Crítica | The Walking Dead – 10X08: The World Before

“Você acha que merecemos uma segunda chance?”

  • Observação: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-offFear the Walking Dead.

Para uma midseason finale – o encerramento da primeira metade de uma temporada -, essa pode ser decepcionante para alguns espectadores. Os eventos narrados são, no geral, pouco chocantes em comparação a outras ocasiões, em que determinados personagens importantes morreram e/ou acontecimentos marcantes reviraram a narrativa da série. Mesmo assim, é injusto pontuar como negativo o esforço dado por Angela Kang à boa trama dessa sua décima temporada. Ela, no caso, avança para lugares interessantes com esse capítulo, ao mesmo tempo que retrocede para outros já explorados, num vai-e-vem curioso. Nesse confronto entre os protagonistas e os Sussurradores, existe um interesse por parte da showrunner em estabelecer um confronto que em vários aspectos se assemelha com o presenciado no arco do grupo de Negan, mas que também vai além. Cada uma das comunidades tem morais muito particulares. Porém, enquanto, no passado, o embate se aproximava bem mais de questões já existentes no nosso mundo pré-apocalipse – déspotas se aproveitando dos outros em prol dos seus -, o horror principiado por Kang, dessa vez, é mais próprio. No caso, Kang aproveita bastante o raciocínio dos Canibais, antagonistas da quarta e quinta temporada, que se “adaptaram” ao fim do mundo de uma maneira, ao nosso ver, desumana. O mundo de antes precisa ser restaurado ou uma chave é a redefinição de costumes “civilizados”?

Por aqui, há muito conteúdo novo – em vista de uma contínua evolução natural para os impasses que percorrem a série desde o seu começo -, mas também antigo – por conta de alguns aspectos menores que já foram cernes temáticos de momentos passados de outras temporadas. Ora, por quantas vezes a noção de “segunda chance” já não foi pauta para os arcos dos personagens? Com o assassinato de Siddiq (Avi Nash), a questão retorna, incorporada na inesperada atenção que o episódio dá ao Padre Gabriel (Seth Gilliam) – sumido. Pode soar completamente avulso esse tratamento dado ao personagem, contudo, na verdade, existe uma teoria – que não se confirmou, porém, espera-se – por trás disso. Como Kang tem o costume de coincidir arcos menores com a trama geral da temporada, o caso pode ser esse. É que Negan, há alguns episódios, quase foi executado por Alexandria, ao passo que o voto de Minerva seria justamente o de Gabriel. Logo, uma possível volta à casa do ex-antagonista ganha camadas. De longe, no mais, o retorno desta discussão acerca de matar ou não as pessoas é melhor posto em prática aqui do que em demais ocasiões, quando uma temporada inteira questionou se a misericórdia de Rick prevaleceria sobre a sua raiva – pensamento que é justo retomado nesse episódio. O minimalismo com que o Padre foi abordado nessa primeira metade não contraria a sua ação ao enfim executar Dante, mas a agrava.

Ao mesmo tempo, uma pequena cena de Aaron (Ross Marquand) com Grace impulsiona o que acontece na cela de Dante e depois, com Gabriel incinerando o corpo do homem – que tem sua história contada de maneira explícita no começo do episódio. Nela, o personagem conta uma parte do seu passado à garota, quando visitou os resquícios de uma tribo abandonada. Essa cena é extremamente importante, pois aproxima o drama de Gabriel com o drama de Alexandria como um todo: será que a comunidade resistirá ao tempo ou sucumbirá como outras do passado, mediante uma vitória dos Sussurradores, quiçá mais adaptados à sobrevivência? Contudo, reside em Rosita (Christian Serratos) o auge do drama no episódio. Para uma personagem pouco interessante em temporadas anteriores, Kang conseguiu dar uma carga aos seus impasses bem mais sincera que, por exemplo, a sua vingança contra Negan pela morte de Abraham. Dado o auxílio de um bom texto, momentos como a conversa dela com o Padre garantem uma mudança de perspectiva na série: morrer não é mais uma opção. Em meio a um mundo em que a morte é recorrente – os Sussurradores, no caso, aderiram à morte como máscara -, a possibilidade de Coco virar órfã é um medo a mais. Como o espião Dante (Juan Javier Cardenas), pontua, aquelas pessoas não são tão fortes como pensam. Esse é o caso de Rosita, mais “fraca” perante um temor que sente de morrer.

É interessante como as tramas vão conversando entre si, portanto, pois até mesmo Carol (Melissa McBride) encontra-se caminhando por esse mesmo raciocínio, só que oposto. Enquanto Rosita teme a morte, Carol, por sua vez, não se importa com ela – o que, em termos gerais, continua aquela discussão da mulher ser mais próxima à Alpha (Samantha Morton) do que parece ser. Fora isso, o gênero de terror retorna como parte crucial da dramaturgia da série, em meio a uma cena inicial que exemplifica toda a carga dramática carregada por Rosita. Uma pena que a competência de John Dahl para comandar esse segmento não retorne posteriormente, na fraca conclusão do episódio, que encerra a procura de Daryl (Norman Reedus), Carol e companhia pela horda de zumbis que Gamma (Thora Birch) – Mary, na verdade – apontou. Certamente algo de interessante pode ser tirado da ambientação principiada no gancho que a midseason finale cria – uma caverna recheada de mortos-vivos. Mesmo assim, a apresentação desse cenário em si é uma tragédia narrativa, pouco crível para pessoas que sobrevivem há anos no pós-apocalipse. Ora, todos os membros do grupo iriam juntos cair na armadilha que Alpha construiu? Parece até algo tirado diretamente de um episódio de desenho animado, coisa que em nada se compara com algumas escolhas mais inteligentes dos roteiristas para essa temporada e a anterior. Mas o gancho mora aí.

Por que, no mais, Carol não avisou ao restante do grupo que havia avistado Alpha? Logo depois de uma conversa com Daryl, a respeito de sua investida suicida, a mulher de repente se esquece do que seu amigo lhe disse, correndo infantilmente atrás de Alpha, que aparece entre as árvores. Dahl poderia ter brincado mais com as aparições da antagonista, por sinal. Até o momento, a temporada, embora ótima, está errando mais do que a anterior, e, acrescentando a isso, quiçá o núcleo de Virgil (Kevin Caroll) seja um outro problema. Michonne (Danai Gurira) é arrancada do seu habitat para ir com um desconhecido a uma ilha que, supostamente, terá armas para ela enfrentar os Sussurradores. Caso as armas existam, o truque vai ser uma resolução simples para um confronto que estava bem mais enervante – e todo mundo já está cansado de tiroteios. Já caso não existam, por que Michonne se arriscaria enquanto tem duas crianças para criar – o que, ora, a antagoniza em relação à Rosita? Mesmo com essa preocupação e que, na essência, as temáticas retratadas sejam parecidas com o sonho de Rick e Carl em restaurar a humanidade no pós-apocalipse, os contornos dados são distintos e justamente o que permitem que a série continue caminhando mais viva do que morta. Kang combina o horror com as suas discussões e escreve dramas mais competentes – e, no mais simples dos seus objetivos, tramas que realmente instigam.

The Walking Dead – 10X08: The World Before — EUA, 24 de novembro de 2019
Showrunner: Angela Kang
Direção: John Dahl
Roteiro: Julia Ruchman
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Josh McDermitt, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Seth Gilliam, Khary Payton, Cailey Fleming, Nadia Hilker, Cooper Andrews, Dan Fogler, Angel Theory, Lauren Ridloff, Kenric Green, Kevin Caroll
Duração: 45 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.