Crítica | The Walking Dead – 10X03: Ghosts

“Meu pai não era caminhoneiro.”

  • Observação: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-offFear the Walking Dead.

Há uma competência de Angela Kang em principiar senso de ameaça aos seus personagens que não era tão presente assim no comando de Scott M. Gimple – ao menos nas temporadas sete e oito. Já nesse caso, quando o terceiro episódio do ano dez da série começa, constrói-se uma rotina exaustiva de combate contra os mortos, que rapidamente se revela como ação dos Sussurradores, em retaliação à invasão do espaço deles. Pode não parecer a medida mais aterrorizante possível, mas cansar os sobreviventes da série é uma opção certeira de Kang, que consegue renovar certas interações justamente pelo nervo dos seus integrantes estarem à flor da pele agora, assim como instaurar o pensamento de que o grupo de Alpha (Samantha Morton) é sim perigoso, em vários escopos possíveis. A montagem do início do episódio atravessa hora a hora com cada vez mais impaciência, exemplificando bem o cansaço dos moradores de Alexandria em terem que enfrentar hordas de andarilhos continuamente. Com a quebra de expectativas, contudo, na qual Michonne (Danai Gurira) por um momento pensa que pode enfim descansar, é que a tragédia daqueles que não podem mais cerrar seus olhos sem temer os fantasmas sussurrantes se concretiza. Mesmo com os Sussurradores não sendo mais nenhuma novidade para os espectadores, eles continuam a serem ameaças boas o bastante para suscitarem pesadelos, memórias e medos nos personagens.

Enquanto novas imposições do grupo de Alpha são postas em pauta, esse episódio, em termos de enredo, prioriza mostrar as consequências do terrorismo dela e seus seguidores nos moradores de Alexandria e demais comunidades. Em contrapartida a um prosseguimento narrativo grandioso que caminhasse para além de uma passagem de tempo mais modesta, o horror particular a camadas menores do conjunto é explorado. Prefere-se contemplar as consequências do estresse emocional em uma dimensão considerável de personagens, o que, mais uma vez, concilia coerentemente a trama da temporada e seu terreno mais superficial com os dramas particulares dos coadjuvantes e dos protagonista. Por exemplo, após Michonne, Daryl (Norman Reedus) e Carol (Melissa McBride) irem de encontro à Alpha, para ouvir explicações da antagonista da série acerca destas hordas de mortos incessantes que apareceram para eles, Kang rejeita maiores elipses de tempo. No lugar, a jornada de volta à casa de tais personagens é retratada, realçando os impactos diretos destes inimigos aos nossos heróis. No caso, ao passo que Michonne e Daryl não têm tanto protagonismo, Carol, por sua vez, mesmo não sendo o único enfoque do episódio, é o seu verdadeiro centro das atenções. Com ela, norteia-se um sentimento de paranoia que ultrapassa um cenário mais objetivo, dos vilões estarem à espreita ou não, pois chega às incertezas dos personagens consigo mesmos.

Por conta da raiva intrínseca à mulher, em vista do assassinato de Henry, Carol quase consegue matar Alpha no encontro supracitado, por sinal. Enerva-se ainda mais as tensões em jogo – que já estavam bem aguçadas pela noção de que os Sussurradores sabiam de todas as vezes que os personagens principais atravessaram o território deles, insinuando uma onipresença dos inimigos. No mais, a sua privação de sono acaba gerando, como perceberemos, visões de entes queridos mortos. Como, portanto, acreditar nos relatos de Carol de que os Sussurradores estavam vigiando eles – ou seja, atravessando o espaço traçado no arco re-combinado? Por exemplo, depois de uma conversa íntima entre os dois, o melhor momento do episódio traz Daryl revelando à Carol que seu pai não era caminhoneiro, como antes dissera. Angela Kang consegue, com isso, redefinir as percepções de mundo dos personagens em paralelo com a imposição do cansaço deles. Os cortes são pouco confiáveis e, assim sendo, as cenas também são. Dá até para inferir uma lógica de pesadelo para momentos como o que Carol encontra um Sussurrador na quadra de basquete e, por consequência, precisa exterminar uma gigantesca quantidade de zumbis para não morrer. Na maneira como David Boyd encena essa ocasião, a ameaça surge como uma presença de fato perigosa e quase mística – no caso, enquanto a personagem de McBride encontra-se a sua mercê.

O corte nessa sequência, por sinal, novamente corrobora com a paranoia geral, e uma atmosfera de terror crua. Bem mais que trazer conexões emocionais sensíveis ou uma trama que importa, Kang precisa ser prestigiada pelo seu interesse em readequar o gênero original da série como uma prioridade. Fora os Sussurradores mostrando ser ameaças de horror dignas dos grandes clássicos, a sua mente criativa consegue pensar complicações que casam drama com momentos assim. Corroborando com isso, além do núcleo de Carol, Aaron (Ross Marquand) e Negan (Jeffrey Dean Morgan) também precisam resolver suas rixas mútuas, impulsionadas, como todos os casos, pelos ataques recentes de mortos-vivos. Numa hora, a cegueira temporário de Aaron ajuda a apimentar o impasse, assim como movimentar um desenvolvimento de arco. Siddiq (Avi Nash), por outro lado, possui seus fantasmas sendo reiterados por lembranças do passado, de quando foi refém de Alpha e cia e assistiu seus amigos morrerem. No que tange a isso, Dante (Juan Javier Cardenas), novo médico de Alexandria previamente apresentado, é usado bem para auxiliar no drama tão próprio a este personagem. Já Eugene (Josh McDermitt), por último, ouve algumas verdades complicadas, mas verdades ainda assim. Nesse sentido, apesar do texto precisar reiterar expositivamente que o psicológico dos sobreviventes encontra-se prejudicado – ora ou outra comenta-se o quão cansados eles estão -, ao menos, o roteiro consegue tratar de vários arcos sem se repetir e mostrar cansaço.

The Walking Dead – 10X03: Ghosts — EUA, 20 de outubro de 2019
Showrunner: Angela Kang
Direção: David Boyd
Roteiro: Jim Barnes
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Cailey Fleming, Christian Serratos, Josh McDermitt, Ross Marquand, Seth Gilliam, Jeffrey Dean Morgan, Cassady McClincy, Avi Nash, Lindsley Register, Antony Azor, Juan Javier Cardenas
Duração: 45 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.