Home TVEpisódio Crítica | The Walking Dead – 10X07: Open Your Eyes

Crítica | The Walking Dead – 10X07: Open Your Eyes

por Gabriel Carvalho
235 views (a partir de agosto de 2020)

“Feche seus olhos.”

  • Observação: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-offFear the Walking Dead.

Por uma margem muito expressiva, os confrontos envolvendo os Sussurradores mostram ser mais interessantes que aqueles precedentes relacionados à gangue de Negan. O penúltimo episódio da primeira metade dessa temporada, no caso, prova isso ao conseguir sustentar a sua trama sem precisar colocar as comunidades inteiras uma contra a outra. Não existem tiroteios que consigam provocar um senso maior de ameaça que a possibilidade dos inimigos virem de dentro, ocultos em meio a uma sensação de segurança, como acontece com a água contaminada. Do outro lado da moeda, a revelação à Gamma (Thora Birch) de que Lydia (Cassady McClincy) está viva torna-se também uma jogada inteligente que possivelmente ocasionará numa ruptura ideológica dentre os mascarados. Os ataques são incessantes, assim como são os contra-ataques. Mesmo que sejam aparentemente tão pequenos, eventos assim permanecem a ser relevantes o bastante pra animar os espectadores de que grandes consequências podem ser causadas por eles. Estrategicamente, Angela Kang mexe as peças desse jogo de xadrez de maneira mais inspirada que Scott M. Gimple em oportunidades anteriores. E assim uma “Guerra Fria” entre os protagonistas e os antagonistas continua, explorando terrenos internos e reviravoltas que surgem onde menos se esperaria que surgissem, sem que um campo aberto e combates precisem existir para que as perdas aconteçam.

Depois de comandar o pior episódio da temporada, Michael Cudlitz, que se eternizou no papel de Abraham Ford, retorna para se redimir nesse que é, em contrapartida ao outro, o melhor episódio da temporada – pelo menos até o momento. No que se refere a sua direção, o caráter de horror que emprega é muito perceptível nas alucinações de Siddiq (Avi Nash), as quais são reiteradas e, mais que isso, agravadas por uma montagem que encaminha o psicológico do personagem a um extremo. Em termos de gênero, por sinal, a série está conseguindo usar elementos assustadores que vão além dos mortos-vivos em si, por conta de uma temporada que explora os arcos narrativos dos personagens e seus problemas de maneiras criativas. Nesse ano, o terror muitas vezes surge em vista de mentes instáveis, como exemplifica Carol (Melissa McBride), em episódios passados, vendo coisas que não existiam. Já em termos dramáticos o resultado não é muito díspar, porque, apesar de poucas cenas, certos vínculos emocionais são bem ajeitados, pois esse episódio é um preparativo para a morte surpresa de Siddiq. O acontecimento é uma enorme tragédia, em especial quando o personagem tem uma conversa extremamente franca com Rosita (Christian Serratos) momentos antes, quase sugerindo uma conclusão otimista para o seu impasse. Embora um pouco repetitivos, os seus traumas ganham um apelo a mais por conta da sua relação paternal com Coco.

Bem mais que abrir os olhos como Alpha (Samantha Morton) ordenava, para que testemunhasse o massacre de seus amigos, Siddiq precisava abrir seus olhos para enxergar a verdade por trás das aparências. É com base num sentimento de paranoia que, por fim, o episódio movimenta a sua grande peça contra o espectador: a revelação de que Dante (Juan Javier Cardenas) era um espião dos Sussurradores. Em primeiro lugar, a descoberta é inesperada por conta da personalidade do infiltrado, carismático. Com isso, a cena do assassinato do pai da filha de Rosita ganha camadas extras, justamente pela ação de Dante soar desesperadora e não meramente maligna. Angela explora bem as contradições entre o grupo nômade de mascarados e o paraíso no apocalipse dos mocinhos, ao passo que Gamma, Dante, Lydia e até mesmo o recém-prisioneiro desse episódio vivenciam quebras de realidade. O próprio plano de Carol possui relação com isso, na ocasião de tentar trazer o Sussurrador capturado – no último capítulo – para o seu lado enquanto o alimenta com coisas que ele provavelmente nunca mais pensaria comer – por exemplo, geleia. Noutro momento, Gamma se interessa pela produção de pão em Alexandria. No entanto, a coesão do enredo do episódio se concretiza por misturar uma trama com outra. Dante é justo o responsável por matar esse Sussurrador – impedindo, caso descobrisse a verdade sobre Lydia, a sua deserção.

Fora isso tudo, Angela Kang é igualmente certeira ao conseguir unir as tramas particulares de seus personagens ao grande enredo da temporada. Gamma evolui como personagem, por exemplo, ao mesmo passo que uma crise entre os Sussurradores anuncia-se. Já Siddiq morre e conclui o seu arco relacionado ao trauma com os Sussurradores, porém, em conjunto com a revelação de que Dante era um inimigo esse tempo todo. E até mesmo Carol tem um pouco disso nesse episódio, por conta da comparação que Lydia cria entre ela e sua mãe, após a mulher manipular a menina – em um ataque de nervos juvenil compreensível, contudo, não tão convincente assim. No caso, o paralelismo entre as duas existe desde o começo da temporada, quando elas se observaram à distância. No mais, apenas Aaron (Ross Marquand) encontra-se verdadeiramente perdido no que tange suas motivações e seu arco narrativo. E aquela história dele parar de ser bonzinho e assumir uma vertente sua obscura? Mesmo assim, as interações entre ele e Gamma são excelentes, dado que não se possui plena noção da transformação que está acontecendo na personagem, se é que existe uma transformação. As perguntas que a remete a sua irmã e a sua sobrinha entram no momento certo, porque o texto, para se reiterar esse aspecto da temporada vigente e também da passada, permanece competente. Kang, portanto, continua acertando onde Gimple, outrora, errou.

The Walking Dead – 10X07: Open Your Eyes — EUA, 17 de novembro de 2019
Showrunner: Angela Kang
Direção: Michael Cudlitz
Roteiro: Corey Reed
Elenco: Norman Reedus, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Cassady McClincy, Seth Gilliam
Duração: 45 min.

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33 comentários

Carlos Faria 20 de novembro de 2019 - 16:47

Nos comentários do ep passado houve quem escreveu que o ruim é que a série estava ligada demais com o desenvolvimento dos quadrinhos. Quem leu os quadrinhos sabe quem é o personagem Dante, um morador comum de Hilltop sem ligação com os Sussurradores. Isso quer dizer que com o final desse episódio fomos surpreendidos novamente!

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Gabriel Carvalho 25 de novembro de 2019 - 00:17

Exatamente. Gosto dessa jogada de usar nomes de personagens que os leitores dos quadrinhos já conhecem, mas criar outros completamente diferentes. Até porque o Dante das HQs nada tem a ver com esse, em razão da ausência de Maggie.

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Mr.L 19 de novembro de 2019 - 20:16

Que ep meus amigos, essa paranóia do Sidiq nesse episódio foi tão bem construída, que por um momento eu achei que ele tinha pirado e ia atacar o dante pensando que era um sussurrador, coisa que o infeliz se mostrou ser. As expectativas pra mid season tão no alto.

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Gabriel Carvalho 25 de novembro de 2019 - 00:17

Há uma sensação de que tudo não se passa de um pesadelo que permeia alguns dos melhores momentos da série, tipo quando o Noah morreu, na quinta temporada,tipo quando o Glenn “morreu”, na sexta temporada, e quando ele enfim morreu na sétima. Negócio que não parece que está acontecendo de verdade.

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Beatrix Kiddo 19 de novembro de 2019 - 19:27

Se o aeron viu a gama poluindo o rio e nesse episodio ele estava com pão fresco quer dizer que ele foi pra Alexandria e não avisou que água tava pode, grupo da magda a michone ficou relutante em abrigar em Alexandria é dante entrou facil lá, a lydia não conhecer o dante e a devoção dele mesmo sabendo que a lydia está viva e no minimo questionável.
Nesse episodio as pontas deixadas ao decorrer da temporada ficaram mais evidentes e o ep ser construído com contrapontos foi sensacional, porém ainda acho o 10×06 melhor ep.
Ps: Fiquei chocada em saber que eles tinha mel!

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Gabriel Carvalho 25 de novembro de 2019 - 00:30

Isso ficou confuso mesmo… Mas a questão é que a água com restos de zumbi, pelo que entendi, nunca foi destinada para as pessoas beberem, mas se banharem, limparem o rosto e etc. Poluir ela não tem problema, pois não é para ingerir. Porém, Dante mudou isso, trocando a água potável pela não-potável, que, fora doenças normalmente causadas pelo seu consumo, foi potencializada com os restos de gente morta.

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Gabriel Carvalho 18 de novembro de 2019 - 23:17

Esqueci de comentar isso na crítica, mas achei um pouco curioso demais que a Lydia não tenha reconhecido o Dante. Espero que expliquem essa questão.

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Tecnologia Office Contábil 19 de novembro de 2019 - 13:54

Ele pode ter ingressado no grupo após a saída da Lydia.

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Gabriel Carvalho 24 de novembro de 2019 - 17:36

Pode ser.

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Gabriel Carvalho 25 de novembro de 2019 - 00:17

Isso.

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Rômulo Estevan 19 de novembro de 2019 - 14:01

Simples, nem todos os sussurradores tiram suas máscaras, Ou a Lydia não o conhecia mesmo, afinal devem ter muitos.

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Gabriel Carvalho 24 de novembro de 2019 - 17:36

É verdade.

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Rômulo Estevan 18 de novembro de 2019 - 22:58

Essa série tá foda demais, consegue ter aquele clima melancólico e tenso em diversos momentos, sem contar este roteiro bem escrito que te faz pensar bastante no que vê e ouve.

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Gabriel Carvalho 25 de novembro de 2019 - 00:30

The Walking Dead está sendo justa com quem passou pelos baixos da série.

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Huckleberry Hound 18 de novembro de 2019 - 22:38

Meu comentário foi excluido como spam?Como assim é algo que falei?

Responder
Gabriel Carvalho 25 de novembro de 2019 - 00:30

Acontece, my Huckleberry friend.

Responder
Rafaella Reis Tavares 18 de novembro de 2019 - 20:43

Voces poderiam fazer uma critica sobre o livro,Arma Escarlate?

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Gabriel Carvalho 18 de novembro de 2019 - 23:12

Olá, Rafaella. Irei repassar o seu pedido para os demais redatores. Abraços!

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Max James 18 de novembro de 2019 - 20:23

Adorei a reviravolta no fim. Fiquei torcendo pro Siddiq, mas não deu. Isso mostra como a décima temporada vem conseguindo manter a mesma qualidade da nona, então agora só nos resta esperar um mid-season finale primoroso também!

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Gabriel Carvalho 18 de novembro de 2019 - 23:12

Assim espero! Mas pelo menos já achei a morte do Siddiq mais impactante que a do Jesus, mesmo sendo Siddiq um personagem pouco querido dentro da comunidade de TWD.

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Huckleberry Hound 18 de novembro de 2019 - 19:48

Fiquei com pena do Siddiq véi ele morreu aterrorisado seja o que for que Dante pense de si mesmo se acha que foi mesmo um amigo pra Siddiq eu acho ele só um doente depravado se ele sente alguma coisa é distorcido assim como Alpha que parece manipular um monte de pessoas com mente fraca!

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CJ 18 de novembro de 2019 - 19:37

Bom ver uma crítica bem escrita ponderando o que realmente importa, o roteiro, que pode não ser perfeito, mas também não é ruim, infelizmente o que mais vemos são comentários que se repetem em todas temporadas, como enrolação, encheção de linguiça etc
Está cada dia mais chato comentar sobre TWD na internet, pois eu particularmente não sei o que as pessoas esperam da série após todo esse tempo.
Angela Kang tirou leite de pedra, com tudo jogando contra, a série sem Rick, Carl, Maggie e com Michonne prestes a sair ainda temos uma história interessante, muito melhor que nas temporadas do Negan onde chegou a ficar de fato massante e pobre, hoje não precisamos de tiroteios pois já vimos que isso não segura uma temporada e sim episódios bem escritos.

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Rômulo Estevan 18 de novembro de 2019 - 21:48

99,99% das pessoas que fala mal da série hoje em dia, pode ter certeza que não viram nenhum episódio da 9 temporada e muito menos da 10.

Responder
CJ 19 de novembro de 2019 - 13:54

Pois é, parece ex que não supera o término de namoro 😂😂

Responder
Rômulo Estevan 19 de novembro de 2019 - 17:56

Exatamente, e digo mais TWD vai ter mais 2 temporadas e vai finalizar, e acredito que será algo incrível que vai ligar diretamente no último filme da trilogia do Rick Grimes.

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Gabriel Carvalho 18 de novembro de 2019 - 23:12

Obrigado pelos elogios, CJ. Eu acho que esse roteiro foi muito bem escrito, e a direção que a Angela Kang está dando para a série tem uma coesão muito legal. Claro que não é perfeito, pois existem problemas pontuais, mas gosto de ver quando algo é bem pensado.

Pelo menos aqui no Plano Crítico, na sessão de comentários, a galera está gostando. Pode trazer mais gente de outras comunidades para cá, que eu dou um jeito de tentar convencê-las que TWD está muito boa! KKKKKKKKK

Abraços, e volte sempre!

Responder
CJ 19 de novembro de 2019 - 13:54

Estou gostando muito também, hoje eu vejo que sempre tentam colocar algo que agregue a trama principal em todos os episódios, mesmo que mais lentos, mas que no fim acabará sendo importante para a trama central, antes era praticamente as Finales e Premieres que importavam, enquanto o resto era meio arrastado com episódios focando em um núcleo ou personagem apenas, e em personagens que não tinham grande apelo do público, Siddiq não era o favorito da audiência mas nunca ganhou um episódio só dele como Eugene e Tara por exemplo, mesmo que personagens menores tenham destaque os outros não ficam mais de lado.
Estou gostando bastante do desenvolvimento de Angela Kang, fora que ela tinha pegado uma bomba.
Em relação aos comentários, aqui eu vejo que a galera gosta mesmo, mas em outros lugares parece que quem deixou de assistir a série mais cedo ganha um prêmio kkkk.
Abraços.

Responder
Gabriel Carvalho 24 de novembro de 2019 - 17:36

Traz essas pessoas para cá então, que converteremos ela.

Outra coisa que estou achando essencial para o sucesso dessa temporada é o horror. Até mesmo nas visões do Siddiq, o gênero era parte, ajudando a construir drama, mas ao mesmo tempo tensão. Tem mais disso na season finale, que já assisti e lançarei a crítica o mais rápido possível.

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Douglas Gomes 18 de novembro de 2019 - 23:17

você por aqui, meu aliado? Também curte sites de críticas?

concordo contigo. Grande parte do público se acostumou com o gráfico qualitativo do Gimple. Ele sempre começava uma temporada lá no alto, querendo ser melhor a cada renovação. Infelizmente, esse costume se espelha na antecipação do público, hoje em dia, por ação e matança a quase todo momento.

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CJ 19 de novembro de 2019 - 13:41

Esse site é o que eu mais acompanho, à uns 3 anos mais ou menos, gosto bastante das críticas daqui e gosto de ver opiniões em relação a série de outros lugares também.
Realmente, as pessoas se acostumaram com aquela fórmula, que foi boa por um tempo, mas acabou ficando manjado, mas até naquela época tinham os mesmos comentários, não sei se é porque a série tem zumbis que as pessoas esperam sempre o pack padrão de histórias de zumbis, mas se esquecem que nenhuma história com zumbis se manteve tanto tempo na TV, mortes, lutas, tiroteios ficam massantes com o tempo, principalmente se usado sempre, então o que vale mesmo é o roteiro, coisa que as pessoas não parecem ligar tanto.
Jamais uma série de zumbis durou tanto tempo, se TWD tivesse ação forçada, mortes todo episódio, e todas as outras coisas que as pessoas pedem, provavelmente já teria sido cancelado, o que faz essa história ser diferente das outras da mesma temática é o enredo mais dramático e mais humano em relação aos personagens.

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Anônimo 20 de novembro de 2019 - 03:48
Responder
Huckleberry Hound 19 de novembro de 2019 - 01:38

Meu comentário foi excluido como spam?Como assim é algo que falei?

Responder
planocritico 19 de novembro de 2019 - 01:38

Foi o Disqus automaticamente. Não sabemos a razão. Já detectamos isso outras vezes com comentaristas diferentes. Já aprovei tudo.

Abs,
Ritter.

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