Crítica | The Walking Dead – 10X07: Open Your Eyes

“Feche seus olhos.”

  • Observação: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-offFear the Walking Dead.

Por uma margem muito expressiva, os confrontos envolvendo os Sussurradores mostram ser mais interessantes que aqueles precedentes relacionados à gangue de Negan. O penúltimo episódio da primeira metade dessa temporada, no caso, prova isso ao conseguir sustentar a sua trama sem precisar colocar as comunidades inteiras uma contra a outra. Não existem tiroteios que consigam provocar um senso maior de ameaça que a possibilidade dos inimigos virem de dentro, ocultos em meio a uma sensação de segurança, como acontece com a água contaminada. Do outro lado da moeda, a revelação à Gamma (Thora Birch) de que Lydia (Cassady McClincy) está viva torna-se também uma jogada inteligente que possivelmente ocasionará numa ruptura ideológica dentre os mascarados. Os ataques são incessantes, assim como são os contra-ataques. Mesmo que sejam aparentemente tão pequenos, eventos assim permanecem a ser relevantes o bastante pra animar os espectadores de que grandes consequências podem ser causadas por eles. Estrategicamente, Angela Kang mexe as peças desse jogo de xadrez de maneira mais inspirada que Scott M. Gimple em oportunidades anteriores. E assim uma “Guerra Fria” entre os protagonistas e os antagonistas continua, explorando terrenos internos e reviravoltas que surgem onde menos se esperaria que surgissem, sem que um campo aberto e combates precisem existir para que as perdas aconteçam.

Depois de comandar o pior episódio da temporada, Michael Cudlitz, que se eternizou no papel de Abraham Ford, retorna para se redimir nesse que é, em contrapartida ao outro, o melhor episódio da temporada – pelo menos até o momento. No que se refere a sua direção, o caráter de horror que emprega é muito perceptível nas alucinações de Siddiq (Avi Nash), as quais são reiteradas e, mais que isso, agravadas por uma montagem que encaminha o psicológico do personagem a um extremo. Em termos de gênero, por sinal, a série está conseguindo usar elementos assustadores que vão além dos mortos-vivos em si, por conta de uma temporada que explora os arcos narrativos dos personagens e seus problemas de maneiras criativas. Nesse ano, o terror muitas vezes surge em vista de mentes instáveis, como exemplifica Carol (Melissa McBride), em episódios passados, vendo coisas que não existiam. Já em termos dramáticos o resultado não é muito díspar, porque, apesar de poucas cenas, certos vínculos emocionais são bem ajeitados, pois esse episódio é um preparativo para a morte surpresa de Siddiq. O acontecimento é uma enorme tragédia, em especial quando o personagem tem uma conversa extremamente franca com Rosita (Christian Serratos) momentos antes, quase sugerindo uma conclusão otimista para o seu impasse. Embora um pouco repetitivos, os seus traumas ganham um apelo a mais por conta da sua relação paternal com Coco.

Bem mais que abrir os olhos como Alpha (Samantha Morton) ordenava, para que testemunhasse o massacre de seus amigos, Siddiq precisava abrir seus olhos para enxergar a verdade por trás das aparências. É com base num sentimento de paranoia que, por fim, o episódio movimenta a sua grande peça contra o espectador: a revelação de que Dante (Juan Javier Cardenas) era um espião dos Sussurradores. Em primeiro lugar, a descoberta é inesperada por conta da personalidade do infiltrado, carismático. Com isso, a cena do assassinato do pai da filha de Rosita ganha camadas extras, justamente pela ação de Dante soar desesperadora e não meramente maligna. Angela explora bem as contradições entre o grupo nômade de mascarados e o paraíso no apocalipse dos mocinhos, ao passo que Gamma, Dante, Lydia e até mesmo o recém-prisioneiro desse episódio vivenciam quebras de realidade. O próprio plano de Carol possui relação com isso, na ocasião de tentar trazer o Sussurrador capturado – no último capítulo – para o seu lado enquanto o alimenta com coisas que ele provavelmente nunca mais pensaria comer – por exemplo, geleia. Noutro momento, Gamma se interessa pela produção de pão em Alexandria. No entanto, a coesão do enredo do episódio se concretiza por misturar uma trama com outra. Dante é justo o responsável por matar esse Sussurrador – impedindo, caso descobrisse a verdade sobre Lydia, a sua deserção.

Fora isso tudo, Angela Kang é igualmente certeira ao conseguir unir as tramas particulares de seus personagens ao grande enredo da temporada. Gamma evolui como personagem, por exemplo, ao mesmo passo que uma crise entre os Sussurradores anuncia-se. Já Siddiq morre e conclui o seu arco relacionado ao trauma com os Sussurradores, porém, em conjunto com a revelação de que Dante era um inimigo esse tempo todo. E até mesmo Carol tem um pouco disso nesse episódio, por conta da comparação que Lydia cria entre ela e sua mãe, após a mulher manipular a menina – em um ataque de nervos juvenil compreensível, contudo, não tão convincente assim. No caso, o paralelismo entre as duas existe desde o começo da temporada, quando elas se observaram à distância. No mais, apenas Aaron (Ross Marquand) encontra-se verdadeiramente perdido no que tange suas motivações e seu arco narrativo. E aquela história dele parar de ser bonzinho e assumir uma vertente sua obscura? Mesmo assim, as interações entre ele e Gamma são excelentes, dado que não se possui plena noção da transformação que está acontecendo na personagem, se é que existe uma transformação. As perguntas que a remete a sua irmã e a sua sobrinha entram no momento certo, porque o texto, para se reiterar esse aspecto da temporada vigente e também da passada, permanece competente. Kang, portanto, continua acertando onde Gimple, outrora, errou.

The Walking Dead – 10X07: Open Your Eyes — EUA, 17 de novembro de 2019
Showrunner: Angela Kang
Direção: Michael Cudlitz
Roteiro: Corey Reed
Elenco: Norman Reedus, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Cassady McClincy, Seth Gilliam
Duração: 45 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.