Crítica | The Walking Dead – 10X04: Silence the Whisperers

De certa maneira, não há muita coisa de errado na condução de Angela Kang para essa décima temporada, a segunda no seu comando. Em termos gerais, boas ideias continuam a despontar na série, a começar pela paranoia social gerada por conta da aparição dos Sussurradores. Dessa vez, os zumbis conseguem invadir Hilltop por conta de uma árvore caída, mas os moradores da comunidade suspeitam que o grupo antagonista tenha planejado isso. Já em Alexandria o caos possui co-relação com a antipatia de certos habitantes do local pela ex-Sussurradora, Lydia (Cassady McClincy), o que acaba culminando numa agressão destes à garota, gravemente machucada. Ela, no entanto, é resgatada derradeiramente por Negan (Jeffrey Dean Morgan), que, por sua vez, acidentalmente mata uma das agressoras de Lydia. Uma pena tudo ser tratado, antes da tragédia culminante, de modo ingênuo, como se houvesse um bullying juvenil partindo de adultos para uma mera adolescente – é complicado comprar as investidas agressivas daqueles antipáticos à menina. O que existia de conteúdo principiado por estas curiosas dinâmicas, no entanto, é executado de maneira equivocada, por um episódio que troca dramas sérios por uma pressa insensível.

Dói ter que apontar isso, mas a direção de Michael Cudlitz, o eterno Abraham Ford da própria série, é problemática. Ele não consegue encenar situações dramáticas básicas, como o confronto emocional do Rei Ezekiel (Khary Payton), que encontra-se à beira do suicídio, em vista da perda de inúmeras coisas em sua vida. Em primeiro lugar, a interação do personagem com Michonne (Danai Gurira) soa abrupta e a resolução do impasse se encerra rapidamente. Em contrapartida, até que Jeffrey Dean Morgan é melhor aproveitado pelo diretor, que sabe como posicionar o personagem em cena com Lydia – e, na parte do roteiro, a reviravolta criada é excelente. O problema é que uma crise como essa, na qual Negan retorna a ser o centro das atenções da comunidade, perde um pouco de enfoque. Kang conseguiria aproveitar melhor a trama em questão em um episódio singular.

Fora isso, a montagem também é um equívoco, vide os momentos compostos por uma música de ilustração – expositiva, para deixar mais transparente a reclamação -, presentes no começo e no término do episódio. Lá, cenas se entrecortam de maneira piegas, principalmente por pouca coisa em termos de conteúdo ser bem executada no decorrer do capítulo. O mais significativo dos problemas, contudo, reside na incapacidade dos vários núcleos apresentados respirarem de maneira ritmada, sem que nenhum seja sufocado por outro. O segmento entre Ezekiel e Michonne, por exemplo, resolve-se em questão de minutos, enquanto poderia ter sido alongado, para dar espaço a uma coesão interna do episódio em relação a demais tramas. No mais, cenas pequenas transparecem essa desconjuntura, como quando Daryl aparece do nada para Lydia e Negan, em um corte mal-executado. Já os confrontos contra hordas de zumbis são vencidos em um piscar de olhos, apesar da sugestão ser pelo caos iminente. Do que se trata realmente, em uma última instância, o núcleo envolvendo Magna (Nadia Hilker) e Yumiko (Eleanor Matsuura)? Os problemas envolvendo a personagem são aleatórios e não causam impacto algum, provenientes de um roteiro que precisa encaixar a mulher na narrativa, mas sem ser criativo o bastante para isso.

De qualquer forma, o episódio se sobressai em conseguir executar algo interessante para o personagem de Norman Reedus, Daryl, que encontra-se cuidando de Lydia e precisando ser uma figura paterna para a garota. Numa das conversas entre eles, a menina cita o seu pai, e como ele a protegeria dos males que hoje enfrenta. O que Michonne aponta para Daryl em uma conversa por rádio, no mais, é muito instigante e complexo, porque tange a necessidade da garota de se sentir em casa em Alexandria, para não provocar a ira de Alpha, sua mãe. Quiçá, portanto, tivesse sido o próprio Dixon quem resgatou Negan da sua cela – imagens do próximo capítulo, porém, já adiantam que esse não foi o caso. Ainda que o quarto episódio dessa décima temporada tenha sido, por essas e outras razões, um grande desvio em relação a qualidade apresentada por Kang nos vinte capítulos que já entregou sob o seu comando, a esperança ainda resiste. Há valor nos caminhos pensados pela showrunner, que parecem, nesse exato momento, se aproximar da adaptação de um dos eventos mais importantes relacionados a Negan.

The Walking Dead – 10X04: Silence The Whisperers— EUA, 27 de outubro de 2019
Showrunner: Angela Kang
Direção: David Boyd
Roteiro: Jim Barnes
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Cailey Fleming, Christian Serratos, Josh McDermitt, Ross Marquand, Seth Gilliam, Jeffrey Dean Morgan, Cassady McClincy, Avi Nash, Lindsley Register, Antony Azor, Juan Javier Cardenas
Duração: 45 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.