Crítica | The Walking Dead – 10X01: Lines We Cross

  • Observação: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-offFear the Walking Dead.

Há muitas linhas sendo cruzadas no primeiro episódio da décima temporada dessa que é uma das séries mais populares dos últimos anos. Em primeiro lugar, a chegada ao seu ano de número 10 é certamente um marco para o show, que, entre trancos e barrancos, conseguiu prover aos seus espectadores com o que há de melhor e também de pior no cenário da televisão de gênero. Com a entrada de Angela Kang no comando da nona temporada, porém, The Walking Dead retomou seus rumos, conseguindo conciliar, mais uma vez de maneira bem competente, a sua narrativa pós-apocalíptica com os dramas humanos, pessoais, de seus personagens. É curioso, portanto, que a série recomece agora com uma visão do espaço sideral – um senso de grandiosidade é inerente, em contrapartida com o intimismo dos confrontos mundanos. Lá, se encontra um satélite artificial com origem da União Soviética, mas que está prestes a adentrar a atmosfera terrestre – de modo mais específico, os Estados Unidos da América. O que importa para Kang, contudo, é o impacto do objeto nas tramas próprias aos personagens, e não partir realmente para um enredo de teor mais grandiloquente. Quem queria ser maior e maior a cada ano era Scott M. Gimple e a sua péssima Guerra Total. Aos poucos, por isso, esse bom episódio de re-estreia irá movimentar-se de núcleo a núcleo, cobrindo a majoritariedade do cast, à beira de se chocar com descobertas e redescobertas.

Como reinício, por conseguinte, Angela Kang precisa construir uma recontextualização, e o seu processo, nesse sentido, é exímio, caminhando pelos principais vínculos emocionais a serem, aparentemente, desenvolvidos pelo restante da temporada. Entrando na trama do capítulo em si, por exemplo, as fronteiras que separam os Sussurradores, os grandes antagonistas atualmente, dos protagonistas também são linhas a serem cruzadas. Logo, a ameaça fantasma que é retomada nesse episódio é um dos conceitos que a artista, assumindo em paralelo o roteiro, precisa colocar em prática. E assim, bem sucedida nessa sua empreitada, Angela Kang consegue concretizar uma paranoia enorme entre os moradores das demais comunidades, que, antes mesmo dos créditos surgirem, descobrem uma máscara de morto-vivo entre eles. Por sinal, a escolha de posicionar esse símbolo teoricamente maldoso no meio das crianças brincando é preciosa, pois reforça o que encontra-se em jogo a cada centímetro de território avançado e então desrespeitado: as vidas dos inocentes, como aconteceu antes. Há, posteriormente, o desbravamento de um acampamento com sinais de intromissão de Sussurradores, provocando-nos ainda mais. E outros momentos servem para cimentar o perigo, personificando uma linha, porém, imaginária: o bicho que está noutro lado, uma ponte que separa os territórios e, por fim, aquele satélite que cai justo no espaço dos inimigos.

Em um certo sentido, portanto, o episódio continua o que The Storm, da temporada antecessora, já havia apresentado. Enxerga-se, no entanto, além do horizonte, e não puramente os remendos dos estragos causados no passado. Personagens novos, por exemplo, são introduzidos nesse vai-e-vem entre núcleos – que não precisava, contudo, das legendas imbecis que separam o episódio em capítulos. Negan (Jeffrey Dean Morgan) já encontra-se trabalhando no exterior de sua cela, em oposição a um confinamento absoluto – o que não significa, contudo, o apreço dos moradores de Alexandria, que o olham torto tanto quanto olham Lydia (Cassady McClincy) torto. Eugene (Josh McDermitt), por sua vez, cuida da filha de Rosita (Christian Serratos), mostrando um avanço nos relacionamentos existentes entre esse quarteto “amoroso” – complementado por Siddiq (Avi Nash), o pai, e Gabriel (Seth Gilliam), o namorado. Ezekiel (Khary Payton) parece ter dado novos passos após a queda do Reino – tenta até mesmo impedir Jerry (Cooper Andrews) de o chamar de chefe. Já Aaron (Ross Marquand) não quer mais ser o mocinho de outrora que acabou ficando sozinho. E, em última instância, Carol (Melissa McBride) está participando de missões no mar, à procura de peixes. Para alguém que perdeu um ente querido tão amado, surpreende que ela, ao chegar em terra firme, anseie por novos ambientes, não pela amargura, mediante o assassinato de seu Henry.

Contudo, mesmo que o tempo tenha passado e os personagens queiram seguir em frente, parece que essa contraposição entre o antes e o depois é outra dentre as demarcações tênues exploradas pelo episódio. Ora, no seu término, Alpha (Samantha Morton) surge para Carol, como um fantasma que amaldiçoa o seu sentimento pela renovação – antes, para Daryl (Norman Reedus), a mulher comentava que não queria ir atrás da responsável por uma de suas grandes tristezas recentes. Ao mesmo tempo, Siddiq permanece a sofrer com as memórias de quando era mantido refém pelos Sussurradores, pouco antes do Massacre das Estacas. O episódio – e, portanto, Angela Kang – compreende a necessidade por desenvolvimento, ao passo, entretanto, que o retrocesso é uma ameaça constante. Um dos exemplos disso é Kelly (Angel Theory), precisando se adequar à língua de sinais, enquanto perde cada vez mais a sua audição – outro momento encenado com precisão dramática. Nada seria, por isso, mais justo a esta décima temporada do que começar com os seus personagens principais trabalhando em equipe de uma maneira nunca antes vista, extremamente organizados, como se tivessem esquecido os combates primitivos contra os zumbis. Quando, mais tarde, as árvores se incendeiam por conta do satélite, a criatividade é o cerne das sequências que Greg Nicotero dirige. Que venham, assim sendo, mais mortos inventivos pelas mãos do artista.

The Walking Dead – 10X01: Lines We Cross — EUA, 6 de outubro de 2019
Showrunner: Angela Kang
Direção: Greg Nicotero
Roteiro: Angela Kang
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Calley Fleming, Melissa McBride, Josh McDermitt, Christian Serratos, Seth Gilliam, Ross Marquand, Khary Payton, Cooper Andrews, Traci Dinwiddie, Callan McAuliffe, Kerry Cahill, Rhys Coiro, Avi Nash, Matt Mangum, Aaron Farb, Mimi Kirkland, Briana Venskus, Mandi Christine Kerr, Jennifer Riker, Jeffrey Dean Morgan, Eleanor Matsuura, Nadia Hilker, Dan Fogler, Lauren Ridloff, Cassady McClincy, Samantha Morton, Ryan Hurst, John Finn, Alex Sgambati, Juan Javier Cardenas
Duração: 60 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.