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Crítica | The Walking Dead – 10ª Temporada

por Iann Jeliel
1066 views (a partir de agosto de 2020)
The Walking Dead
Avaliação da temporada completa (não é uma média)

  • SPOILERS da temporada e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

Depois de ter pegado boa parte do acompanhamento semanal de críticas dessa décima temporada de The Walking Dead, proponho algo diferente com este que falará da temporada como um todo. Destrinchando mais do que ela poderia ter sido, do que exatamente dela em si. Sei que o dever da crítica é analisar a obra como ela é (as críticas por episódio estão aí para isso) e não imaginar um produto que ideal particular, no entanto, a ideia desse exercício é justamente evidenciar que as falhas constantes de unidade desta temporada, foi por escolha da série, ou melhor, pela escolha de não escolher nada, que acabou colhendo frutos terríveis quando um contexto extra série adentrou e a forçou se modificar quase ao modo de improvisação. Para se ter uma ideia, o teórico último episódio da temporada, A Certain Doom deveria ter saído no dia 12 de abril de 2020. Em 23 de março, já estava sendo confirmado o seu adiamento, porque simplesmente, a um pouco mais de 3 semanas da estreia, o episódio sequer estava pronto em pós-produção e foi forçado a não terminar graças a grande paralização do mundo pela pandemia do COVID-19. E isso, se tratando do episódio que teoricamente era o mais grandioso da temporada. Imagine os outros mais econômicos, estavam sendo terminados quando? Um dia antes de lançá-lo?

Voltemos no tempo e imaginemos um mundo hipotético de um The Walking Dead estava sendo minimamente planejado pelos seus produtores. Porque obviamente, antes do tal acontecimento global, duvidaria bastante que a série fosse ser confirmada para acabar numa décima primeira temporada. Mas tudo bem, vamos considerar que sim, e que a nona temporada inteira foi uma integra e eficiente correção de erros – e aí não só hipoteticamente, foi mesmo – para retomar a série ao status de qualidade anterior a sétima temporada e vir alto para entregar duas últimas temporadas incríveis. Haveria muitos caminhos para se fazer isso. No mais lúdico de todos, onde a série teria orçamento ou gostaria de usá-lo, a retomada do arco dos sussuradores poderia facilmente vim com a intensidade do início da sexta temporada. Uma jogada direta na ação desenfreada com aquele exército que foi mostrado devidamente, só uma vez, no episódio The Calm Before avançando sobre as linhas de Alexandria ou Hiltop, ou qualquer uma das comunidades, já pegando todos desprevenidos. Ao longo dos episódios, poderiam ser feitas contextualizações a mil do porquê desse ataque repentino, mas que elas viessem conforme a crescente de intensidade do mesmo em trocas temporais. Para que apostar na força de explicação de um grande flashback de núcleo somente, se poderíamos ter vários transitando entre a ação imaginada, somente mostrando a cena dos momentos chave que ficamos vários capítulos esperando acontecer em guerra fria, para fazer a contextualização exata a potencializar a tensão criada circunstancialmente.

Ora, mas nesse cenário, não teríamos como nos despedir da Michonne (Danai Gurira) direito…  Hum. Será? Considerando que sua saída estava nos planos desde o início, como não definitiva. Talvez. Poder-se-ia pensar em nem coloca no novo salto temporal, como foi a Maggie (Lauren Cohan). Só dizer que ela vazou para procurar o Rick (Andrew Lincoln) e pronto. Quando soubessem o que fazer com ela, traziam de volta. Mas ora, vamos continuar na nossa imaginação pensando no antigo e corajoso The Walking Dead, que para início de conversa, nem deixaria vazar essa informação de saída. E aí, peguemos os quadrinhos – algo que detesto fazer parâmetro, diga-se de passagem – e vejamos como foi a grande conclusão da saga dos sussuradores. Para quem leu, deve se lembrar da cena de sacrifício de Andrea (Laurie Holden), como o grande momento final. A Andrea, já na série, já nos deixou a algum tempo e apesar de ter aparecido em flashback vagabundo, não foi lembrada como ponte de ideia, para aí sim, uma despedida decente da personagem. Imaginem se a Michonne fosse a Andrea dos quadrinhos na série? Seria uma conclusão e tanto. Mas para não me acusarem daquele povo chato que queria ver uma transcrição de tudo vindo do material fonte, só pensem, o quão melhor seria, se a Michonne simplesmente morresse sem aviso? Há, mas ia faltar personagem bom… É, mas estamos idealizadamente em reta final, então mortes impactantes precisam acontecer. Poderia ser numa mid sesson finale com a confirmação dias depois de que a décima temporada seria a penúltima da série. Se ela demonstrou tanto esse desespero de tentar puxar de novo a audiência ao longo desses anos, era uma jogada mais do que válida fazer algo do tipo.

Até porque teríamos ainda um retorno planejado (hipoteticamente) de Maggie para reverter essa situação da guerra dos sussuradores. Trazendo a personagem realmente para ser útil a batalha, vindo com um exército de gente que justificasse o tempo que passou fora, com ELA utilizando o Negan (Jeffrey Dean Morgan) como isca para derrotar Alfa como premissa para perdoá-lo. Tudo isso em um clima que aí sim, poderia ser mais leve de uma segunda metade de temporada, puramente mais estratégica, já que o número baixo de sobreviventes, justificaria o pouco povoamento que vimos ao longo de toda a temporada. Daria até, para inserir fillers paralelos contando a jornada de Maggie, encaixando um jeito de contar a história do Negan que todo mundo queria saber e a série provou que não era tão difícil de se fazer encaixar. Até mesmo aquele flashback da Alfa (Samantha Morton) com o Beta (Ryan Hurst), para teoricamente trazer mais peso aos vilões. E com essas sobras, poder-se-ia muito bem fazer a conclusão econômica que acabou sendo um ponto alto da temporada, por ser forçada a se assumir assim, mas que se fosse desde o início de um planejamento, ter encaixado em uma unidade que o fizesse ser mais bem aceito.

Ok. Nada disso era possível. Não tinha orçamento para fazer tais situações grandiosas e recheadas de ação porque a queda de audiência foi tamanha que não tinha dinheiro para fazer algo desse nível, apesar de estar rolando outros dois spin-offs e confirmados mais uns três por aí. Quer ser econômico do início ao fim, tem de ser criativo, certo? Como foi a nona temporada a explorar cenários diferenciados para valorizar a série como exercício de gênero, algo que Squeeze, dessa temporada, fez muito bem. Por que não, então, englobar uma temporada inteira sobre isso? Trouxa fui eu, que na seasson finale The Storm, realmente acreditei teríamos uma próxima temporada completamente na neve. Mas isso seria uma solução perfeita para essa fadiga orçamentária, para essa guerra fria de maior desenvolvimento de personagens e seus traumas. A vastidão da neve corroendo as comunidades, dando brecha para a exploração de cada um através de episódios de núcleo onde a briga por recursos seria válida e em algum momento cruzaria com o trato feito com a Alfa. A partir daí, as cavernas assumiriam, mas com maior ênfase. Seria completamente aceitável, quase metade de uma temporada inteira em um complexo de cavernas daquele, onde o grupo de invencíveis bolaria alguma solução plausível para derrotá-los, com a tensão de ter de fazer isso o mais rápido possível, por está deixando as comunidades novamente expostas.

Se o intuito é disfarçar CGI, se adeque a isso e não apenas use como desculpa. Abrace a desculpa, venda ela como principal. Quando a décima temporada foi fazer isso, já era tarde demais. E aí tivemos que aceitar mais seis episódios assumidamente como fillers, para já assimilar o pouco avanço da história e se satisfazer com a entrega de uma história que queríamos ter visto de antemão. E olha, que pelo menos metade dos fillers são bons, porque a série sabe trabalhar com o pouco, na verdade, ela sabe ser boa como disse em alguma das críticas por episódio, mas ela estava com preguiça de pensar com esse pouco que tinha e se perdeu na firula, mesmo sobrevivendo com um ou outro episódio acima da média, que pelo efeito temporário, dá uma impressão de que valeu a pena, de que se compensou no final. Mas para uma série desse tamanho, o trabalhar pelo compensamento não pode ser suficiente. E infelizmente já é assim desde algum tempo, mesmo com o bom intervalo corretor da nona temporada. Ao acompanhar por episódio, é nítido que não dá para trabalhar com ideias fixas em The Walking Dead. Pela inconstância tudo muda de um episódio ao outro. Elogia-se um caminho vendido naquele capítulo, para no outro ser totalmente o contrário – como foi a presença do pior episódio da série.

Portanto, retomando o intuito dessa crítica de mais imaginar outras situações que a temporada poderia ter seguido, uma coisa é certa: The Walking Dead virou um ciclo de eterno de correr atrás de um prejuízo que a própria criou. E que mesmo na boa intenção, seis episódios extras não foram suficientes para minimamente ajustar um cenário de projeção – como os que imaginei, e que dava para ter sido feito parecido se eles tivessem utilizado a própria narrativa que criaram na nona temporada –, que a última temporada não será a mesma coisa. Quando ela deveria ser o ápice da valorização de um legado gigantesco, de uma série que mesmo com todos os problemas passados pelos últimos quatro anos, dentre outros tantos que a acusam para antes disso, ainda se manteve relevante dramaturgicamente, com capacidade qualititiva altíssima, durante tanto tempo. Se chegar a onze temporadas é algo para poucos, chegar nela com o saldo ainda bem mais positivo é raríssimo. Quando The Walking Dead perceber isso e tomara que perceba antes de começar sua última temporada, ela ainda tem muitas chances, de terminar equivalente a grandiosidade que prometeu ser.

The Walking Dead – 10ª Temporada | EUA, 2019 – 2021
Showrunner:
Angela Kang (Baseado na obra homônima dos quadrinhos de Robert Kirkman, Tony Moore e Charlie Adlard)
Direção: Greg Nicotero, David Boyd, Michael Cudlitz, Laura Belsey, John Dahl, Bronwen Hughes, Michael E. Satrazemis, Sharat Raju, Daisy von Scherler Mayer
Roteiristas: Angela Kang, Geraldine Inoa, Nicole Mirante-Matthews, Jim Barnes, Eli Jorne, Kevin Deiboldt, Dan Liu, Corey Reed, Julia Ruchman, David Leslie Johnson, Vivian Tse, Eli Jorne, Channing Powell, Erik Mountain, Heather Bellson
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Christian Serratos, Josh McDermitt, Seth Gilliam, Ross Marquand, Khary Payton, Samantha Morton, Ryan Hurst, Jeffrey Dean Morgan, Callan McAuliffe, Avi Nash, Eleanor Matsuura, Cooper Andrews, Nadia Hilker, Cailey Fleming, Cassady McClincy, Lauren Ridloff, Dan Fogler, John Finn,  Thora Birch, Angel Theory, Juan Javier Cardenas, Lindsley Register, Kerry Cahill, Antony Azor, Nadine Marissa, Kevin Carroll, Kenric Green,  Paola Lázaro, Karen Ceesay, Lauren Cohan, Alex Sgambati, James Devoti, Okea Eme-Akwari, Brianna Butler, Kien Michael Spiller, Lynn Collins,  Robert Patrick, Cameron Scott Roberts, Mandi Christine Kerr, Hilarie Burton
Duração: 22 episódios de aproximadamente 45 minutos cada.

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