Home TVEpisódio Crítica | The Walking Dead – 10X08: The World Before

Crítica | The Walking Dead – 10X08: The World Before

por Gabriel Carvalho
256 views (a partir de agosto de 2020)

“Você acha que merecemos uma segunda chance?”

  • Observação: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-offFear the Walking Dead.

Para uma midseason finale – o encerramento da primeira metade de uma temporada -, essa pode ser decepcionante para alguns espectadores. Os eventos narrados são, no geral, pouco chocantes em comparação a outras ocasiões, em que determinados personagens importantes morreram e/ou acontecimentos marcantes reviraram a narrativa da série. Mesmo assim, é injusto pontuar como negativo o esforço dado por Angela Kang à boa trama dessa sua décima temporada. Ela, no caso, avança para lugares interessantes com esse capítulo, ao mesmo tempo que retrocede para outros já explorados, num vai-e-vem curioso. Nesse confronto entre os protagonistas e os Sussurradores, existe um interesse por parte da showrunner em estabelecer um confronto que em vários aspectos se assemelha com o presenciado no arco do grupo de Negan, mas que também vai além. Cada uma das comunidades tem morais muito particulares. Porém, enquanto, no passado, o embate se aproximava bem mais de questões já existentes no nosso mundo pré-apocalipse – déspotas se aproveitando dos outros em prol dos seus -, o horror principiado por Kang, dessa vez, é mais próprio. No caso, Kang aproveita bastante o raciocínio dos Canibais, antagonistas da quarta e quinta temporada, que se “adaptaram” ao fim do mundo de uma maneira, ao nosso ver, desumana. O mundo de antes precisa ser restaurado ou uma chave é a redefinição de costumes “civilizados”?

Por aqui, há muito conteúdo novo – em vista de uma contínua evolução natural para os impasses que percorrem a série desde o seu começo -, mas também antigo – por conta de alguns aspectos menores que já foram cernes temáticos de momentos passados de outras temporadas. Ora, por quantas vezes a noção de “segunda chance” já não foi pauta para os arcos dos personagens? Com o assassinato de Siddiq (Avi Nash), a questão retorna, incorporada na inesperada atenção que o episódio dá ao Padre Gabriel (Seth Gilliam) – sumido. Pode soar completamente avulso esse tratamento dado ao personagem, contudo, na verdade, existe uma teoria – que não se confirmou, porém, espera-se – por trás disso. Como Kang tem o costume de coincidir arcos menores com a trama geral da temporada, o caso pode ser esse. É que Negan, há alguns episódios, quase foi executado por Alexandria, ao passo que o voto de Minerva seria justamente o de Gabriel. Logo, uma possível volta à casa do ex-antagonista ganha camadas. De longe, no mais, o retorno desta discussão acerca de matar ou não as pessoas é melhor posto em prática aqui do que em demais ocasiões, quando uma temporada inteira questionou se a misericórdia de Rick prevaleceria sobre a sua raiva – pensamento que é justo retomado nesse episódio. O minimalismo com que o Padre foi abordado nessa primeira metade não contraria a sua ação ao enfim executar Dante, mas a agrava.

Ao mesmo tempo, uma pequena cena de Aaron (Ross Marquand) com Grace impulsiona o que acontece na cela de Dante e depois, com Gabriel incinerando o corpo do homem – que tem sua história contada de maneira explícita no começo do episódio. Nela, o personagem conta uma parte do seu passado à garota, quando visitou os resquícios de uma tribo abandonada. Essa cena é extremamente importante, pois aproxima o drama de Gabriel com o drama de Alexandria como um todo: será que a comunidade resistirá ao tempo ou sucumbirá como outras do passado, mediante uma vitória dos Sussurradores, quiçá mais adaptados à sobrevivência? Contudo, reside em Rosita (Christian Serratos) o auge do drama no episódio. Para uma personagem pouco interessante em temporadas anteriores, Kang conseguiu dar uma carga aos seus impasses bem mais sincera que, por exemplo, a sua vingança contra Negan pela morte de Abraham. Dado o auxílio de um bom texto, momentos como a conversa dela com o Padre garantem uma mudança de perspectiva na série: morrer não é mais uma opção. Em meio a um mundo em que a morte é recorrente – os Sussurradores, no caso, aderiram à morte como máscara -, a possibilidade de Coco virar órfã é um medo a mais. Como o espião Dante (Juan Javier Cardenas), pontua, aquelas pessoas não são tão fortes como pensam. Esse é o caso de Rosita, mais “fraca” perante um temor que sente de morrer.

É interessante como as tramas vão conversando entre si, portanto, pois até mesmo Carol (Melissa McBride) encontra-se caminhando por esse mesmo raciocínio, só que oposto. Enquanto Rosita teme a morte, Carol, por sua vez, não se importa com ela – o que, em termos gerais, continua aquela discussão da mulher ser mais próxima à Alpha (Samantha Morton) do que parece ser. Fora isso, o gênero de terror retorna como parte crucial da dramaturgia da série, em meio a uma cena inicial que exemplifica toda a carga dramática carregada por Rosita. Uma pena que a competência de John Dahl para comandar esse segmento não retorne posteriormente, na fraca conclusão do episódio, que encerra a procura de Daryl (Norman Reedus), Carol e companhia pela horda de zumbis que Gamma (Thora Birch) – Mary, na verdade – apontou. Certamente algo de interessante pode ser tirado da ambientação principiada no gancho que a midseason finale cria – uma caverna recheada de mortos-vivos. Mesmo assim, a apresentação desse cenário em si é uma tragédia narrativa, pouco crível para pessoas que sobrevivem há anos no pós-apocalipse. Ora, todos os membros do grupo iriam juntos cair na armadilha que Alpha construiu? Parece até algo tirado diretamente de um episódio de desenho animado, coisa que em nada se compara com algumas escolhas mais inteligentes dos roteiristas para essa temporada e a anterior. Mas o gancho mora aí.

Por que, no mais, Carol não avisou ao restante do grupo que havia avistado Alpha? Logo depois de uma conversa com Daryl, a respeito de sua investida suicida, a mulher de repente se esquece do que seu amigo lhe disse, correndo infantilmente atrás de Alpha, que aparece entre as árvores. Dahl poderia ter brincado mais com as aparições da antagonista, por sinal. Até o momento, a temporada, embora ótima, está errando mais do que a anterior, e, acrescentando a isso, quiçá o núcleo de Virgil (Kevin Caroll) seja um outro problema. Michonne (Danai Gurira) é arrancada do seu habitat para ir com um desconhecido a uma ilha que, supostamente, terá armas para ela enfrentar os Sussurradores. Caso as armas existam, o truque vai ser uma resolução simples para um confronto que estava bem mais enervante – e todo mundo já está cansado de tiroteios. Já caso não existam, por que Michonne se arriscaria enquanto tem duas crianças para criar – o que, ora, a antagoniza em relação à Rosita? Mesmo com essa preocupação e que, na essência, as temáticas retratadas sejam parecidas com o sonho de Rick e Carl em restaurar a humanidade no pós-apocalipse, os contornos dados são distintos e justamente o que permitem que a série continue caminhando mais viva do que morta. Kang combina o horror com as suas discussões e escreve dramas mais competentes – e, no mais simples dos seus objetivos, tramas que realmente instigam.

The Walking Dead – 10X08: The World Before — EUA, 24 de novembro de 2019
Showrunner: Angela Kang
Direção: John Dahl
Roteiro: Julia Ruchman
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Josh McDermitt, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Seth Gilliam, Khary Payton, Cailey Fleming, Nadia Hilker, Cooper Andrews, Dan Fogler, Angel Theory, Lauren Ridloff, Kenric Green, Kevin Caroll
Duração: 45 min.

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27 comentários

Verônica T. 16 de março de 2020 - 22:59

Gabriel, o texto da sua assinatura/perfil é teu?

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planocritico 16 de março de 2020 - 23:07

Ele não trabalha mais para o site, mas o texto é uma amálgama em português de letras de canções do Queen.

– Ritter.

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Black Jack 16 de janeiro de 2020 - 03:54

Tá difícil ainda ser fã de The Walking Dead, sempre quando defendo a boa qualidade dessas duas temporadas recentes, vem sempre alguém dizer que a série só ficou “pior que antes, chata, previsível, enche linguiça” e que só continua msm pra encher os cofres da AMC. Fico indeciso se continuo argumentando, ou ignoro.

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Massy Andrade 29 de novembro de 2019 - 23:24

Achri muito forçada a partida da Michonne. Deixar os filhos assim?? Confiando na palavra de um estranho que acabou de conhecer??

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Gabriel Carvalho 2 de dezembro de 2019 - 01:52

Exato! Eu acho que ela tá otimista demais…

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joshua david 28 de novembro de 2019 - 13:57

Ótima crítica. E concordo, o final do episódio foi MUITO ruim! e o que falar da Carol? personagem mais BURRA da série… n tem condição.

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Gabriel Carvalho 2 de dezembro de 2019 - 01:52

Valeu, Joshua! Não acho a personagem mais burra da série, entendo todo o contexto para o que ela fez, mas foi repetido e idiota demais, até para alguém que se encontra em um estado meio idiotizado.

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joshua david 2 de dezembro de 2019 - 07:50

Realmente. Isso lembra muito o Rick vingativo na 8ª temporada, onde era monótono e bem forçado.

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Huckleberry Hound 27 de novembro de 2019 - 15:20

Achei bom a Alpha não ter morrido tão cedo ela tem que ser a vilã principal da temporada em vez do Beta sozinho já acho ela muito melhor que a versão da HQ e espero que seu fim seja diferente!

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Gabriel Carvalho 28 de novembro de 2019 - 20:39

Ela é muito boa mesmo, e adoro como a Kang tem uma visão bacana na concepção de horror por trás da personagem, colocando-a nas visões do Siddiq e, nesse episódio, sem fala alguma. Pena que o contexto, dessa vez, foi ruim.

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Junito Hartley 27 de novembro de 2019 - 11:06

Excelente critica, concordo com tudo, aquele final foi muito tosco, a Carol do jeito que é experiente e vivida, cair numa armadilha daquela e levar os outros com ela foi muito ridiculo.

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Huckleberry Hound 27 de novembro de 2019 - 15:20

Não sei se foi uma armadilha pra que mostrar pro grupo o local da horda?Só se ela esperasse que todos cairiam em cima dos zumbis!

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Gabriel Carvalho 28 de novembro de 2019 - 20:39

Valeu, Junito. Obrigado por ter acompanhado meus textos. O final foi muito tosco mesmo. Me lembrou de Scooby-Doo.

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Achilles Araujo 27 de novembro de 2019 - 10:45

Essa foi a pior mid season de toda a série, jesus amado.

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Huckleberry Hound 27 de novembro de 2019 - 15:20

Esqueceu da mid-season da sexta e oitava temporada então!

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Gabriel Carvalho 28 de novembro de 2019 - 20:39

Pqp, é verdade. Tinha até me esquecido dessas…

Responder
Gabriel Carvalho 28 de novembro de 2019 - 20:39

Para mim, está longe disso.

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Adilson 26 de novembro de 2019 - 18:18

Muito boa crítica. Os primeiros 3/4 do episódio foram excelentes, principalmente a angustiante cena inicial com a luta entre rosita e dante e a o despertar do walker siddiq. Mas a cena a la “scooby-doo” deles caindo na caverna, pra mim foi patética. Uma ou duas pessoas caírem até vai, mas todo mundo foi demais, ainda mais com a experiência deles. Achei o mesmo que você sobre o destino da Michonne. Tenho uma teoria sobre o que vai acontecer: talvez essa ilha seja uma base do grupo que levou Rick, quem sabe até o primeiro lugar pra onde ele foi levado. Ela descobre isso de alguma maneira e, ou é morta ou presa e levada pra algum outro lugar. Quem sabe o mesmo onde ele está agora e acabe virando um gancho pra participar dos filmes. Sei lá, talvez seja viagem minha…

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Gabriel Carvalho 28 de novembro de 2019 - 20:39

Valeu, Adilson. Obrigado pela atenção. Gostei muito da sua comparação com Scooby-Doo, mas também adicionaria aí uma pitada de Looney Tunes.

É interessante a sua viagem, cara, mas espero que não seja isso.

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Jose Claudio Gomes Souza 26 de novembro de 2019 - 14:55

A viagem de Michonne com Virgil em busca das armas, será o “gancho” para a saída da personagem da série?

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Artur Montenegro 26 de novembro de 2019 - 17:04

Até onde sei, é o início da saída. Michonne ainda vai aparecer durante a segunda parte da temporada, com um episódio focado só nela, segundo Angela.

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Gabriel Carvalho 28 de novembro de 2019 - 20:39

Opa, não sabia disso. Legal!

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Gabriel Carvalho 28 de novembro de 2019 - 20:39

Espero que não. Ela não se despediu de Judith.

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Max James 26 de novembro de 2019 - 13:37

Obrigado pela crítica Gabriel! Para mim foi o episódio mais fraco da temporada, mas ainda com uma qualidade superior ao que vimos na 7 e 8 temporada. Adorei a cena do Padre, mesmo sendo bastante brutal (acho que essa era a ideia, no entanto). O final me lembrou a mid season da 3 temporada, onde o Rick e o Daryl ficam presos numa arena do Governador. Espero que o resto da temporada mantenha a qualidade do que vimos até então.

Responder
Gabriel Carvalho 28 de novembro de 2019 - 20:44

Valeu, Max “007” James! Eu acho o “Silence the Whisperers” bem mais fraco, mas para mim esse episódio é o segundo mais fraco, mesmo que, no geral, tenha gostado.

Responder
Gabriel Carvalho 28 de novembro de 2019 - 20:44

Valeu, Max “007” James! Eu acho o “Silence the Whisperers” bem mais fraco, mas para mim esse episódio é o segundo mais fraco, mesmo que, no geral, tenha gostado.

Responder
Gabriel Carvalho 28 de novembro de 2019 - 20:44

Valeu, Max “007” James! Eu acho o “Silence the Whisperers” bem mais fraco, mas para mim esse episódio é o segundo mais fraco, mesmo que, no geral, tenha gostado.

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