Crítica | The Walking Dead – 10X09: Squeeze

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Um triunfo de sobrevivência isolado.

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

Antes de iniciar a crítica do episódio em si preciso estabelecer minha relação com essa tão injustiçada série, já que serei o crítico representante dela a partir daqui. Diferentemente da maioria que ainda a acompanha, apesar de profundo admirador do universo zumbi, iniciei The Walking Dead quando ela já estava rodando a 6ª Temporada, pelo amplo burburinho dos acontecimentos relacionados à quase morte do Glen. Comecei despretensioso, até me encantei nos 6 episódios iniciais, mas me tornei fã mesmo depois da espetacular 2ª Temporada (discordando inteiramente do meu editor-chefe e parceiro Luiz Santiago, responsável pelo texto à época). A partir daí, a série apresentou diferentes montanhas-russas que iam desde o completo desequilíbrio agravado por decisões equivocadas e mercadológicas dos seus produtores até momentos de brilhantismo visceral (como a mencionada época do burburinho), quando a série provocava enorme gama de sentimentos em exercício de gênero e subversão de expectativas no desenvolvimento dos personagens.

Fato é que mesmo com essa irregularidade, pelo menos até o primeiro episódio da 7ª Temporada, principalmente por ser uma série que pensa metade/metade no apuro de audiência e nas decisões autorais, a parte autoral falava mais alto e sustentava a segunda, tanto que naquele momento era o segundo maior pico de público da história da série. Talvez pelo grande impacto daquele episódio em específico, graficamente falando, a lógica passou a ser inversa, e toda a real e gigantesca demora no desenrolar do arco do Negan foi suficiente para toda a sustentabilidade desmoronar em um rótulo pejorativo para a série, consequentemente afastando por completo a audiência popular e sobrando apenas aquela que ainda acreditava, graças aos pequenos lapsos de inteligência durante as famigeradas 7ª e Temporadas, que isso era apenas uma fase ruim e logo mais iria passar.

De fato, com Ângela Kang assumindo como showrunner, a 9ª Temporada, mesmo se comportando como tapa-buracos de diversas problemáticas criadas pelas anteriores, e na produção com constante perda de elenco, conseguiu renovar o fôlego do seriado próximo do padrão que um dia já foi, dando diversas pontas experimentais de novas possibilidades para o futuro décimo ano. Contudo, ao contrário novamente da opinião do queridíssimo ex-colunista Gabriel Carvalho, responsável pelas críticas da primeira metade dela, acredito que a primeira metade da 10ª Temporada retomou muito das problemáticas do seu período sombrio, tais como organização de tabuleiro pouco objetiva disfarçada em dramaticidades cíclicas e sem consequência para os personagens, aliado a uma incerteza preocupante para onde direcioná-los. Felizmente a segunda metade já demostra o completo oposto, e novamente retoma o espírito corretor e experimental da 9ª Temporada, em um episódio devidamente complexo, corajoso e estruturalmente bem elaborado.

Depois dessa retrospectiva toda, é hora de explicar os porquês de este ser talvez o melhor episódio da série desde o mencionado primeiro capítulo da sétima temporada, no mínimo já é com sobras o melhor da temporada. Primeiramente, ele reuniu todas as melhores e isoladas características que os bons episódios da série reuniram nesse meio-tempo. Começando pelo experimento de cenário: Um dos fatores que mais contribuíram para o enjoo de The Walking Dead aos olhos populares foi passar tantos anos num mesmo ensolarado das florestas nos arredores de Alexandria. Então, quando isso muda já proporciona um frescor, e com isso, novas formas de trabalhar personagens, situações de risco, dentre outras. A 9ª Temporada beliscou esse intuito, com as florestas mais neblinosas com direito a cemitérios e uma atmosfera de terror, fora aquele último e infeliz único episódio com eles na neve. Enfim, o ambiente da vez é uma caverna, que além de ser uma saída inteligente para contornar a baixa de efeitos visuais da supermanada de zumbis, é um local naturalmente hostil pela claustrofobia, sentimento esse fundamental para a elaboração de gênero e dramática do episódio.

No campo de gênero, deixa tudo com um clima muito incerto, uma sensação já claudicante no público que acompanha The Walking Dead e se acostumou com seus personagens como seres sobrenaturais imortais, como a Carol, inclusive a responsável por meter todo aquele grupo naquela situação e ainda com o bônus de um estabelecimento (conveniente é verdade) de sua condição claustrofóbica. Logo na cena inicial, que poderia ser manjada, o controle de câmera diferenciado do diretor responsável, Michael Satrazemis, já insinua um risco maior ao menos aos coadjuvantes. O líder (e aí sim, imortal) Daryl vai na frente na brincadeira do chão de lava com zumbis, e depois dele, até pela característica escorregadia das rochas, junto à ameaça do diretor com o risco, realmente tornam a cena angustiante, como poucas nos últimos anos da série. Fatalmente, depois disso, há uma preocupante pausa, mas cirúrgica e objetiva (finalmente) para o desequilíbrio futuro da relação entre Daryl e Carol.

Enquanto isso, no risco e trabalho em equipe, cada secundário vai ganhando um microcosmo de desenvolvimento, que para quem é fã e já manja, é sinônimo de morte, algo historicamente estabelecido na série. Ou seja, a partir dali alguém pode sobrar, e sempre quando isso acontece, a angústia durante o episódio se torna constante. O diretor parece ter ciência disso e escolhe sabiamente não trocar de núcleo, só mudando em pequenas e esporádicas cenas para o desenrolar de Alfa e a descoberta da traição de Gama, que aí já não é tanto um problema do episódio porque foi terrivelmente desenvolvido nos episódios anteriores, mas até nisso o episódio acerta ao focar mais na sugestão inicial para a prática ficar em outro capítulo, e assim explorar uma surpreendente e funcional tensão sexual entre a líder e Negan, que ganha um animalesco sexo (pena que não mostrado, mas mesmo assim sugestivamente poético e bizarro) após peitar Alfa e mostrar sua desconfiança pela experiência na exposição da espiã.

Voltando ao núcleo que interessa, após o surgimento (conveniente também) de alguns susurradores nos arredores, o grupo de prisioneiros consegue encontrar um meio bastante apertado de poder encontrar uma saída. Outra cena de bastante destaque pelos mesmos motivos, um gostinho provocativo e inesperadamente ainda mais corajoso que o anterior, amplificado pelos dois estabelecimentos de riscos anteriores, tanto do desenvolvimento dos personagens quanto da condição física claustrofóbica de Carol, remetendo imediatamente a qualquer coisa que acontecesse ali, sua parcela de culpa seria total. E quase acontece, Jerry se espreme todo, mas consegue por pouco escapar dos dois zumbis que quase o mordem no estreito buraco… Mas é isso mesmo? Zumbis aparecendo para dar vulnerabilidade aos personagens? É por isso que The Walking Dead precisa explorar mais cenários diferentes como esse.

E chegamos no grande triunfo, o gran finale da jornada por todo o espírito, pistas espalhadas não poderiam deixar em branco. Carol, numa última atitude irracional, mais uma vez atrasa o grupo, mas desta vez houve consequências. Mas antes de falar delas, é necessário enaltecer a destreza sutil do roteiro, que sabe tratar de temas passados, afinal, não é a primeira vez que ela fica louca, tampouco que perde um colo materno, mas excepcionalmente a reciclagem é a arma para um futuro dramático ainda mais potente, a perda de confiança do grupo por egocentrismo. E aí chegamos no clímax (com direito a mais uma coincidência de ter dinamites ali), onde nem todos conseguem escapar, e Connie e Magna acabam presas (e se duvidar mortas) na caverna, sem uma perspectiva de saída, típico final desolador (que seria ainda mais se fossem outros personagens ali) que a série costumava ter. 

Em compensação, o que é ainda mais desolador é ver essa consequência plantada previamente desde o início da temporada, dessa possível quebra de relações com a Carol, num show de performance, Melissa MacBride entrega todo o desamparo da personagem pedindo para ter a culpa apontada na cara. E isso é The Walking Dead, aquela série que amassava os personagens ao limite naquele mundo e foi algo que se perdeu, porque eles ficaram, assim como o público, acostumados demais com ele, a ponto de parecer que nada mais tinha riscos ou conflitos gerados por displicência humana. Algo que a 2ª Temporada trabalhava maravilhosamente, quando o acaso e a desgraça colhiam frutos de uma expurgação de nossos dilemas morais. Por mais manjada que tenha sido a elaboração do roteiro para proporcionar o retorno dessas emoções, não deixa de ser um deleite revisitá-las genuinamente, pelo menos por um capítulo.

O medo é o que virá depois daqui, será que finalmente a série acordará e garantirá pelo menos uma regularidade crescente até o final? Porque em mid-season é fácil, já estamos também acostumado com sempre ter os melhores episódios entre os hiatos. Então é difícil ser verdadeiramente crente nisso, já que provavelmente nem a Connie nem a Magna morreram, por exemplo, ou que tudo que a Carol esteja sentido e que os outros sintam por ela seja apenas um ciclo passageiro, e que depois daqui, assim como no episódio da neve, nunca mais a série volte para explorar esse tipo de cenário onde os zumbis podem ser ameaças reais aos personagens de novo. Mas enfim, isso já são outros quinhentos, ao menos o intitulado Squeeze cumpre isoladamente muito bem seu papel, um episódio survival, visceral, memorável e emocionante, digno da melhor época que essa série viveu um dia.

The Walking Dead – 10X09: Squeeze — EUA, 23 de fevereiro de 2020
Direção: Michael Satrazemis
Roteiro: David Leslie Johnson
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Josh McDermitt, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Seth Gilliam, Khary Payton, Cailey Fleming, Nadia Hilker, Cooper Andrews, Dan Fogler, Angel Theory, Lauren Ridloff, Kenric Green, Kevin Caroll
Duração: 45min.

IANN JELIEL . . . Um aspirante a engenheiro da computação que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.