Crítica | The Walking Dead – 10X05: What It Always Is

“Eu vou bufar. Eu vou soprar.”

  • Observação: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-offFear the Walking Dead.

Como showrunner, Angela Kang restaurou virtudes que pareciam estar perdidas em The Walking Dead, após equívocos cometidos por Scott M. Gimple. Em primeiro lugar, o horror voltou a ser uma prioridade para o seu comando, retornando após temporadas nas quais a ação ganhara um espaço que não merecia. A própria confrontação aos mortos resgatou a nojeira de antes, como podemos notar em momentos daqui, visivelmente espirituosos no que tange à maquiagem e às próteses. Já o drama humano voltou a ser executado com qualidade, por parte de uma construção narrativa que investiu em textos convincentes e não se redundou como acontecia anteriormente. Nos momentos mais expressivos da série até o momento, portanto, ambas as iniciativas de Kang conseguiram estabelecer momentos impressionantes do show, como a primeira aparição dos Sussurradores e suas posteriores. Logo, quando mistura-se a tensão proveniente do gênero da série com os arcos narrativos dos personagens, os resultados são impulsionados pela capacidade dramática do terror. Ora, logo a primeira cena do quinto episódio dessa décima temporada traz Kelly (Angel Theory) precisando lidar com a sua perda auditiva progressiva, enquanto, ao mesmo tempo, zumbis se aproximam dela, mas sem a mulher notar. Mesmo que não seja o drama mais profundo da série, é curioso como, a partir de premissas simples, podem-se renovar os enredos de The Walking Dead.

Para um episódio que preocupa-se com os arcos pessoais de seus personagens – o que nunca foi esquecido pela série, porém, -, a sua execução ao menos não copia as repetições de Gimple. Negan (Jeffrey Dean Morgan), pelas mãos de Kang, tornou-se um personagem muito mais crível que a caricatura transportada das páginas de um quadrinho para a televisão, de quando o showrunner anterior era quem comandava. Nesse episódio, a escapada de Alexandria do ex-antagonista – não se sabe ainda quem soltou o personagem – é acompanhada por um resgate do seu passado, que concilia perfeitamente com o drama do homem. Conversa bastante com a perspectiva da nossa realidade, por sinal, o olhar perturbado de Brandon (Blaine Kern III) para Negan, enxergando o antigo chefe dos Salvadores como uma pessoa a ser cultuada. O core do personagem é revisado, no caso, ao passo que Brandon observa o seu ídolo como um símbolo que ele, na verdade, não é em essência. Que irritante é essa visão imbecilizada do garoto – por sinal, muito bem escalado – acerca dos confrontos do passado, que o jovem nem realmente viveu. Por conta de como as interações entre os dois caminham, a conclusão, por fim, é até previsível, sem alcançar completamente uma carga dramática – um episódio standalone quiçá ajudaria. Mesmo assim, com o pouco tempo que tem, Kang dá espaço para o bom roteiro de Eli Jorne principiar uma excelente conversa de Negan com o garoto que resgata, imprimida com sinceridade.

Depois de uma enorme fragilidade no âmbito do texto ter prejudicado os dramas dos personagens, os diálogos da série passam por uma de suas melhores fases. Por exemplo, a revelação acerca do câncer de Ezekiel (Khary Payton) é um destaque do capítulo, numa conversa com Siddiq (Avi Nash), também com seus problemas, que é revestida de verdade. Sem soar piegas ou abrupto demais, o personagem do Rei é redefinido por esta notícia chocante, que combina, novamente, com as percepções criativas que a série está tendo para pensar esse pós-apocalipse nos seu detalhes – vide o satélite que cai no primeiro episódio. Enquanto antes o Rei parecia estar suicida pelas razões que já conhecíamos – a perda de vários entes queridos -, Kang consegue resgatar um vínculo do espectador com o personagem por meio de tal reviravolta, que acrescenta nuances à dor de Ezekiel. Mas é a cena conclusiva de Negan que exemplifica o bom trabalho de Kang, revivendo aquele personagem de outrora, mas de uma maneira bem mais impactante que os monólogos entediantes do passado. E as expectativas para o embate presente nos quadrinhos entre ele e Alpha (Samantha Morton) não param de crescer, ao passo que Negan se depara com Beta (Ryan Hurst) no término. Embora exista a pressa por uma instância em se chegar a tal ponto, Angela, por outro lado, não para de renovar, mesmo nas minúcias, os status quo dos personagens.

O que acontece entre os tais Sussurradores, no mais, trata justamente desse ímpeto narrativo de Kang, que em pouco tempo retrabalha as dinâmicas entre tais antagonistas e os povos de demais comunidades. Lá, os planos dos vilões soam ameaçadores e parte de Gamma (Thora Birch) e o enfoque dado à personagem a nossa descoberta de que a água de Alexandria encontra-se sendo contaminada – o que o capítulo brevemente incita ao apontar o adoecimento de Rosita. Mesmo assim, o episódio avança sobre esta informação para já iniciar novas possibilidades dramáticas, por conta da interação da personagem com Aaron (Ross Marquand), bem rápida, mas igualmente precisa e instigante. No que tange rapidez auxiliada à qualidade, a aproximação de Daryl (Norman Reedus) à Connie (Lauren Ridloff) é notória em conversas, novamente, bem escritas – e bem encenadas também, pois há a barreira linguística entre estes personagens que é ultrapassada pelo carisma e química entre os dois. Até mesmo Magna (Nadia Hilker) consegue ser bem tratada pelo roteiro, por conta de uma cena entre ela e Yumiko (Eleanor Matsuura) que consegue contextualizar melhor as motivações da personagem e o que ela está sofrendo agora – continua a soar aleatório demais este enfoque, mas há virtudes aqui que o episódio anterior não possuía. Por isso, apesar de imperfeita, o que a série, em sua décima temporada, tem a oferecer é incrivelmente refrescante.

The Walking Dead – 10X05: What It Always Is — EUA, 3 de novembrode 2019
Showrunner: Angela Kang
Direção: Laura Belsey
Roteiro: Eli Jorne
Elenco: Norman Reedus, Ross Marquand, Jeffrey Dean Morgan, Avi Nash, Khary Payton, Samantha Morton, Ryan Hurst, Thora Birch, Lauren Ridloff, Angel Theory, Blaine Kern III, John Finn, Nadia Hilker, Eleanor Matsuura, Callan McAuliffe
Duração: 45 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.