuras dessa gente estranha que nasceu das mentes deliciosamente esquisitas de Gerard Way e Gabriel Bá.

The Umbrella Academy – Vol. 2: Dallas (Idem, EUA – 2008/09)
Roteiro: Gerard Way
Arte: Gabriel Bá
Cores: Dave Stewart
Letras: Nate Piekos
Capas: Gabriel Bá, Dave Stewart
Editoria: Scott Allie
Editora original: Dark Horse Comics
Data original de publicação: novembro de 2008 a maio de 2009
Editora no Brasil: Devir
Data de publicação no Brasil: abril de 2011
Páginas: 196

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.