Crítica | The Umbrella Academy – Vol. 3: Hotel Oblivion

Foram necessários quase dez anos e uma adaptação televisiva para Gerard Way e Gabriel Bá voltarem para The Umbrella Academy depois que Suíte do Apocalipse e Dallas foram publicadas quase que em seguida entre os anos de 2007 e 2009. As sete edições do terceiro volume, intitulado Hotel Oblivion (ou Hotel Esquecimento, em tradução direta), uma a mais do que o padrão da série, foram publicadas ao longo de nove meses e usam como gancho, em parte, um mistério deixado ao final do segundo volume: o bilionário Perseus, que foi introduzido por lá, mas jamais desenvolvido ou mesmo conectado com os irmãos super-poderosos.

Mas Perseus é, francamente, uma nota de rodapé em Hotel Oblivion, já que ele é apenas mais uma peça na complexa e ensandecida engrenagem que movimenta a trama maquinada por Way e Bá no que talvez seja o volume mais disperso e confuso até agora, ainda que, no final das contas fascinante (talvez justamente por ser disperso e confuso ele é fascinante,  realmente não sei). Abrindo o volume, somos reapresentados aos irmãos que mais uma vez estão separados e de certa forma revertendo a seus antigos hábitos. Luther e Diego (Spaceboy e Kraken ou Números 1 e 2) estão no Japão lutando contra supervilões e envolvem-se com um cientista amigo de seu pai (desenhado por Bá como uma versão bem baixinha de Hayao Miyazaki) que os leva por uma viagem ao Afterspace (apenas aceitem), Allison (Rumor ou Número 3) continua se lamentando pela perda da filha e tentando conciliar-se com seu poder, Klaus (Séance ou Número 4) está mais drogado ainda, só que dessa vez também aplicando golpes com a ajuda de alguns gangsteres, Número 5 vive agora como um assassino de aluguel (o que faz todo sentido, óbvio) e, finalmente, Vanya (Violino Branco ou Número 7), ainda convalescendo dos eventos do primeiro volume, é levada a passear pelo passado da equipe por sua mãe robótica.

Desnecessário dizer que todo esses novos status quo dos personagens são abordados separadamente por Way sem que ele tenha muita pressa, o que resulta em narrativas fragmentadas e desconectadas por boa parte do volume. Sem dúvida são sequências divertidas, mas muitas repetem, com um pouco mais de fogos de artifício, aquilo que já havíamos visto antes, sem acrescentar muita coisa nova. De realmente novo mesmo temos só dois elementos principais: o Hotel Oblivion do título e o tal Afterspace que mencionei acima, além de um pouco mais de desenvolvimento do misterioso Proteus, do volume anterior. São esses três elementos que, lá pela metade da história, convergem para um lugar comum e levam ao clímax alongado e extremamente destrutivo que chega a lembrar o de Suíte do Apocalipse. Sem contar muitos detalhes, basta saber que o tal hotel é literalmente um hotel em algum lugar extradimensional (ou algo do gênero) onde, aprendemos logo no início, Hargreeves mandava os grandes vilões que sua equipe infantil enfrentava. É como um Asilo Arkham em uma galáxia muito, muito distante para resumir a ópera. E, como sempre acontece com o simpático manicômio de Gotham, é de se esperar uma fuga. Ou várias fugas.

Se por um lado as várias linhas narrativas expandem o universo de The Umbrella Academy, com o Hotel Oblivion sendo uma pouco original, mas muito interessante adição à mitologia, Way, talvez por ter imaginado expansões mil para sua criação ao longo da última década, parece sentir a necessidade de derramar o máximo possível de ideias variadas ao longo das sete edições sem trazer uma cola narrativa tão eficiente quanto nos dois volumes anteriores, principalmente Dallas. A história principal demora a engrenar, com o leitor tendo que navegar por sidequests que, com exceção à de Luther e Diego, nada ou quase nada acrescentam à trama principal que, aliás, só fica realmente bem estabelecida depois de um certo investimento de tempo e com o pinçamento de informações esparsas jogadas aqui e ali ao longo de pelo menos as três primeiras edições.

Aliado a isso, o roteirista, em uma decisão pobre e desnecessária, marreta um final aberto demais, que novamente altera o status quo do universo que criou. Pode ser que muitos leitores fiquem curiosos com o que acontecerá, mas eu, muito sinceramente, senti apenas cansaço dessas armadilhas narrativas preguiçosas. E isso é especialmente verdade se lembrarmos do excelente gancho que o próprio Way usou em Dallas, expandindo não um cliffhanger barato, mas sim aquilo que ele havia deixado de abordar sobre o Número 5 em Suíte do Apocalipse, preenchendo os espaços em branco, por assim dizer. Se ele esboçou fazer o mesmo em Hotel Oblivion com Perseus, como mencionei mais acima, ele não só falhou em alcançar o mesmo resultado, como não soube acrescentar mais um mistério (que, convenhamos, era perfeitamente esperado e bastante razoável) sem escancará-lo desavergonhadamente ao final, interrompendo a história quase da mesma forma abrupta que Peter Jackson empregou em A Desolação de Smaug.

Mas a família disfuncional da “academia guarda-chuva” ainda é muito agradável e divertida, com o universo visual materializado pela arte de Gabriel Bá enchendo os olhos do leitor. Hotel Oblivion é uma confusão dos diabos em uma história que parece requentada e com um final safado, mas continua sendo uma leitura recompensadora. Nem chega próximo dos volumes anteriores, claro, mas quem sabe se visto juntamente com o próximo – se não demorar outros dez anos para sair – o conjunto seja mais satisfatório em retrospecto?

The Umbrella Academy – Vol. 3: Hotel Oblivion (Idem, EUA – 2018/9)
Roteiro: Gerard Way
Arte: Gabriel Bá
Cores: Nick Filardi
Letras: Nate Piekos
Capas: Gabriel Bá
Editoria: Scott Allie
Editora original: Dark Horse Comics
Data original de publicação: 03 de outubro de 2018 a 12 de junho de 2019
Páginas: 196

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.